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Luto psicológico ou depressão?
O luto psicológico é uma experiência dolorosa de tristeza sem que a pessoa caia em depressão necessariamente. É uma tristeza temporária que geralmente não requer tratamento psicoterápico e nem medicação. Passa com o tempo, e sempre está relacionada com alguma perda, seja de um relacionamento, do trabalho, morte de pessoa querida, diagnóstico de uma doença grave.
Os seres humanos experimentam o luto psicológico, ou pesar, sob o ponto de vista físico, emocional, cognitivo, comportamental e espiritual. Os sintomas principais incluem negação, raiva, descrença, nostalgia, ansiedade, tristeza, desesperança, culpa, mudanças no sono e no apetite, fadiga, isolamento social.
Diante de uma perda e de uma doença grave ou crônica é normal passar pelo luto psicológico porque ele significa uma resposta para com a dor. Dependendo da causa do luto, a pessoa pode entrar num estado mais ou menos sofrido e limitante. Na medida em que ela aceita a perda, a tristeza diminui, assim como outros sintomas que ela possa apresentar.
O que pode ajudar a pessoa a viver o luto psicológico? 1) Animá-la a estar em companhia de familiares, amigos e não abandonar o contato com sua comunidade religiosa; 2) Ter alguém que sabe ser empático e que saiba compreender a perda da pessoa, reconhecendo para com ela o quão difícil é para ela viver isto, incentivando-a a desabafar e ouvindo o desabafo com carinho e atenção; 3)Relembrar para a pessoa que e como ela já enfrentou e venceu outras situações dolorosas na vida; 4) Se o luto psicológico tem a ver com um diagnóstico de doença grave, terminal, encorajar a pessoa a falar de seus sentimentos diante da morte com alguém que saiba ouvir sem que fique cortando a fala da pessoa. Quanto melhor a pessoa puder expressar seus sentimentos de medo da morte, tristeza pelo fim da vida, preocupações com tratamentos agressivos, menos provável é que ela entre em depressão ou desenvolva algum transtorno de ansiedade; e 5) Se existir na cidade onde a pessoa que está em luto psicológico reside grupos de apoio para a situação específica que ela sofre (grupo de pacientes com câncer terminal ou com doença crônica, por exemplo), animá-la a participar destes grupos. Estudos revelam que as pessoas que compartilham sua dor, medo, ansiedade, tristeza e limitação em grupos assim apresentam uma melhor vivência diante da perda e em certos casos obtêm recuperação física e emocional com melhores resultados.
O Dr. Adalberto Barreto, psiquiatra criador e desenvolvedor da Terapia Comunitária, sabiamente diz: “Quando a boca cala os órgãos falam, e quando a boca fala os órgãos saram.” Então, falar da sua dor pode aliviar a dor. E quando isto é feito num ambiente de grupo, ou mesmo com uns poucos amigos ou parentes atenciosos e empáticos, se cria um laço de apoio, acolhimento e compreensão que auxilia no processo do luto psicológico.
As principais diferenças entre o luto psicológico e a depressão são que no luto a pessoa se adapta à perda sem grandes alterações comportamentais. Há uma tensão focal diante da perda sem prejudicar o funcionamento psicossocial em outras áreas da vida, os sintomas flutuam com momentos de bem-estar, não ocorre necessariamente perda de interesse em coisas prazerosas, a perda da esperança pode ser episódica e focal, a noção de valor pessoa é mantida, há sentimentos de culpa somente para pontos específicos, podem ocorrer alguns pensamentos de querer morrer mas no sentido passivo (“Queria que Deus me levasse! Mas não irei me matar”).
Já na depressão moderada e grave ocorre importante perturbação comportamental. Há sério distúrbio de interação social com isolamento e alteração geral do contato com as pessoas, há permanente alteração do humor sem praticamente nenhum momento de prazer, há perda da esperança que pode gerar ideias e tentativas suicidas, há sensação de desvalor e de que não vale a pena viver, sentimentos exagerados e constantes de culpa. Neste caso de depressão, está indicado tratamento psicoterápico e medicamentoso que deve ser feito com psicólogo e médico psiquiatra.

Cesar Vasconcellos de Souza
Saúde Mental e Você
O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.
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