Colunas
Margarinas e superlativos

Aquele momento me faz refletir sobre restos. Já tinha pensado sobre sobras, inclusive sobre a diferença entre coisas que têm a mais e a menos, que geralmente ganham de nós palavras superlativas, como as muitíssimas bem ditas por José Dias.
Era um final de tarde de quarta-feira de cor cinza por um resto de chuva. Naquele momento indefinido, fui convidada a tomar um café na casa de um casal amigo. Queridíssimo, por sinal. Eles sabem, como poucos, preencher os vazios de quem os cerca. E a vida está cheia deles.
Foi um café conversadíssimo. Gostosíssimo. Simplíssimo. Se Machado de Assis estivesse aqui, ia se divertir comigo. Quem sabe não está sentado na cadeira próxima a mim com as pernas cruzadas, até porque ele gostava de Friburgo. Não seria um privilégio tê-lo assim?
Depois do café terminar, porém com assuntos inquietos querendo vez, meus amigos se puseram a arrumar a mesa e a guardar as coisas do especialíssimo lanche.
Ficaram na mesa dois potes de margarina. Enquanto conversávamos, ele pegou uma faca e cuidadosamente foi retirando os restos de margarina depositados na borda dos potes. Com gestos suaves, ele passava e repassava a faca, colocava e recolocava porções mínimas de margarina dentro dos potes, quase cheios.
Meu olhar de cronista, neste momento percebo, está ficando apurado. Está silencioso e penetrante, indo mais perto do cerne das coisas, retirando das situações os detalhes ínfimos e banais, aqueles descartáveis e desconsiderados. Está afiado e invisível.
Como aquela belíssima cena não voou durante a madrugada, enquanto sonhava com gaivotas e saladas de fruta, posso buscar, com melhor nitidez, significados; somos mergulhados neles, não é?
Aqueles potes de margarina foram comprados com cédulas oriundas da aposentadoria, decorrente de anos e anos de trabalho duro daquele casal. Os restos de margarina não eram coisa qualquer, valiam duas vidas; não deveriam ir para a lixeira. Eram alimentos; tinham a função de velar pela saúde deles ou de quem gostassem.
Ah, um privilégio! Sou uma dessas pessoas.
O cuidado com que limpava o pote de margarina brilhava nas feições dele, reluzindo uma história construída com esforços.
E, aí, me ponho a pensar em nós, a geração mais velha que cuida das mais novas. Será que tratamos delas com o mesmo zelo, como o meu amigo fez com a margarina?
Nós, os humanos, precisamos de cuidados para sermos interessantes superlativos!
PS: A literatura está disponível para colaborar. Sempre.
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