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Cartas de aprendiz

Penso que o escritor tem algo de inusitado, diferente daqueles que respondem a mensagens, escrevem relatórios ou mesmo receitas de bolos de amora. Suponho que costumam visitar os potes que ficam nos pés dos arco-íris para encontrar ideias. Ou seja, sua inspiração tem o toque da magia.
Apenas tenho a certeza de que o escritor tem dois olhares. Um é o dele, como vivente, submetido aos embates da vida. Outro é o do escritor. São olhares diferentes. O primeiro é imediato e espontâneo; vê as coisas com olhar vivo, mas não esculpido. O outro tem olhar longo, trabalhado, distanciado que vai além da realidade aparente e capta o mais puro, banal e ínfimo das situações. Até as vibrações dos orvalhos que umedecem as gramas.
Assim que comecei a escrever, resolvi aceitar o desafio de uma professora de oficina de escrita literária, a Virgínia, que me sugeriu algo diferente e criativo, diante da dificuldade que tinha ao construir meu primeiro personagem, o Labareda, um cachorro, que, por sinal, saiu dos cuidados de Sartre, fazendo com que o existencialismo me orientasse a tecer a história. Sou amante de cães por serem criaturas de sensibilidade extraordinária, apesar de terem rabo e quatro patas. Já repararam o olhar que os cães têm para seus donos? Como são fiéis? Eles demonstram a veracidade da tese “tô contigo e não abro”. Amam as pessoas que convivem com eles, às vezes mais do que os próprios humanos. São sensitivos e pressentem doenças. São acompanhantes de cegos. E de crianças.
Bem, Virgínia me propôs que escrevesse cartas ao Labareda. E aguardasse a resposta. Logicamente, quem faria o ato mecânico de escrevê-las seria eu, mas o Labareda as responderia. Confesso que de imediato achei graça. Depois considerei uma tarefa impossível. E, por fim, decidi tentar e fui tomada pelo espanto; caí de quatro quando suspeitei que aquelas cartas foram retiradas de potes aos pés do arco-íris.
Foram muitas cartas. Inclusive, Labareda teve uma madrinha que também lhe enviou cartas que foram respondidas. Foi troca fantástica.
Vou transcrever a primeira. Colocarei entre parênteses algumas informações para situar o leitor.
Prezado Labareda
É com prazer que escrevo para você e confesso que estou um pouco nervosa. Afinal, escrever para o meu personagem é uma situação completamente nova para mim. Além do mais, desde que lhe criei, você se tornou uma “pessoa” importante. Eu lhe conheço e não sei se me conhece. Você, por enquanto, só existe nas linhas dos meus contos, desenhados pelas palavras, pontos e vírgulas. Mesmo assim, já é um ser, uma entidade que tem vida. Gostaria de me apresentar para que possamos fazer uma amizade duradoura e extrapole os arquivos do computador. Sou aprendiz de escritora e dentro de mim existe sementes que fazem raízes pelo meu corpo. Você é uma delas e suas ramificações vão ao meu passado. Quando era criança, vivia numa casa que tinha mais de dez cachorros, na rua Carlos de Campos, n. 30, Rio de Janeiro. Passei parte da minha infância brincando com eles, assistindo a partos e ajudando a cuidar dos pequeninos. Um dia, escutei minha mãe exclamar que o Setter era um cachorro elegante. Foi uma frase que ficou dentro de mim e há uns três anos, eu lhe materializei em palavras. Você simplesmente surgiu pelas linhas do papel bem delineado. O primeiro conto que escrevi, aquele em que você se acha o mais bonito dos cães, saiu de uma vez só e quase não fiz correções. Ai, lhe guardei. Até que um dia, ao lado da Virgínia, da Sally, da Lenah e da Memélia (amigas de oficina literária) você cresceu na minha imaginação. Escrevi outras histórias suas. Tantas que estou fazendo um pequeno romance. Você foi amadurecendo, se transformando, ganhando forma e força de expressão. Tornou-se até um cão sem raça definida. Você foi fruto de um ato de amor-criativo. Bem, satisfeita estou por ter, pela primeira vez, entrado em contato contigo. Aguardo ansiosa por sua resposta.
Beijos carinhosos da sua criadora
Tereza
Oi, Tereza
Nunca pensei que escrevesse para mim. Confesso que tinha lá minhas esperanças. Sou um pouco impaciente e gosto que as pessoas ao meu redor, principalmente você, razão da minha existência, me deem atenção. Pois, como bem sabe, sou um cachorro especial, talvez porque goste de tudo o que faço. Aliás, acho bárbaro as situações que você cria para mim. Não sei se algum cachorro real já passou por elas. Gostei de ser inteligente e pensar. Você me deu um pensador! Um amigão tagarela que não sai do meu lado. Isso vai tornar as histórias mais engraçados e interessantes. A Virgínia, a Sally, a lenah e a Memélia vão te ajudar. Eu reparei, escondido entre as linhas, que elas gostam de escutar minhas aventuras. A Gabi e o Beto (meus filhos) também. A Vênus (minha cachorra) tem um pouco de ciúmes, mas ela te inspira. Você ainda precisa escrever alguns capítulos: quando a marca da Labareda vai definir meu nome e conquisto um dono. Em decorrência disso, tudo vai mudar na minha vida; vou para a cidade grande, terei que viver em um apartamento e acabarei por enfiar a cabeça nas paredes. Pobre de mim... Mas eu vou me acostumar e vou zoar todo mundo naquela casa. E ainda um último, quando chego à maioridade canina, gostaria que você se decidisse que terei cinco mil dias para viver! Ah! Não se esqueça de escrever quando descubro o meu principal aliado, meu pensador. É um capítulo difícil de fazer. Quando você estiver em dificuldades reze para o Zeus, a Pretinha, a Princesa, o Tirpitz, a Yoko, o Mingos e a Brigite (cães e gatos que tive), os espíritos deles acompanham você e a mim. São Francisco de Assis será um bom guia também. Agora cansei. Até mais.
Uma lambida afetuosa,
Labareda
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