Lembrando de esquecer

quarta-feira, 01 de agosto de 2018

Começamos a sentir que estamos envelhecendo quando o médico receita remédio para a memória e nos esquecemos de tomar

Parece coisa de cinema, mas é a pura verdade. Tendo sofrido um acidente, a mulher perdeu completamente a memória. O marido, a quem ela não reconhecia, passou a cortejá-la: passeios, lojas, cinemas... A tudo a desmemoriada ia com aquele senhor tão amável e disponível. Juntos, estavam reinventando a juventude. E aí, como nos bons filmes românticos, ela se apaixonou pelo desconhecido. Não sei como a história termina, mas presumo que, das duas, uma: ou ela recuperou a memória e retornou ao casamento antigo, ou, esquecida de tudo, casou-se com o novo velho amor.

Animado com esse exemplo, cheguei a pensar em visitar as farmácias da cidade, à procura de medicamentos para a memória.  Ao ser atendido, explicaria que não estava buscando remédio para lembrar, e sim para esquecer (nunca mais me esqueceria da cara de espanto do balconista). Pouco a pouco, como nos melhores suspenses, iria drogando minha mulher, até que ela se esquecesse de mim. E antes que vocês me julguem um marido cruel, esclareço que minha intenção seria reconquistá-la. Quem sabe ela se apaixonava por mim de novo, tantos anos depois de ter cometido esse erro pela primeira vez!

Desisti da ideia porque cheguei à conclusão de que não acharia o miraculoso produto que procurava, e me cansaria de ouvir nomes como Memorex, Lembrodiol e coisas parecidas. Como de tudo nesta vida se deve tirar uma lição, resolvi deixar as coisas como estão, porque, se já é milagre que eu tenha conseguido sucesso na tentativa anterior, era arriscar demais querer que o milagre se repetisse agora. Milagres, como os raios, dificilmente caem duas vezes no mesmo lugar.

Uma ideia puxa a outra, e o caso da mulher desmemoriada me fez pensar que seria bom se realmente houvesse uma droga que nos ajudasse a esquecer, mas seletivamente. Poderíamos, então, passar a borracha nas besteiras que fizemos por maldade ou descuido, e também nas besteiras que, por covardia ou timidez, deixamos de fazer. Mas parece que, ao menos por enquanto, cabe à idade o privilégio de corroer a nossa capacidade de lembrar. De fato, começamos a sentir que estamos envelhecendo quando o médico receita remédio para a memória e nos esquecemos de tomar.

O que não impede a existência de pessoas que já se mostram desmemoriadas antes mesmo de os anos pesarem sobre suas costas. Por exemplo, nossos governantes facilmente deslembram dos bens que possuem. Certamente por se dedicarem tanto à felicidade do povo, acabam se desapegando das coisas materiais. Só assim se pode explicar que eles olvidem de onde saiu o dinheiro que apareceu em suas contas no exterior, ou quem foi o descuidado que depositou milhões para eles nos paraísos fiscais. Quando acusados de ter amizade e negócios com empreiteiros, bicheiros, bandoleiros e bucaneiros, afirmam nunca ter visto tais pessoas. Se confrontados com fotos em que aparecem abraçados a essas distintas figuras, demonstram a maior surpresa: “Ué, eu tinha me esquecido desse encontro. Aliás, um encontro apenas social, mal trocamos duas palavras”.  

O repórter, no entanto, insiste: “Mas o senhor não é padrinho de casamento da filha dele?”, ao que ele, retruca, dando um tapa na testa: “É mesmo! Aquela menina, né? Nem me lembrava!” Houve um que, diante de documentos que provavam ser ele o dono de uma grande fazenda, cuja propriedade havia negado, mostrou-se completamente surpreso: “Não é que eu tinha me esquecido?!”

Esquecer nos alivia de antigos fracassos, de palavras que não devíamos ter dito, dos tantos nãos que recebemos da vida. Mas também nos empobrece se deixamos que se apague um sorriso que nos comoveu, um bem que nos fizeram, uma atitude que tivemos e que foi moralmente corajosa. Vamos morrendo aos poucos nas coisas que esquecemos, até o dia em que o esquecimento total se abaterá sobre nós, e então seremos apenas ausência, vaga lembrança, o nada mais absoluto.

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Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

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