Jogador quando não tem domínio de bola, pode esquecer. Registro o comentário do torcedor e resolvo escrever sobre a Copa, nada mais óbvio. Fale sobre aquilo que seus leitores querem ouvir. Não sei exatamente quem são ‘meus leitores’, mas todos diríamos, sem medo de errar, que só se quer falar e ouvir sobre a Copa. Será? Meu problema com o futebol é que não consigo acompanhar a bola.
Mesmo em época de Copa do Mundo, tenho a maior dificuldade de acompanhar o jogo e, principalmente, de enxergar a bola. Ainda mais nas tomadas mais abertas. Até vejo a bola em campo, em um lance ou outro, mas no momento seguinte... aonde é que ela está mesmo? Fico torcendo, sim, mas pelos closes.
Presto atenção em tudo o que não é futebol. Os uniformes dos juízes, por exemplo. São dos mais bonitos e sempre me chamam atenção sem pedir, o que não é o caso da bola. Bola pede atenção o tempo todo e... aonde é que ela está mesmo? Às vezes, nem o Luis Fabiano sabe! É diferente quando a câmera se aproxima e dá pra ver os detalhes, um pouco de tudo. Ultimamente, o que chama a atenção e diferencia é o colorido das chuteiras, até porque penteados e cabeleiras já deram tudo o que falar.
Parece que no Brasiu* de hoje em dia, quem não entende nada de futebol é minoria. Nesta Copa, cheguei a pensar em ficar off-topic mesmo. Acreditei que seria possível, depois que ‘vi’ a Cora Ronai dizer: “A Copa ainda nem começou e já não aguento mais ouvir falar de futebol...” No Twitter, terreno dos blá-blá-blás encorpados, é engraçado ver os comentários apaixonados, desarvorados, desaforados e desrespeitosos também. Às vezes vem alguém e diz: “Olha a foto da minha rua, não tem ninguém!”. Vem outro, no meio do jogo – da seleção, diga-se – e fala: “Olha o centro do Rio, está vazio”.
Quem se interessa? Quem é que quer ver o óbvio: que não tem ninguém na rua durante a Copa? Confesso que quando tentei ficar de fora, calculei: é só um mês, faço outra coisa, uso o tempo de melhor forma. Mas já de início, percebi a besteira. Não ia dar, me rendi. Tanto que é o que se vê aqui nesta crônica. Claro, não sou insensível e sou torcedora também. Quando a pátria precisa, lá estou, eu também, calçando as chuteiras.
No último domingo, Amélia ligou: “Vem ver a Copa em casa, ah, vem aqui...”. Vamos. E o que faz Amélia? Acomoda todo mundo na sala, senta-se no sofá, comenta com o marido que é melhor fechar um pouco a cortina por causa da luminosidade na tv, diz pra todo mundo, acalmando o burburinho: “Olha lá, está começando!!!”. Mais alegria do que a dela, só a da Chris, olho grudado na tela, paramentada de verdeamarelo a exibir conhecimentos futebolísticos de quem assiste a debates esportivos aos domingos. Todos de olho na tv. Nada mais óbvio.
A bola rolando, Brasiu* sai no ataque, bola pra lá, bola pra cá, Amélia se levanta. Enfim, o jogo; Amélia saiu? Jogador que não tem domínio de bola... Dez minutos depois, volta ela. Outra vez a bola enganou o jogador, diz o comentarista. O que foi fazer lá dentro, Amélia? Ela desconversa, me fala baixinho: “Fui ligar para minha filha, mas ela disse: ‘Mãe, tá na hora do jogo!’”. E Amélia senta-se para assistir de novo, mas – óbvio – se levanta. Vai tocar piano no fundo da sala. Não incomoda a ninguém, o som ambiente é o da Copa – ainda que morna, óbvio.
O tempo passa, a bola rola, diversos pontapés e chutes nas canelas, eu rabisco umas frases. “Impedimento claro”, diz o locutor. Confesso: não vejo nada. Mas, em Roma, como os romanos, costuma dizer meu marido. Então tá, estou aderindo. Mesmo que eu não entenda lá a língua que eles falam.
* Perdoem o “Brasiu”, assim mesmo, em uma grafia mais próxima da nossa pobreza e analfabestismo.

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