Pode causar estranheza, mas muitas vezes os historiadores se valem de fontes que o senso comum pode até considerar bizarro, mas que fornecem ao pesquisador material suficiente para se reconstituir as relações familiares, as mentalidades, as visões de mundo, o comportamento, entre outras informações. Assim o fez o historiador francês Philippe Ariès em dois volumes de sua obra O Homem perante a Morte, um clássico no tema.
História e Memória

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
O ano era o de 1964. César Lívio (06/01/1943) era estudante secundarista do Colégio Municipal Rui Barbosa do turno da noite. Saindo do trabalho na fábrica Filó, dirigiu-se ao Colégio Rui Barbosa e, como fazia sempre, tomou o mingau que era oferecido aos alunos enquanto esperava no pátio da instituição o início da aula. Mais um dia na rotina de César Lívio entre o trabalho e o colégio. No entanto, aquele não foi um dia de aula qualquer. Foi um dia atípico. Antes mesmo do início das aulas, um jeep do Exército estacionou em frente ao colégio, saindo seis soldados dele.
A guerra, as fábricas e o trem no cotidiano da cidade
Nascida na Alemanha em 23 de janeiro de 1918, Brigitte Schlupp veio para o Brasil no início da década de 1920. Sua família se instalou inicialmente na Bahia, mas logo se mudaram para o Rio de Janeiro. Da Bahia, se recorda de uma história que a mãe lhe contara. Certa feita, sua mãe a mandou ir à rua para comprar pão. Tinha aproximadamente cinco anos de idade. Uma mulher negra lhe pegou pela mão e a conduziu à sua casa, advertindo sua mãe: “Não se pode deixar uma menina branca ir sozinha na rua. Isso não é costume”.
Quem nunca teve a curiosidade em ver os presentes de uma noiva? Quais foram os presentes e quem deu o quê? Bem, acredito que a curiosidade aumente ainda mais quando se trata de um casamento realizado há oitenta anos atrás, em 1929. Trata-se do enlace da filha do deputado federal e importante político local Galdino do Vale Filho, Sylvia Veiga do Valle, com Alair Accioli Antunes. Antes de relacionar os presentes, vamos analisar algumas práticas da época retiradas tão somente dessa lista, cujos fragmentos podem nos dar pistas do comportamento da elite no passado.
Em 1824, colonos alemães migraram para o recém criado termo de Nova Friburgo. Sessenta e oito anos depois, ocorreria uma segunda onda migratória de alemães, ainda estimulada pelo governo. Já no primeiro decênio do século XX, um grupo de empresários alemães investiu em indústrias de grande porte, transformando Nova Friburgo em uma cidade industrial. Havia no município a Sociedade Alemã de Nova Friburgo e igualmente a Sociedade Alemã de Escola e Culto, esta última com estatuto próprio, cuja sede ficava na Estrada do Reservatório.
Monteiro Lobato publicou um conto em 1906 intitulado Cidades Mortas, descrevendo a decadência das cidades outrora opulentas do Vale do Paraíba Fluminense. Lobato escreveu: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito”. Muitos habitantes dessas cidades mortas migraram para municípios mais prósperos, como o caso de Nova Friburgo que se tornou um ponto de convergência e referência educacional e cultural de inúmeras cidades do Norte fluminense. Vamos nos limitar a um único exemplo que serve de parâmetro para outros municípios.
Recebi um e.mail de um amigo carioca que me escreveu dizendo que na semana passada, lembrou-se muito do meu livro sobre a história de Friburgo. Ele se sentia como os cariocas do final do século XIX: ávidos por saírem no verão do Rio de Janeiro e pegarem o primeiro trem para Nova Friburgo. Estando em Friburgo, senti uma profunda comiseração por este meu infeliz amigo carioca. Os termômetros no Rio estão marcando 49 graus, mas a sensação térmica vai além de 50 graus.
Na matéria de hoje relato uma situação que ocorreu no Carnaval de Nova Friburgo, no início do século XX. Apesar da violência do fato, não deixa também de ser jocoso. Trata-se de um carnaval de rua, onde participava o ‘Zé-Povinho’, palavras da época, que se divertia a fartar na Rua do Arco, à época denominada Beco do Arco. Até hoje temos a rua com este nome. No passado, era onde moravam as classes populares, com casas do tipo meia-água, estreitas e geminadas.
O que tanto fazia D. Pedro II em Nova Friburgo? Há o registro de diversas passagens do Imperador à cidade. De acordo com a ata da Câmara de 1868, Nova Friburgo recebeu a visita de Sua Augusta Majestade Imperial nesse ano. Essa notícia é confirmada pelo jornal O Nova Friburgo, de 1935, onde a princesa Izabel escolheu a Cascata Pinel para oferecer à embaixada chilena uma “festa campesina”, contando com a presença do ilustre imperador, d. Pedro II, e do marido da princesa, o conde d’Eu.