E agora que meu cônjuge veio de uma família tão diferente da minha? - 14 de julho 2011

domingo, 31 de julho de 2011

É muito comum no casamento que o marido e a esposa venham de famílias cujos modos de funcionamento seja bem diferentes — ou até mesmo opostos — um do outro. Isto pode gerar incompatibilidade no casamento. Como assim?

Se você cresceu numa família onde havia muita comunicação, sempre comemorando juntos datas variadas ao longo do ano, Natal, Ano Novo, aniversários, dia do pai, dia da mãe, dia da criança, dia da avó, dia do avô, etc. Se foi (é) uma família onde quando um viajava, no mesmo dia tinham que se comunicar, no dia seguinte também, enfim, com muito contato, muita conversa, muito “estar juntos”, é provável que você tenha se casado com uma pessoa que veio de uma família onde não havia esta comunicação, sendo bem menos ou até o contrário, com os familiares não se encontrando com facilidade, talvez só em datas superespeciais, como Natal ou velório, sem telefonemas e visitas constantes, etc.

Quem veio da família com muita comunicação vai querer que isto prossiga no casamento com o cônjuge que veio da família sem comunicação, e vice-versa. Um quer telefonar para o parente (mãe, pai, etc.) todos os dias, e o outro acha isto demasiado e quer interferir, porque no seu caso basta telefonar uma vez a cada quinze dias, por exemplo. E agora?

Não é incomum que o indivíduo que veio da família “distante”, tenha se sentido atraído pelo então namorado(a), também pelo fato da família dele(a) ser comunicativa, o que não ocorria em sua família de origem. Quem casa com alguém de veio de uma família muito comunicativa, sentia falta disto em sua família de origem. E quem casa com alguém que veio de uma família reservada na comunicação também pode ter sentido falta de certo “espaço” em sua família de origem.

Quem se casou com alguém que “precisa” de muito contato com a família de origem, talvez sinta falta de comunicação afetiva. E quem se casou com alguém que não fazia contato constante com a família de origem, talvez sinta falta de privacidade.

Mas o hábito cria uma força de repetição da conduta ou do comportamento difícil de ser mudado. Mudar é possível, mas não é fácil. Quem veio da família de muita comunicação pode até nem perceber muito claramente sua própria necessidade de privacidade. E quem veio de uma família de distância afetiva pode nem perceber muito bem sua própria necessidade de aproximação afetiva.

Então, é comum um cônjuge reclamar que o outro não se comunica, quando, pelo menos parcialmente, este cônjuge reclamador, na verdade, precisa aprender a ficar também só e confortável com isto. Assim como o cônjuge que reclama que outro se comunica demais, precisa aprender a valorizar o contato, e curti-lo.

Uma parte da atração que sentimos pela outra pessoa com quem casamos envolve esta questão de aproximação e distância. O problema é quando não se percebe isto e cada um fica cobrando do outro o que é o seu habitual, ou seja, o “comunicador” quer contato toda hora e se queixa do “silêncio” do outro, enquanto que o “calado” quer distância toda hora e se queixa da “tagarelice” e/ou do excesso de contato com os parentes do outro.

Se cada um perceber que cada um precisa talvez de uma boa dose do oposto do seu habitual, e fizer esforços neste sentido, o relacionamento pode melhorar e a dificuldade pessoal também.

Se quem veio da família com muita comunicação impedir que seus familiares interfiram demais na vida do casal e dosar melhor seu contato com eles, ajudará muito o bem-estar do casal. E se quem veio da família sem comunicação for aprendendo a gostar do contato e aproximar-se, também ajudará muito. Quem dará o primeiro passo?

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César Vasconcelos de Souza

Cesar Vasconcellos de Souza

Saúde Mental e Você

O psiquiatra César Vasconcellos assina a coluna Saúde Mental e Você, publicada às quintas, dedicada a apresentar esclarecimentos sobre determinadas questões da saúde psíquica e sua relação no convívio entre outro indivíduos.

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