Voa

sexta-feira, 05 de julho de 2019

"Quem foi rei nunca perde a majestade", diz o provérbio. Pensemos, pois, na ideia que se extrai não da frase, mas do sentimento de pertencimento a essa posição superior versus o treinamento de humildade muitas vezes imposto pela vida o qual parece encomendado para aprimorar aqueles que detém dessa soberba ou vaidade.

Muitos dizem que quanto mais alto se voa, maior costuma ser o tombo. Animador ou desanimador? Acho que depende do solo que se semeia enquanto a subida é preparada. Não temos que temer. Quem tem a terra protegida, pode ser que eventual queda nem machuque. Quem planeja um voo responsável minimiza a chance de queda. Quem encontra proteção superior, provavelmente sequer vislumbrará o risco. Quem plantou gratidão das pessoas nessa caminhada, certamente encontrará cuidados e acolhimento. Ou seja, tem mais a ver com a maneira de voar do que com a altura atingida.

É muito estranho imaginar uma existência sem prospecção de melhora em alguns aspectos da vida, sem sonhos que fomentem os movimentos, sem base para apoiar os pés para subir mais degraus da escada. É tão bonito observar o voo dos pássaros, tão bonito perceber o voo de gente. Ainda mais essa gente que aprendeu a voar, sem esquecer do quão firme e instável é o solo onde nasceu, sem esquecer do ninho de onde veio.

Tom Jobim propriamente disse que “o Brasil não é para principiantes”. O mundo todo talvez não seja. É preciso aprender, resistir, empregar esforço e sobreviver. Constantemente. Preferencialmente e prioritariamente, de forma digna. Quantos entre nós vive sentindo-se rei da vida do outro? Quantos entre nós esquecem diariamente de exercer a humildade?  E a humanidade? Quantos tentam voar sem asas, com asas quebradas, com asas roubadas, com asas falsas? Que voam sem ter para onde ir ou para onde voltar? Sem rumo na vida? Quantos sequer sabem que podem voar e não enxergam para além da folha seca do ninho?

Somos toda essa gente múltipla, diversa, complexa por natureza. Seríamos melhores se nos apoiássemos a voar, se nos ensinássemos, nos apoiássemos, se subíssemos os degraus da escada e de cima, puxássemos os próximos para um patamar melhor, um nível mais alto da escala de valores. A desigualdade social é estrondosa. Há muitos que se pensam majestades e olham para os demais como súditos. E vice e versa. Gente que não voa e não deixa os demais voarem. Essa gente que não quero ser nem ter perto de mim.

TAGS:

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.