Por que estou escrevendo sobre bússolas?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
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Versos e frases ficam guardados em mim como bússolas em caixas de veludo. Costumo usá-las para não me perder e naufragar nos oceanos pelos quais passo. O alento e a potência das ideias são magnéticos e me apontam a determinadas direções. Como meu pensamento gosta de se deitar nas redes do imaginário, elas possuem a força da gravidade.

Quando estava a passos da adolescência, “Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach, abriu a tampa da primeira caixa e me chamou a atenção para o sentido da vida. “Tem alguma ideia por quantas vidas tivemos que passar para chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando?” Outro foi o “O Pequeno Príncipe”. Ah, como Saint-Exupéry fincou setas no meu pensar! Ele me disse que “amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção” e “cada um é o único responsável por todos”. Li sua obra e fui melhor compreendendo que somos efêmeros, que o amor é cultivado e é bom desejarmos a imensidão do oceano. Tenho uma caixa só para Fernando Pessoa e num dos seus compartimentos está “Grandes são os desertos” que lubrifica meus olhos e hidrata minhas mãos. E Yago, de Sheakespeare? Aquele personagem, considerado o pior dos vilões da literatura, me é bem útil; uso-o como lanterna para me defender da perversidade. Mas as crônicas de Rubem Braga... me são dicionários do quotidiano e mostram os detalhes do que vemos, mas não enxergamos, na invisibilidade do dia a dia. Noutro dia, quando caía chuva no telhado sob a janela do meu quarto, pensei nos tantos pingos de chuva que ouvi, mas nunca os escutei. Não lhes dei existência. Não me esqueço de Raskólnikov, personagem de Dostoiévski, que me mostra que os mantos que escondem os crimes são pequenos demais. Estas e tantas outras bússolas despertam minha sensibilidade, afinam meu olhar e me fazem ser a Tereza Cristina com z e sem h.

Mas por que estou escrevendo isto?

Na semana passada, quando li nos jornais que os candidatos tiveram um desempenho pior nas provas de redação do Enem em 2015 em relação ao ano anterior, fiquei bem preocupada.

Pensando que estes resultados são indicadores das dificuldades de ler e escrever dos jovens brasileiros, fiz um passeio sobre a minha dissertação de mestrado, defendida em 1985. Ao estudar a passagem da quarta para a quinta série do primeiro grau, minhas pesquisas mostraram que os alunos chegavam à quarta série (hoje quinto ano) com deficiência na capacidade de interpretar textos e, consequentemente de escrever com a desenvoltura relativa à faixa de idade. Os problemas permaneceram!

A leitura e a escrita são “valores” maiores. Habitamos na língua materna, casa que nos faz humanos e ser o que somos. Brasileiros, inclusive. Falando, lendo e ouvindo apreendemos o conhecimento e o mundo se aproxima das nossas mãos. Ampliamos o modo de interagir e interferir no ambiente.

Além do mais, nosso pensamento é estruturado em forma de linguagem; a língua explode através do falar e do escrever como um porta-voz. Pensando, somos capazes de compreender e criticar. A leitura enriquece e enobrece a construção dos significados de tudo o que nos rodeia. Quando escrevemos os revelamos e empregamos a língua portuguesa com inteligência e sensibilidade.

A desenvoltura no escrever decorre da leitura. Ler exige muito mais do que um ato mecânico de decodificação, se bem que esta capacidade é iniciada por aí; o pequeno leitor, decodificando palavras e frases, vai interpretando, ao perceber e compreender os sentidos do texto. Interpretar requer atenção, tempo e vontade de desvelar o texto. É como o esforço do garimpeiro. É um processo longo; é preciso ler desde cedo.

Os resultados do Enem me revelam que os jovens não estão guardando bússolas em suas caixas de veludo. Estão guardando o quê? Se está nas mãos dos jovens o futuro, quais os rumos que vão dar ao nosso Brasil?

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