Estamos diagnosticando como doença mental o que não é doença?

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A maioria das pessoas que apresentam sofrimentos comportamentais são consultadas por médicos clínicos gerais e não por psiquiatras. Mas mesmo em relação às que são atendidas por psiquiatras: será que não estão recebendo um diagnóstico exagerado, classificado no CID-10 (Código Internacional das Doenças, versão 10) e agora no polêmico DSM-V, outro manual de diagnósticos lançado em 2013? O perigo do diagnóstico errado é não somente estigmatizar a pessoa, mas principalmente conduzi-lo a um tratamento errado.

Nos Estados Unidos, 87% dos ansiolíticos (calmantes "tarja-preta”), 79% dos antidepressivos, 66% dos estimulantes e 51% dos antipsicóticos são prescritos (receitados) por médicos clínicos gerais. (Allen Frances, MD, Duke University, North Carolina, Melissa Raven, PhD, Flinders University, Adelaide, Australia, "Two Views on the New DSM-5 – The Need for Caution in Diagnosing and Treating Mental Disorders”, Journal of the American Family Physician, Oct 15, 2013;88(8):online).

Ocorre um aumento grande na prescrição de medicamentos psicotrópicos (que atuam principalmente no cérebro, modificando o comportamento) no mundo. O TDAH — Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade — foi diagnosticado em 11% das crianças em idade escolar, quando no passado recente havia de 3% a 5%  deste diagnóstico (DSM-IV). A doença bipolar em jovens teve o diagnóstico aumentado 40 vezes de 1994/1995 para 2002/2003. O diagnóstico do autismo aumentou 20 vezes mais do que a prevalência encontrada no DSM-IV. Baseados nos critérios do DSM-IV, mais do que 25% da população geral maior de 18 anos se qualifica para um diagnóstico de doença mental em um ano, e 50% ao se considerar a vida inteira das pessoas. Mais do que 20% dos norte-americanos adultos tomam pelo menos um psicotrópico num ano, mais comum antidepressivos e antipsicóticos.

Nos Estados Unidos e em outros países, as indústrias farmacêuticas fazem uma propaganda marqueteira sobre as doenças mentais tanto para médicos quanto para o povo, que induz a diagnósticos precipitados e prescrição de medicamentos talvez não necessários. Estas indústrias encorajam medicar as pessoas mais por causa de eventos da vida que produzem sintomas transitórios do que pela presença de doença em si. Por exemplo, uma pessoa com estresse no trabalho e que apresenta insônia temporária, irritação, ansiedade, se olhar algumas propagandas de laboratório, achará que ela necessita do medicamento anunciado para estes sintomas, quando a solução está na busca de harmonia no trabalho, ou mudança de emprego, redução da carga de serviço, delegar tarefas, férias, etc., mas não entrar de cara no uso de um psicotrópico!

O diagnóstico e tratamento de doenças mentais pode ser benéfico quando é feito com cautela, com racionalidade, e pode ser maléfico quando mal feito. Para um bom diagnóstico (processo de saber que doença tem a pessoa), é preciso treinamento, paciência, estudo, avaliação cuidadosa, observação ao longo dos dias, informações dos familiares, história colhida com detalhes.

Não é incomum diagnosticar-se crianças como portadoras de TDAH e pensar se ela deve usar Ritalina ou outro estimulante, quando na realidade ela pode estar com manifestações de sofrimento emocional devido a problemas sérios familiares, na escola, e quem sabe junto com hiperestimulação (muita TV e videogames, e outros eletrônicos com uso exagerado, e também com alimentação ruim, como abuso de chocolate, bebidas cafeinadas, que estressam o cérebro). Ou dizer que fulano é bipolar quando na realidade se trata de um indivíduo imaturo, que precisa aprender a lidar com suas frustrações, precisa de educação emocional e não de medicamentos para o transtorno bipolar. 

O mundo está drogado, bombado. Tem pessoas que adoram tomar remédio, e por qualquer coisinha já querem colocar uma pílula na boca, sem parar para pensar da causa para o efeito, sem querer mudar sua forma de pensar, sem querer aprender a administrar melhor suas emoções. Estas ficam viciadas nos remédios.

Os autores do artigo acima citado da revista médica norte-americana (Journal of the American Family Physician) comentam: "O DSM-V parece provável converter a inflação diagnóstica em hiperinflação diagnóstica por adicionar novos, questionáveis e não testados diagnósticos, e por reduzir os limiares dos diagnósticos existentes.” Assim, dizem eles, um pesar normal pode ser rotulado de depressão maior, explosões de temperamento podem se tornar transtorno de desregulação do humor, esquecimento normal dos idosos pode ser taxado de desordem neurocognitiva leve, comer demais (pela gula) pode receber o diagnóstico de compulsão alimentar, etc. — e consequentemente a tendência é prescrever medicamentos (www.aafp.org/afp/2013/1015/od1.html).

Acho que devemos simplificar as coisas. Olhar o todo e não só a parte. Lutar para modificar para melhor o estilo de vida. O pai da Medicina, Hipócrates, dizia algo fantástico: "Mais importante do que saber que doença tem a pessoa, é saber que pessoa tem a doença”. As indústrias farmacêuticas detestam esta visão sábia.

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César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

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