Uma nova vida musical em Nova Friburgo

quarta-feira, 15 de agosto de 2012
por Jornal A Voz da Serra
Uma nova vida musical em Nova Friburgo
Uma nova vida musical em Nova Friburgo

“Música é eixo principal de qualquer tipo de pensamento, de qualquer modelo de situação que se crie. A música norteia os nossos passos e nos enleva, e nos leva sempre ao ápice de nossas vidas”

Maurício Siaines

O maestro Francisco Fernandes Filho, criador e regente titular da Orquestra da Universidade Candido Mendes (Ucam) e diretor da Escola Superior de Música, tornou-se personagem de Nova Friburgo a partir de 2003, quando trouxe para a cidade sua experiência, colhida em outros momentos de sua rica vivência. Ele recebeu A VOZ DA SERRA na Ucam, na terça-feira, 7 de agosto, para uma conversa em que esteve presente a música, seu ensino e seu papel na vida social. Abaixo, trechos dessa entrevista.

A VOZ DA SERRA – Como tem sido sua carreira?

Maestro Francisco Fernandes Filho – Comecei como professor, sou formado em música, em violino e regência. Em música, comecei como professor. Mas, realmente, não comecei com música, mas fazendo teatro, radionovela, na [Rádio] Mayrink Veiga [no Rio de Janeiro]. Participei bastante na Rádio Nacional, na Tupi-Tamoio, na Eldorado e outras. Participei de concursos de teatro, quando mais jovem. Ganhei alguns prêmios. Só comecei a ter alguma coisa mais palpável depois que fui para a Orquestra Sinfônica Brasileira, onde me aposentei. Fiz música na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, onde fui aluno de Villa-Lobos e tantos outros saudosos professores e artistas.

Comecei regendo coral, como é o destino natural de todo regente, depois pequenos conjuntos, até que criamos a Orquestra Sinfônica aqui de Nova Friburgo, da Universidade Candido Mendes. É uma vida longa—como costumo sempre dizer, estou com 110 anos de idade—mas não tenho o registro de muita coisa.

AVS – Quanto tempo o senhor ficou na Orquestra Sinfônica Brasileira?

Francisco Fernandes – De cabeça, não me lembro. Só olhando na carteira profissional.

AVS – E qual era sua função na Orquestra Sinfônica Brasileira?

Francisco Fernandes – Eu era o coordenador técnico da escola da Orquestra Sinfônica Brasileira. Para lá iam as pessoas que pretendiam estudar música e depois galgavam para a Orquestra Jovem, que ajudamos a criar e, depois, para a Orquestra Sinfônica Brasileira. Na época, o regente era o Isaac Karabtchevsky e o meu pai adotivo era Renault Pereira de Araújo.

AVS – Fale mais um pouco dessa sua experiência no teatro.

Francisco Fernandes – Comecei fazendo peças de teatro quando ainda estava no antigo curso primário. Trabalhei em uma peça chamada “Pobre e infeliz”. Outra peça foi “O destino”. Novela “Traço de união” e outras. Comecei fazendo o papel de um príncipe e daí, então, fui evoluindo. Depois, sofri um desastre muito grande. Antes, porém, fui convidado a estudar teatro na Itália, mas meus pais não deixaram. Eu era menor e o juiz que os atendeu aconselhou, dizendo que “o meio não é muito bom etc, ele é muito jovem”. Aí, meus pais não [me] deixaram [ir para a Itália] e isto me aborreceu muito e aí fui estudar música. Estudei música e fui convidado para ser regente de orquestra sinfônica nos Estados Unidos. Foi quando sofri um desastre muito grande. Depois, entrei para a Orquestra Sinfônica Brasileira, [atendendo] a pedido do Isaac [Karabtchevsky] e do Renault [Pereira de Araújo] para que eu transmitisse às pessoas tudo o que estava dentro de mim guardado. Foi aí que comecei na Orquestra Sinfônica Brasileira desenvolvendo uma série de coisas, entre elas, a escola da Orquestra Sinfônica Brasileira. Daí fui para a Escola de Música Villa-Lobos, onde reformulei toda estrutura [da instituição], criei o curso técnico de música—o primeiro criado no Rio de Janeiro—, desenvolvi uma série de outros projetos, depois fui estudar administração, pedagogia, fui ser professor. Agora, de 2003 para cá, estou retornando, aqui, na Candido Mendes. Fundamos a orquestra, o madrigal, o coral, a camerata de cordas, a camerata de sopro e percussão e ajudamos a criar a escola, que estava em fase de começo. Reformulamos a estrutura da escola, que foi avaliada pelo MEC e recebeu o conceito MB, considerado, na época, o melhor conceito.

