Elle pensa em voltar

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Como já dizia o ex-presidente Charles de Gaulle, o Brasil não é um país sério. No sábado, ao ler o jornal, tive de me beliscar para não pensar que estava sonhando, ao me deparar com uma notícia de rodapé: “Collor anuncia candidatura à presidência”. A notícia dizia: “Collor anunciou ontem a sua pré-candidatura durante um evento na cidade de Arapiraca, no interior do estado de Alagoas”.

Para que os mais novos entendam, Fernando Collor de Mello foi o primeiro presidente eleito por votação direta, em 1989, após o fim da ditadura militar de 1964 até 1985. Na realidade, ele foi o segundo civil a ser eleito pós-revolução, pois o primeiro, Tancredo Neves, chegou à presidência através de uma eleição indireta. No entanto, foi José Sarney, seu vice, quem assumiu o posto, tendo governado o país de 1986 até 1990, pois Tancredo faleceu de complicações cirúrgicas antes de ser empossado. A grafia “elle” era uma forma pejorativa de se referir ao cidadão já que Collor e Mello se grafam com dois eles.

O slogan da campanha de Collor foi o de caçador de marajás, uma vez que pretendia sanear o país livrando-o daqueles que almejavam o poder com segundas intenções. No entanto, seu mandato foi curto, durando pouco mais de dois anos, pois em 1992 foi cassado pelo congresso nacional e alijado da vida política brasileira por oito anos. Sua cassação se deveu à improbidade administrativa, cujo pivô foi a compra de uma Elba, utilitário fabricado pela Fiat Automóveis. Ou seja, o caçador de marajás era vítima do seu próprio slogan.  Depois de duas tentativas frustradas, uma para prefeito de São Paulo e outra para o governo de Alagoas, conseguiu ser eleito senador pelo mesmo estado que o projetou no cenário nacional. Mas, como político não se emenda, desde 2017 ele é réu no STF, num processo oriundo da Lava-Jato por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Aliás, como todos os implicados nessa operação, ele se declara inocente e engrossa a horda de políticos injustiçados pela justiça de Curitiba.

O governo Collor foi um desastre, pois nomeou como ministra da fazenda uma economista louca, chamada Zélia Cardoso de Mello, responsável por uma das maiores tungas que o governo federal já empreendeu contra o povo, ao confiscar a poupança de todos os brasileiros, inclusive limitando os saques em suas contas bancárias. Tudo isso em nome do combate à inflação que não foi debelada, como era de se esperar, e responsável pelo suicídio de muitas pessoas que foram dormir com dinheiro na poupança e acordaram de bolso vazio.

 Era casado com a “coelhinha” Rosane Collor, não por posar na revista Playboy, mas por uma arcada dentária que lembrava o felpudo e simpático roedor. Foi, também, um desastre, envolvida em denúncias de desvios de verbas na LBA, entidade que na época era presidida pelas primeiras damas do Brasil, assim como favorecimento financeiro de um irmão e de uma prima.

Em resumo, Collor era um político como outro qualquer que teve seu momento de fama ao se tornar o presidente mais jovem do Brasil, mas um fiasco total dado o seu despreparo como homem público e chefe de governo.

Mas, estamos no Brasil e eis que elle volta como pré-candidato ao mesmo cargo do qual levou um sonoro pontapé no traseiro. Como somos um país sem memória, sem nenhuma cultura política, sem nenhuma conotação cívica, onde se vota por obrigação, pois decorridos dois meses da eleição ninguém se lembra mais dos candidatos em que votou, não será surpresa se Collor tiver um número expressivo de sufrágios. Não mais por ser caçador de marajás, ou por ser bonito, como muitas pessoas justificaram seu voto, ou por ser um político sério. Elle não tem nenhum desses predicados, nunca os teve, mas por ser brasileiro nato, maior de idade e ser filiado a um partido político, a constituição federal lhe garante essa possibilidade de ser candidato.

Nosso futuro é negro, haja vista os nossos futuros candidatos à presidência da república. O mais triste é que um deles vai ser eleito.

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Max Wolosker

Max Wolosker

Economia, saúde, política, turismo, cultura, futebol. Essa é a miscelânea da coluna semanal de Max Wolosker, médico e jornalista, sobre tudo e sobre todos, doa a quem doer.

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