O que é mais importante para você: filhos ou romance? Um formato de casamento

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Um dos vários tipos de relacionamento entre marido e mulher é aquele no qual o marido é bom pai, é carinhoso e atencioso para com os filhos, mais afetivo com eles do que a mãe deles. Geralmente, neste formato de casamento esta mulher é impaciente, parece bem carente de atenção, tem o marido como sua fonte de segurança emocional (para ela, o marido tem que estar lá para ela), tem tendência a ter mais crises histéricas (aquela em que há exagerada sensibilidade emocional e "crises nervosas”), é ranzinza, está mais preocupada com sua carência de romance, querendo emocionalmente um tipo de exclusivismo afetivo da parte do marido e meio que deixando de lado os filhos.

Este tipo de vida conjugal geralmente é estressante, com frequentes brigas e desentendimentos, os filhos se adaptam melhor ao pai, e pode levar a separação em muitos casos.

Muitos problemas de conflito no casal têm origem em situações traumáticas ocorridas antes do casamento, na vida individual, nas tensões na família de origem do esposo e da esposa, nas lutas emocionais dentro do indivíduo. Só que é difícil cada um admitir isto, porque é mais fácil achar que o sofrimento pessoal se deve ao outro, e também pode ser doloroso tocar nas feridas pessoais, quem sabe de coisas ainda mal resolvidas na pessoa. Afinal, a dor dói e pensar que sua dor pode ter muito a ver com sua vida pessoal, com coisas do seu passado, pode ser insuportável para algumas pessoas que, assim, parecem viver em constante negação e juram ou creem que seus problemas, suas tristezas e angústias se devem exclusivamente ao companheiro(a) que "não me dá atenção”, "não gosta de mim como eu quero”, etc.

Uma mulher assim pode ter vários casamentos porque sua obsessão pelo romance (pode ser um tipo de adicção) cria tensões, brigas, discussões sem fim, levando à separações. 

É verdade sim que existem mulheres racionais, frias, que têm importante dificuldade de expressão de afeto. É verdade que existem homens carinhosos, afetivos, que cuidam bem da família. Aquele conceito antigo de que homem é razão e sem sentimentos, e mulher é sentimental e amorosa, não se enquadra com o total das pessoas.

Uma vida conjugal, um relacionamento entre um homem e uma mulher como casal, envolve vários componentes. Dentre eles há: (1) trabalho de cada um (vida profissional); (2) parentes da família de origem; (3) lazer; (4) hobbies; (5) religião e forma de praticá-la; (6) amigos; (7) vida sexual; (8) filhos; (9) vida afetiva do casal (romance), etc.

Então, veja que há variadas fontes de relacionamento na vida do esposo e da esposa. A vida conjugal não é só uma coisa. Não é só o cuidado dos filhos, não é só romance, não é só sexo, etc.

Neste formato de casamento que estamos analisando, no qual a mulher é viciada em romance, é ranzinza, não tem afeto maduro para com os filhos, o problema psicológico principal não é algo da vida conjugal em si. Este problema pode estar enraizado em questões pessoais desta mulher, ainda não resolvidas, que ela leva para dentro do relacionamento com um homem.

É comum este tipo de pessoa ficar perturbando a vida do marido (mesmo tendo se separado ou divorciado) por muitos anos, justamente pela falta de honestidade emocional e presença de negação, que a impede ver que ela tem os problemas que tem.

É difícil olhar para nós mesmos e ver nossos defeitos de caráter, ver nossas "neuras”, porque isto requer lidar com nossa dor e entender que ela é nossa e não porque o outro nos faz assim.

Isto, claro, não significa que só um, no casamento e em outros relacionamentos, tem problemas. Todos temos. Mas faz uma diferença vital se a pessoa admite, ou não, que ela tem problemas. Faz uma imensa diferença também vital o que ela fará ao admitir ter suas próprias dificuldades. Ela irá aceitar e procurar melhorar, ou continuará a colocar a culpa no outro e manterá sua neurose?


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César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

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