AVS – E como foi o trabalho de criação da orquestra?

Francisco Fernandes – Segundo o que eu sei, Nova Friburgo—que tem quase 200 anos—nunca tinha conseguido criar uma orquestra. Conseguimos criar uma orquestra em três meses. E com uma dificuldade muito grande porque praticamente não existiam instrumentos de corda em Friburgo. Eu dava oito, nove horas de aula de instrumentos de corda, violino, viola, violoncelo, contrabaixo, para poder formar uma orquestra. Fizemos toda uma programação especial para a orquestra e inauguramos, em homenagem a Santa Cecília, a padroeira [dos músicos], e vamos completar cinco anos com a orquestra em novembro deste ano.

AVS – O senhor é do Rio de Janeiro ...

Francisco Fernandes – Nasci em Belém do Pará e saí de lá com dois nos de idade para morar no Rio de Janeiro e, desde então, sempre no Rio de Janeiro. Hoje, vivo em dois lugares. No Rio em uma parte da semana e, na outra, moro em Nova Friburgo. Como costumo dizer, vim dar com os costados aqui a convite do meu querido amigo, professor Alexandre Gazé, através de uma ligação telefônica. Ele ligou para minha casa, dizendo que precisava muito conversar comigo. Fui a seu gabinete, em Niterói e conversamos sobre muitas coisas e nada dele dizer [o que queria, realmente, tratar]. Fomos almoçar e continuamos naquela conversa. E aí ele disse: “Quero que você trabalhe comigo”. Respondi-lhe que já trabalhava com ele de coração. E aí ele disse que queria me convidar para ser diretor da Escola Superior de Música de Friburgo. E estou aqui, desde 2003.

AVS – E como o senhor vê a relação da Escola Superior de Música da Ucam com as comunidades locais?

Francisco Fernandes – Procuramos criar aqui em projeto de socializar a criança, as pessoas, através da música. Daí, criamos a Casa da Música, que é esse celeiro e, ao mesmo tempo, laboratório, esse campo de enseñanza, para que as pessoas pudessem vir aqui e desenvolver seus talentos, mesmo que não fossem seguir a Escola Superior de Música, mas virem aqui para experimentar, para vivenciar. Temos aqui crianças de 4, 5 anos de idade, até a criança maior, que sou eu, com 110 anos.

AVS – A vivência da música é algo muito importante para a formação da pessoa, mesmo que não venha a se dedicar a ela profissionalmente, não é?

Francisco Fernandes – Música é eixo principal de qualquer tipo de pensamento, de qualquer modelo de situação que se crie. A música norteia os nossos passos e nos enleva, e nos leva sempre ao ápice de nossas vidas. Estudar música, praticar música, é praticar o bem, praticar o sucesso, a responsabilidade, o amor. É de suma importância e colabora com o crescimento, através de amealhar as pessoas e elas se integrarem como grandes parceiras da arte musical e daí desenvolverem suas atividades para o que chamo de movimento de sanfona que cria e propaga.

AVS – O senhor usa a sanfona como metáfora e faz lembrar dela como instrumento de tradições culturais locais bem antigas, especialmente, aqui em Nova Friburgo, na região de Lumiar e São Pedro da Serra, algo que sempre se renova ...

Francisco Fernandes – Faz parte das raízes. E a raiz tem como pressuposto básico fixar o homem à terra. E isto acontece na medida em que há esse rejuvenescimento e essa transformação do antigo no moderno e contemporâneo. Uma dessas tradições mais bem-faladas são os folguedos do bumba meu boi. Existe bumba meu boi no Brasil inteiro, só que cada um deles tem características próprias. Se você vai para a Região Norte, tem uma rítmica, uma jogada musical. Lá, o boi-bumbá. E vamos andando e estamos em Santa Catarina com o boi de mamão e assim por diante. Então, são revestimentos onde as pessoas que estão plantadas naquele lugar dão suas contribuições e o conjunto musical, ritmo, som, vai se mexendo, vai se aprofundando e ganhando nova cara.

