Os primeiros japoneses em nova friburgo
Publicamos, hoje, a segunda das seis partes em que, para caber no nosso espaço na A VOZ DA SERRA, dividimos esta história, escrita por Toko Kassuga, a matrona da família Kassuga em nossa terra, os primeiros japoneses a aqui se fixarem, em 1927.
Devastando as matas de Nova Friburgo
A bordo do terceiro percurso do navio Santos Maru, em 29 de novembro de 1926, Tohoro Kassuga, no posto de superintendente responsável pelos imigrantes a bordo, partia do porto japonês de Kobe para o Brasil.
Quando da primeira vez em que pensou em atravessar os oceanos com destino ao Brasil, não tinha ele aqui um único amigo, nem tampouco um conhecido, como também ignorava completamente as condições de vida no país. Parecia um plano imprudente quando Tohoro conheceu a bordo, por intermédio de um amigo, o sr. Yudi Inoue, gerente da Companhia Kaigai Kogyo (conhecida como Kaiko), empresa que se encarregava exclusivamente da imigração e colonização de japoneses para o Brasil. Por intermédio desta pessoa, conseguiu a incumbência e as instruções para estabelecer a colônia de Registro, em São Paulo, administrada por aquela companhia.
A família de Tohoro Kassuga constava da esposa Toku e dois filhos, Tunney e Jorge, de 8 e 4 anos.
Naquela viagem, a bordo do Santos Maru, regressava para o Brasil o senhor Ryoji Noda, primeiro secretário da Embaixada Japonesa no Brasil. Nele viajava, também, o sr. Morishiro Takamizava, capitão de navios no Oriente e que já havia estado a serviço no Peru, e um rapaz chamado Seichi Takasse com experiência em ictiologia. Estes dois já tinham firmado uma parceria: tentar criar kingyo (peixinhos dourados) no Brasil. Durante aquela longa viagem Kassuga fazia o seu relatório diário, obrigatório pelo seu encargo, mas quase sempre, ao longo do convés, se encontrava com o senhor Noda e conversavam e planejavam sobre o seu futuro no Brasil. Este o disse que não havia necessidade de Kassuga se fixar no estado de São Paulo e que havia vários bons lugares no estado do Rio de Janeiro. O senhor Takamizawa indicou-lhe subúrbios do Rio de Janeiro e Kassuga resolveu estabelecer-se por lá. Assim resolvido, mãe e filhos, quando o navio passou pelo Rio de Janeiro, lá desceram, acompanhados pelo sr. Noda. Kassuga seguiu viagem até Santos para fazer a entrega dos imigrantes à companhia Kaiko e, terminada a sua missão, dirigiu-se de volta para o Rio de Janeiro. A mulher e os filhos tinham ficado hospedados numa pensão em Copacabana, recomendada por um secretário da Embaixada, o sr. Nobuo Kaneda, de quem a família recebeu considerável favor e auxílio. Isto foi no final de janeiro de 1927.
Kassuga, munido de espingarda, saía para caçar quase todos os domingos, ora com o sr. Noda e ora com o sr. Kaneda. A razão da caça era mais para um reconhecimento dos terrenos dos subúrbios do Rio de Janeiro. Mas estava difícil encontrar um terreno que coincidisse com a sua imaginação. O sr. Noda percebia a sua aflição e acalmava-o dizendo: “Calma, procure com calma. Mesmo que leve meio ano é mais vantagem adquirir um bom terreno.”
Certa vez o sr. Noda indagou-lhe se não tinha intenção de ser instrutor de judô, pois a polícia do Rio estava a procura de um professor. No estado de impaciência por que atravessava, não havia lugar para tal cargo.
Mas o calor do Rio de Janeiro era verdadeiramente rigoroso e, no final de fevereiro, as crianças começaram a ter problemas intestinais. A vida na pensão contribuía para mais transtornos. Kassuga procurou o sr. Noda para pedir indicação de um lugar mais ameno. “Nesse caso”, informou ele, ”há uma região serrana a 140 quilômetros no interior do estado do Rio de Janeiro, chamada Nova Friburgo, verdadeiramente privilegiada pelo clima. Lá tenho um amigo, advogado, o dr. Julio Zamith, um grande admirador dos japoneses. Se você estiver disposto a abrir matas, distante da capital e longe da colônia dos japoneses, eu mesmo posso acompanhá-lo”. Imediatamente Kassuga aceitou a sugestão e foi lá, então, apresentado ao dr. Zamith.
Dizem que nessa cidade de Nova Friburgo, em 1819, D. João VI havia contratado 100 famílias, provindas de Fribourg na Suíça. Mais tarde, em 1824, ali chegaram mais 60 famílias de alemães, todos protestantes.
Dos japoneses, os primeiros a se estabelecerem nesta cidade foi, sem dúvida, a família Kassuga. Entretanto sabe-se que, anteriormente, aqui esteve de passagem o sr. Ikutaro Aoyagui afim de inspecionar o terreno e observar o local para formação de uma colônia japonesa, isto antes de fixar a colônia de Registro, em São Paulo. Também um funcionário da companhia Kaiko, o sr. Yassuda Sakamoto, esteve por algum tempo trabalhando numa colônia de ingleses em Macuco, um pouco além de Nova Friburgo.
(Na próxima semana, a segunda parte dessa interessante história)

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