O sentido da vida

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Melhor mesmo é pensar na vida, que “é bonita, é bonita, é bonita”

Rubem Braga tem uma crônica em que constata que muita gente andava morrendo e conclui melancólico que, a continuar aumentando daquela maneira “o lado de lá”, breve ele estaria falando sozinho do lado de cá. Não que eu tenha já tantos amigos e parentes na outra margem, mas sempre que morre uma pessoa que de alguma forma fez parte da nossa vida, sentimos a incômoda sensação de que estamos na fila de um precipício, que o pessoal lá de trás vem nos empurrando e, mais dia menos dia, chegará a nossa hora de dar o grande salto. Não há como evitar, não há como dar a vez a quem vem depois de nós na fila, como às vezes fazemos no supermercado com as senhoras idosas. A morte não quer saber de gentilezas.

“Desde o instante em que se nasce, se principia a morrer”, nos ensina o poema “O Relógio”, de Cassiano Ricardo. Mas raramente pensamos na “Indesejada das Gentes”, como chamou Manuel Bandeira, e fazemos bem, porque viver pensando na morte é já morrer um pouco, por antecipação. Mas certos passamentos, para usar um eufemismo de antigamente, são como lufadas de vento que nos pegam de repente e nos fazem lembrar que daqui a pouco pode chover, ainda que agora o sol esteja brilhando sobre nossas cabeças.

Melhor mesmo é pensar na vida, que “é bonita, é bonita, é bonita”, como cantava Gonzaguinha. Dag Hammarskjold, que não sem razão foi Prêmio Nobel da Paz, deixou um conselho de ouro: “Não procure a morte. Ela o encontrará. Procure o caminho que faz da morte um complemento”. O que não é nada fácil, admitamos. Tanto que um publicitário inglês, atravessando uma fase ruim, mandou a carta a muitas personalidades, perguntando-lhes qual o sentido da vida. Várias pessoas responderam. Mas, se ele esperava encontrar nessas respostas uma palavra miraculosa que lhe injetasse ânimo novo, creio que se decepcionou.

O ator inglês John Gielgud citou Shakespeare: “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum”. O próprio Dalai Lama, líder espiritual do Tibet, não conseguiu ser muito original: “O sentido da vida é ser feliz”. Há os incrédulos: “Não vejo sentido na ideia de um propósito cósmico — nem razão para acreditar num propósito divino” (Peter Strawson, professor de Filosofia Metafísica). Bem diferente dele pensava o ex-primeiro-ministro inglês Harold Wilson: “A resposta deve estar nos ensinamentos de Cristo”.

Não faltou resposta rabugenta, como a da escritora Catherine Cockson: “Se eu soubesse qual o sentido da vida eu é que teria criado a vida”. Nem gaiata: “Se não fosse a vida, onde é que nós estaríamos? Mortos” (Ronnie Barker, humorista). Talvez a resposta mais verdadeira tenha sido a do físico Stephen Hawking que, sofrendo desde os vinte e um anos de esclerose lateral amiotrófica, somente movia sua prodigiosa inteligência e por ele era movido. Paralisado por décadas numa cadeira de rodas, criou teorias e “escreveu” obras como “O universo numa casca de noz” e “Uma breve história do tempo”. Hawking disse que “Se acharmos as respostas, teremos chegado ao triunfo supremo da razão humana porque aí conheceríamos a mente de Deus”.

Quando me fazem, ou eu mesmo me faço a pergunta “Qual o sentido da vida?”, respondo que, para mim, o sentido da vida é ser feliz, contribuir para a felicidade do maior número possível de pessoas e não contribuir para a infelicidade de ninguém.

E para você, me diga, qual o sentido da vida?

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Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

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