Colunas
E se Bandeira, Lennon e Cervantes se encontrassem em Pasárgada?

Gosto de tomar o café da manhã com o computador aberto, lendo o jornal. Porém, tenho notado que de um tempo para cá, vou direto para as colunas. Não apenas pelo fato de ser colunista: é que o mundo anda sofrido demais e o jornal, como seu reflexo, mostra notícias tristes. Mas, por outro lado, é sempre bom visitar amigos e os colunistas os são muito especialmente; compartilham suas ideias comigo na mesa matinal. E a gente conversa. Eles escrevem o que há de interessante, e eu, ao lê-los, sinto meu pensamento se movimentar. Começar o dia com a mente arejada é melhor.
No sábado, Zuenir Ventura me mostrou uma ideia peculiar quando escreveu Pasárgada não há mais. Foi uma bela crônica, porém senti um toque de desesperança. Ah!, no difícil mundo de hoje não temos onde nos refugiar.
Pasárgada era uma cidade da antiga Pérsia; hoje, um sítio arqueológico. Não existe mais! Só ruínas. E lá, existe sim, o Irã, um país com problemas seríssimos.
Vou me embora pra Pasárgada é uma obra-prima de Manoel Bandeira em que ele, nos versos, confessa que deseja ir para se resguardar do sofrimento e abrigar-se num lugar onde seja feliz. O processo criativo do poeta foi longo, levou mais de vinte anos, e quando escreveu o poema, fez uma preciosidade que nos toca; queremos nos sentir bem e, quando isso não acontece, imaginamos um lugar onde possamos encontrar a alegria e paz.
Quando terminei de ler, ainda tinha um pouco de café com leite na xícara. Durante os últimos goles, pensei que a literatura e a arte de um modo geral, como a música, são caminhos que os artistas, pessoas viventes, expressam suas insatisfações. Miguel de Cervantes, ao criticar a sociedade da época, possivelmente não estava satisfeito com a vida e criou um personagem lúcido e louco, que idealizava um mundo digno.
O mesmo certamente aconteceu com John Lennon quando compôs Imagine, cuja letra almeja uma sociedade fraterna e com paz.
Bandeira, Lennon e Cervantes eram sonhadores. Nós também. Lendo a obra dos três, Dom Quixote me chamou um pouco mais a atenção ao mostrar que não adianta fugir ou desejar um paraíso longínquo, é preciso transformar a situação em que vivemos.
Então, busquei nas músicas Imagine e Sonhar um Sonho Impossível, inspirada em Dom Quixote, de Joe Darion e Micht Leich, cantada por Maria Bethânia, na versão brasileira de Chico Buarque e Rui Guerra, querendo sentir a reação da minha alma.
Continuei a escrever. A vida é linda e triste. Tão doce, quanto amarga. É sonho e realidade. É inércia e transformação. O universo é mutante. Mudamos porque estamos vivos e também queremos algo de melhor. Somos pensantes e a sensação de inconformidade está latente em nosso quotidiano. Pulsa.
As ideias geniais de Bandeira, Lennon e Cervantes se completam. Tudo começa com a insatisfação, que gera sonhos, que causa ações transformadoras. Se eles se encontrassem em Pasárgada, esse lugar seria, até hoje, paradisíaco. Teria um ar carregado de plenitude.
Aí é que está. Mas se pensarmos bem, é bem mais provável que a plenitude seja construída com nossos esforços. Não vem como pombas brancas, voando em céu de diamantes. Manoel, John e Miguel encontraram a plenitude com suas obras. Estiveram na imaginária Pasárgada quando se inspiraram e criaram relíquias que o tempo não leva para o esquecimento. Possuem a magia da atualidade.
E, agora, nós aqui, o que estamos fazendo com nossos talentos? Como estamos usando nossos pensamentos? Que misturas estamos fazendo com a massa que temos nas mãos?
Apesar de todas as dificuldades que o mundo atual apresenta aos que estão começando a vida, as crianças e os jovens, eles têm o livre arbítrio e podem lutar para trazerem Pasárgata para dentro de si e concretizá-la na realidade.
Então, o que nossos autores diriam a eles?
Acho que enviariam a mensagem: Sejam sonhadores e viverão como únicos. Para realizar sonhos, não se importem se sofrerem a tortura implacável, romperem a incabível prisão, voarem no limite improvável para tocarem o inacessível chão. Que façam das suas existências uma aventura!
A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.
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