O significado do nervosismo

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Nervosismo é um termo popular. Pessoas usam a palavra “nervosismo” e “nervoso” para diferentes tipos de comportamento. Às vezes se diz que uma pessoa é nervosa por não se controlar, tendo “estopim curto”. Outras vezes é porque a pessoa não consegue permanecer serena em certas situações, ficando extremamente ansiosa, inquieta, insegura. Também se diz que alguém é nervoso quando é irritadiço, encrenqueiro, briguento. Outras pessoas comentam que são nervosas porque ficam tremendo diante de desafios (um novo trabalho, um novo namoro, uma viagem, etc), e sentindo-se incapazes de lidar sozinhas com a situação, que para elas é assustadora.

Desde pequenos nos ensinam a andar, ler, escrever, comer sozinhos, realizar tarefas, fazer nossa higiene pessoal sozinhos, ir à escola ou comprar algo sem um adulto junto, etc. Aprendemos a trabalhar, estudar, produzir dinheiro para nossa sobrevivência, nos ensinam a orar, assistir a um serviço religioso, etc. E quanto ao aprendizado do lidar com as emoções, com os complicados sentimentos e pensamentos que surgem em nossa mente? Onde aprendemos isto? Quem nos ensina isto?

Você já viu em algum currículo escolar uma matéria chamada “Lidando com Sentimentos”, ou “Como administrar suas emoções”? Eu nunca vi. Bons pais, que amam seus filhos, geralmente os educam para tarefas do dia a dia, não sendo comum achar os que educam os filhos a lidar com as complicadas emoções que crianças também têm.

Um exemplo de família onde há nervosismo pode ser o seguinte: o pai explosivo e calado, as pessoas andavam perto dele com a impressão de que ele iria explodir a qualquer momento. Andar de carro com ele ao volante era um estresse. Diante de um semáforo vermelho, ele metia a mão da buzina logo que o mesmo ficava verde, sem dar tempo ao motorista da frente de engatar a marcha. Se alguém estava na velocidade normal na rua, mas não a que ele queria, resmungava e forçava ultrapassagem. 

A mãe uma tagarela nervosa imatura no lidar com as próprias emoções. Dirigia-se aos filhos com estupidez, irritação, impaciência, gritando para eles fazerem as tarefas. Um dos filhos, o do meio, era mesmo mais distraído e temperamental. Ora a mãe falava com grosseria com ele, ora o abraçava e dizia o quanto o amava. A menina mais velha era uma graça, dócil, pensativa, estudiosa, e a mãe se dirigia a ela dizendo nervosamente: “Você é igual seu pai, lenta e lerda!” A criança não era isso que a mãe dizia. Ela não era nervosa como a mãe, mas era cumpridora das tarefas que a ela cabiam. A mãe agia assim por causa de seu próprio nervosismo. Na hora de deitar, abraçava, dava um beijo e dizia que a amava. Que paradoxo de comportamento! Certo dia esta mãe, irritada, largou o filho mais novo na loja de um shopping e saiu para o corredor, resmungando alto para todos escutarem: “Ah! Quando me irrita eu largo mesmo! Deixo ele sozinho! Quem aguenta?” Isto é nervosismo.

Esta mãe depreciava o marido na frente de qualquer um. Um dia criticou o marido na frente de pessoas, dizendo: “Todo mundo entende isto, só você é que não!” Só faltou chamá-lo de idiota explicitamente! Imagine a vergonha dele, não sendo um idiota como ela afirmou. Dá pena das crianças vivendo num lar caótico psicologicamente, ainda que possa ser materialmente rico.

Isto é um exemplo de “nervosismo”. Pessoa inquieta, irritada, insegura, ambivalente, paradoxal, com altos e baixos exagerados, ou calado mas explosivo. A falta de percepção do próprio comportamento retarda a possibilidade de recuperação emocional. Como uma pessoa pode melhorar algo se não percebe o problema? 

Pessoas “nervosas” podem ter um problema de identidade psicológica, uma falta de segurança interior e talvez uma fragilidade na estrutura de sua personalidade. 

Como resolver o nervosismo? Se ele veio em parte por herança genética (pai ou mãe eram nervosos), e/ou copiou o modelo da pessoa influente que lhe criou, se ficou assim desde algum evento estressor, não importa, a responsabilidade de mudar é pessoal. Então, pode ser tentado o seguinte: 1)Aceite que há esta dificuldade em seu jeito de ser e que é um problema seu; 2) Pare de ficar culpando as pessoas e circunstâncias do passado e do presente como culpadas do seu nervosismo; 3) Entenda e aceite que precisa mudar; 4)Cultive o desejo de mudar; 5)Fique pronto para mudar, ou seja, decidido por causa de um desejo pessoal profundo de mudar; 6) Procure ajuda em aconselhamento psicológico individual ou de grupo, caso não consiga melhorar sozinho; 7) Leia bons livros sobre o assunto; 8) Assista alguma palestra ou seminário sobre o tema; 9) Peça aos amigos e parentes que digam como veem seu comportamento e tenha humildade ao ouvir e coragem para aceitar o que for verdadeiro, usando o comentário como fonte de saber o que mudar; 10) Decida parar de funcionar do jeito que age, utilizando o pensamento consciente para isto. Diga: “Não vou agir mais assim.” Morda a língua, vá dar uma volta, tome uma ducha, cante, ore, respire fundo, escreva, mas não se deixe levar mais pelo “nervosismo”; 11)Entenda e creia que ter as emoções não é o problema, mas o desafio é tê-las sem que elas o tenham; 12) Enquanto aprende a se controlar, descarregue o nervosismo com atividade física vigorosa, capinando, cuidando do jardim, fazendo ginástica, escalando um morro, pedalando uma bicicleta, etc, mas não agredindo as pessoas com palavras e atitudes decontroladas.

TAGS:
César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.