Unidos da Saudade: do misticismo e simplicidade dos índios à imponência e grandiosidade do carnaval

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
por Jornal A Voz da Serra
Unidos da Saudade: do misticismo e simplicidade dos índios à imponência e grandiosidade do carnaval
Unidos da Saudade: do misticismo e simplicidade dos índios à imponência e grandiosidade do carnaval

Henrique Amorim

Campeã do último carnaval de Nova Friburgo, em 2010, a Unidos da Saudade já sente o peso da responsabilidade que enfrentará assim que entrar na passarela do samba da Avenida Alberto Braune, na noite do domingo de folia, próximo dia 19. “Ser a campeã aumenta muito a nossa responsabilidade. A cobrança naturalmente é bem maior, tanto do público como da própria agremiação, que luta pelo bicampeonato, e também das concorrentes que estão de olho no que iremos mostrar ao público e aos jurados”, diz o presidente da escola 19 vezes campeã, Robson Poubel, o Robinho da Saudade.

Para tanto, a roxa e branco—segunda escola a desfilar—não tem poupado esforços nem investimentos para impressionar com o enredo “Encantamento indígena”, do carnavalesco Anilton Almeida. O desfile da campeã está orçado em R$ 300 mil. A Saudade promete tirar o fôlego do público, abusando da imponência. O quarto carro alegórico, “Guardiões do Eldorado”, segundo o presidente, será o maior já visto no carnaval friburguense: 12 metros de altura, com 20 metros de comprimento, sem alegorias acopladas.

“Vai ser difícil tirá-lo do barracão, mas o efeito na avenida vai arrasar”, prevê Anilton. A alegoria gigantesca terá ainda como destaque a campeã [da categoria] Luxo Feminino do último Concurso Municipal de Fantasias, Sara Raposo. A grandiosidade também vai estar presente nas alegorias “Lenda da Vitória-Régia”, que terá uma cascata com 1,5 mil litros de água acionada por mecanismo eletrônico. No abre-alas com oito metros de altura a agremiação aliará o luxo à originalidade do também campeão do concurso de fantasias passado, Rafael Éboli.

Entre as 19 alas com cinco alegorias, empolgação é a palavra de ordem para os 1,2 mil componentes, mas para passear entre os mistérios, crendices e o legado da cultura indígena a Unidos da Saudade aposta alto nos efeitos visuais.

Carnavalesco com experiência em desfiles do Rio e São Paulo retrata 12 lendas dos índios

No barracão da Saudade, em vez de correria e nervosismo, tranquilidade. Todas as alegorias já estão prontas, faltando apenas retoques finais e ajustes já no caminho da passarela. O mesmo ocorre com as fantasias, inclusive, com as vendas esgotadas. É o jeito de trabalhar do carnavalesco campeão Anilton Almeida. “Com correria não dá certo”, sustenta ele, que tem passagens de destaque nos ateliês da Portela em 2004 (também com enredo que abordou lendas), Gaviões da Fiel, em SP, de 2003 a 2006, e da também paulista Mocidade Alegre, em 2007 e 2008.

Este ano Anilton promete valer-se da sedução típica das lendas dos índios para retratá-las em forma de muito samba, luxo e colorido. “Chama atenção na cultura indígena a disciplina que era imposta pelos antepassados como a proibição às moças de banharem-se nos rios para não serem atacadas pelo boto”, exemplifica o carnavalesco, que interpretará no desfile 12 lendas indígenas ao todo.

A comissão de frente terá uma coreografia surpresa, num cenário estilizado do habitat natural dos índios, abrindo espaço para a lenda ganhar vida e imaginação. A coreografia que promete dar show na abertura do desfile leva a assinatura de Oyoiama Queiroz, bicampeão do Estandarte de Ouro de São Paulo. Também ganharão destaque nas alegorias as lendas Araueté e Barba Ruiva.

Cante com a Saudade na avenida

“Encantamento indígena”

(De Rogério Sancho, Chiquinho Quaresma, Derê, Bolorito e Paulinho Chinchila - Intérpretes: Virgílio, Cezinha Simpatia, Edinho Melodia, Fabinho Falcão e Marcinho)

Viajei nesse mundo encantado

Vislumbrei a imensidão da imaginação

Contos, mistérios e lendas, descobri

A fauna e flora, seduzindo amores, conheci

Vi o bailar do beija-flor, apaixonado, sonhador

A lua, triste a chorar

Pois, ao seu lado, o sol não brilhará

Um rio nasceu do pranto, por ele naveguei

Um segredo em cada canto, me encantei

Sonhei com o boto sedutor

E jaçanã, vivendo um grande amor

Proibido, condenado

Eternizado na mais bela flor (bis)

Tesouros se formam das lágrimas

Derramadas de saudade e paixão

Tupã despertou novas vidas

Pra terminar com a solidão

Chorei, a cobiça do invasor

Sofri, a miséria, fome e dor

Sorri, a fartura num doce olhar

E o saber das ervas, salvar

Me emocionei, nessa lendária viagem

Com a guerreira coragem

Dos defensores do nosso chão

Que, ao Eldorado, deram proteção

Sou índio, encanto brasileiro

Ilusão, verdade

De “roxo e branco”, sou mais um guerreiro

Na tribo “Unidos da Saudade”

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