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Como viver num mundo agressivo se você não é uma pessoa agressiva?
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Vivemos num mundo de competição, muitas vezes maldosa, agressiva, e até violenta. Mas temos que viver numa sociedade assim, a menos que decidamos ir para um mosteiro, numa comunidade pequena isolada numa montanha, indo à cidade somente para o essencial. Resolveria sua dificuldade de autoproteção? Faria útil sua existência? Como se proteger da agressividade cansativa da sociedade "normal”?
Você já lidou com balconista, chefe, parente, que deram resposta agressiva para sua pergunta? Ou, comum no Brasil infelizmente, já lidou com funcionário público com má vontade de lhe atender, respondendo suas perguntas com monossílabos, como se tivesse lhe fazendo imenso favor, em vez de atender com simpatia na função para a qual deve ser muito bem pago com o dinheiro dos impostos que pagamos?
As agressões verbais perturbam bem mais os passivos que não sabem o que fazer na situação, porque os naturalmente assertivos já têm uma agressividade autoprotetora que os ajudam bastante na vida social. Parece que os assertivos conseguiram reagir bem a comportamentos disfuncionais na infância, ou seja, se protegeram bem de atitudes erradas de seus pais, brotando de dentro delas a autodefesa com facilidade, enquanto que os irmãos/irmãs com outro temperamento, e diante da mesma atitude errada dos pais, podem não ter tido esta capacidade de reagir em defesa própria.
Quando uma criança dá os primeiros passos para se autodefender e é castrada, às vezes com palavras duras dos pais, como: "Cale a boca! Quem manda aqui é seu pai/sua mãe!”, a autoridade normal dos pais se torna ditadura emocional e destrói na criança a noção de valor pessoal, direito de ser alguém, de se defender e se torna um adulto inseguro. Este é o caso em que os pais deveriam ter oferecido espaço para a criança expressar a ideia ou zanga normal dela, mas foi criticada e castigada, talvez por pais que a amavam, mas não sabiam dosar a colocação de limites com dar liberdade à criança para expressar sua zanga normal. Numa família assim, por outro lado, a criança que tem uma natural força de autoproteção é geralmente castigada, mas sem perder a capacidade de se defender.
A criança castrada na sua expressão de zanga, ideias, pontos de vista, se torna superobediente porque ao longo dos anos de convívio com pais confusos sobre a questão de colocação de limites e exercício de autoridade aprende, erradamente, que tem que ser sempre "boazinha”, nunca pode questionar nada, e que não tem direito de se defender. Isto é um desastre para a vida adulta porque esta pessoa terá que enfrentar um mundo agressivo, com pessoas agressivas, dominadoras, abusivas, autoritárias.
As crianças que não aprenderam a exercer seu direito de ser plenamente um indivíduo que tem ideias, pensamentos próprios, serão adultos que pagarão um preço alto para se sentirem amadas, tendo forte tendência a deixarem de lado o autorrespeito, e frequentemente trocarão o "Eu quero sim” por "O que você quiser”, serão flexíveis demais. Prejudicarão a si mesmos por não saberem confrontar os outros com uma postura firme e forte. Perderão a noção do que querem. Ou saberão o que querem, mas não terão forças para lutar por isso.
O caminho para um adulto não agressivo sobreviver num mundo cruel, envolve entender que ele(ela) está ainda com necessidade forte de ser amado(a), trazida da infância e que precisará abrir mão disto para começar a se defender e ser a pessoa que precisa ser para viver a vida que tem direito de viver.
Em seguida precisará treinar papéis assertivos, imaginando cenas comuns da sua vida que ocorrem diariamente, como lidar com um patrão autoritário, uma esposa "bronca”, um marido grosseiro, etc. Este treinamento envolve pensar no que possivelmente ocorrerá na interação com a outra pessoa e o que será adequado falar, qual será a melhor postura física (olho no olho, ombros para cima, coluna reta), e fazer isto em casa, talvez diante do espelho. Também poderá escrever algumas frases que usará no diálogo com a pessoa agressiva, e tentar decorá-las para usá-las no momento oportuno.
Será importante pensar no alvo daquele contato, o que quer, o que não quer, e na hora não perder o foco deste alvo. Geralmente pessoas passivas abaixam a cabeça, não dizem o que queriam, e assim não conseguem o objetivo almejado.
Outra técnica é pensar na hora do contato com a pessoa agressiva que você não deve agir como ela, ou seja, responder no mesmo nível, porque ela pode estar provocando isto. Tem pessoas que adoram discutir. É a neurose delas. Evite isto. Você não tem que entrar neste jogo neurótico. Pense: até que ponto é importante eu me desgastar com esta pessoa briguenta? Algumas vezes ela terá que ouvir sim, o que você precisa dizer mesmo que seja algo forte. Então, diga com voz firme, olho no olho, ombros eretos, sem se preocupar com a reação dela, mas sim com o que é preciso ser dito, quer ela goste, quer não. Estes são alguns passos para resgatar a identidade normal perdida no passado.

Cesar Vasconcellos de Souza
Saúde Mental e Você
O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.
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