AVS – Ainda pensando na relação da música com a vida social, existem trocas, uma relação entre a chamada música erudita e a popular, não é?

Francisco Fernandes – Vários estudiosos apresentaram segmentos. Alguns falam em música folclórica, outros de música popular, música semipopular, música erudita. Fazem verdadeiras classificações ... Música é música. Apenas o sentimento a transforma e ganha o ego daqueles que militam a música como um prazer, como uma atividade de vida, como vida para a vida.

AVS – O trecho da Nona Sinfonia de Beethoven, a “Ode à Alegria”, é como se fosse uma música popular, está certo?

Francisco Fernandes – Isso acontece até com uma certa frequência. Os compositores eruditos, chamado de elite, buscam as raízes e dão a elas vestimentas novas. Um dos compositores brasileiros que mais fez isto, pegou da chamada cultura da terra, foi [Heitor] Villa-Lobos, com suas cirandinhas, com “Invocação em defesa da Pátria”, com “O canto do pajé” e tantas outras peças. A gente parece que perde o fôlego de tanta brasilidade que está contida dentro daqueles pequenos trechos. Há uma peça recolhida por ele a que depois deu vestimenta: [canta]

Donzela formosa, tem pena de mim!

De noite, de dia, só penso em ti.

Só tu me acompanhas no pranto e na dor.

Quero, quero amar-te, oh! mimosa flor!

 

Lindo!

 

AVS – O músico Heitor Villa Lobos frequentou a chamada Pensão Viana, casa da família do Pixinguinha, no Catumbi, no Rio de Janeiro. Gilberto Freyre, escritor acadêmico das ciências sociais, também. É muito curiosa essa troca entre o considerado erudito e o popular.

Francisco Fernandes – Essa miscigenação. Villa-Lobos era um cara ímpar. Ele tem uma ingenuidade, em determinados momentos que você diz: “Meu Deus, onde ele foi buscar isso?” O trato que ele dá ao ritmo, à sonoridade. Tinha a preocupação com a sensibilidade, a preocupação com o real, com o sentimento. Villa-Lobos é Villa-Lobos. Deus o fez e perdeu a receita.

AVS – Villa-Lobos tem seu nome muito associado à prática, no Brasil, do canto orfeônico, tendência europeia do século XIX, que atualmente suscita críticas. Como o senhor entende isto?

Francisco Fernandes – Na época [o canto orfeônico] foi uma alternativa que deu certo. Lógico que hoje não se pode seguir ipsis litteris, passo a passo, o que foi feito naquela época. No início daquela época, eu não tinha nascido, depois nasci e vivi outras experiências, então, sou, nada mais nada menos, do que uma construção heterogênea, onde há, dentro do Francisco, como dentro de qualquer pessoa, um pouco disso e daquilo. Agora, cabe ao bom senso, ao espírito lúdico, concatenar essas ideias e vesti-las para serem apreciadas por um ser que nasceu depois e teve outro tipo de vivência.

AVS – E o senhor teve alguma experiência com o canto orfeônico?

Francisco Fernandes – Eu regia cinco mil, seis mil, dez mil vozes, no [Estádio] Ìtalo del Cima, no campo do Vasco. Às vezes na própria escola, reunindo a escola inteira e as da redondeza. Fui professor do [Colégio] Pedro II e lá se fazia todo ano a Páscoa do colégio reunindo todas as seções, sob a regência de um dos professores. Eu fui embalado por isto, vivi isto, senti isto, minha alma foi acalentada pelo canto conjunto. Senti que a gente vive e revive e que as coisas belas vão junto com a gente.

AVS – E que projetos existem hoje da Ucam e da orquestra?

Francisco Fernandes – Continuar os nossos concertos, sempre apresentando repertório renovado—temos hoje mais de 80 composições na orquestra. E, lógico que, em determinado concertos repete-se uma peça que já se tenha feito e, em outros concertos, são peças todas novas. Isto vai dosando o equilíbrio do ouvir, do sentir, do participar. Nós prometemos a Friburgo a criação de uma escola de cordas e hoje isto existe, temos mais de 40 alunos de [instrumentos] de cordas. Estamos desejosos de criar uma orquestra infanto-juvenil e queremos criar uma nova concepção de orquestra jovem. E procurar atrair os jovens, os adultos, as crianças de qualquer idade.

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TAGS: Ucam | Música | Orquestra | entrevista
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