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Saúde mental e você - 7 de julho de 2011
Narcisismo: a arrogância do self. E a dor por detrás
“Metade do prejuízo que se faz neste mundo é devido a pessoas que querem se sentir importantes. Elas não querem causar prejuízo — porém, o prejuízo não interessa para elas. Ou elas não o veem, ou elas o justificam porque estão absorvidas numa luta infindável para pensar bem a respeito delas mesmas.” T. S. Eliot
“Aquele que não negar a si mesmo, não pode entrar no Reino de Deus.” Jesus Cristo.
Narcisismo significa amor exagerado por si mesmo, preocupação com autoadmiração, uma pessoa centrada demais em si. Narcisismo vem de Narciso, um mito grego que se apaixonou pela sua própria imagem ao se observar no reflexo da água de um lago. Sigmund Freud descreveu “narcisismo” em sua teoria psicanalítica, falando de narcisismo primário e secundário, referentes a uma forma de estruturação da personalidade e etapas do desenvolvimento do ser humano.
Uma personalidade narcisista se estrutura pela fixação do desenvolvimento pessoal em etapas infantis de profunda gratificação, ou em uma regressão a estes períodos devido à sua incapacidade de tolerar e enfrentar os desafios da maturidade que a vida exige.
Ainda que todas as pessoas possam ser narcisistas até certo ponto, existem formas de narcisismo altamente prejudiciais classificadas como desordem mental, como o Transtorno de Personalidade Narcisista, que perturba a vida da pessoa em todas as esferas, seja na forma como ela vê a vida, como lida com os outros, como expressa seus sentimentos, como pensa, como vive em sociedade, sendo sempre de uma forma mal-adaptada, rígida, prejudicando a si mesmo e aos que com ela convive.
Para ser diagnosticado como Personalidade Narcisista, é preciso apresentar pelo menos cinco (5) destas características: 1)Senso exagerado de importância pessoal, esperando ser reconhecido como superior mesmo sem ter feito grandes coisas ou possuir talentos especiais; 2)Preocupação com fantasias de sucesso, beleza, amor ideal, esplendor ilimitado; 3)Crença de que é “especial”, único e somente pode ser entendido por, ou associado com, outra pessoa especial de alto status; 4)Requer excessiva admiração; 5)Tem senso de autoridade, isto é, expectativas irrazoáveis de receber tratamento especial ou obediência automática diante de suas expectativas; 6)É exploradora nas relações interpessoais, isto é, tira proveito das pessoas para alcançar suas metas; 7)Carece de empatia, por não ter disposição para reconhecer ou identificar os sentimentos e necessidades dos outros; 8)É frequentemente invejoso ou crê que os outros têm inveja dele; 9)Mostra arrogância e atitudes orgulhosas ou altivez.
“Existe na pessoa narcisista uma sede inesgotável de admiração e adulação, esta última o incapacita para poder refletir e inclusive pensar. Vive mais preocupado com sua atuação, enquanto à teatralidade e reconhecimento de suas ações, do que com a eficácia e utilidade das mesmas. Sua visão é o padrão ao qual o mundo deve se submeter. O narcisista é uma pessoa que ainda que possua inteligência aguda, esta se encontra obnubilada pela visão grandiosa de si mesmo e por sua fome de reconhecimento. Vemos, assim, como muitas pessoas que, podendo ser exitosas, produtivas e criativas, submetem sua vida a mediocridades aduladoras. Elas, drogadas por seu discurso autodirigido, não são capazes de refletir e escutar o que o mundo objetivo lhes grita.” (Dr. Gonzalo Himiob, Venezuela Analítica - Revista Electrónica No.16, Junio 1997, Caracas, Venezuela.)
Por outro lado, a pessoa narcisista sofre, e o próprio narcisismo pode ser visto como uma defesa ou uma forma de sobrevivência àquilo que ameaçou sua estrutura de personalidade de maneira muito forte e significativa nos primeiros anos da infância. Muitas personalidades famosas narcisistas caem num degradante vício em drogas, incluindo o alcoolismo, como consequência de terem tido seu ego ferido no presente e esta dor infantil malresolvida do passado.
A saída é falar, num ambiente terapêutico acolhedor e compreensivo, da dor escondida, chorar as perdas. Mas para isto é preciso, claro, reconhecer que a dor está ali, por detrás da maquiagem de grandiosidade, e não querer mais fingir e manipular as pessoas. É preciso aceitar as perdas da vida, especialmente do que foi perdido afetivamente no passado infantil, a perda de parte importante na estruturação de sua personalidade.
Também é preciso decidir escolher parar com todo o movimento pessoal no sentido de exaltação própria egoísta. Parar de focar a vida em si. Parar de concentrar os pensamentos em si mesmo. E passar a ajudar outras pessoas voluntária e gratuitamente. Morrer para este ego narcísico e renascer pelo milagre da cura interior que produzirá um ego saudável, vazio de si mesmo e cheio de vida. Lembra que Jesus disse que o reino de Deus não vem com aparência exterior?

Cesar Vasconcellos de Souza
Saúde Mental e Você
O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.
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