Um outro Brasil

segunda-feira, 24 de agosto de 2015
por Jornal A Voz da Serra

CRISE ECONÔMICA, inflação em alta, desemprego, pânico nas empresas, temor no governo. Num cenário um tanto desolador, sem perspectivas de melhoria em 2015 e provavelmente em 2016, os bancos fogem do cotidiano brasileiro e viajam em “céu de brigadeiro” apresentando lucros invejosos. Os bancos privados brasileiros comercializam um produto que passa por cima de qualquer crise: o dinheiro.

OS LUCROS DO BRADESCO E ITAÚ, por exemplo, foram recordes no 2º trimestre. As instituições financeiras não deixaram de crescer seguindo a trajetória dos anos anteriores. Somados, os ganhos dos quatro maiores bancos cresceram mais de 40% no primeiro semestre, na comparação com os primeiros seis meses de 2014. Tamanha lucratividade supera o Produto Interno Bruto de 83 países aplicando a segunda maior taxa de juros real do mundo.

A CIRANDA FINANCEIRA gira sem se preocupar com sobressaltos. A economia, por vezes, vai mal — mas os bancos vão sempre bem. Seja com inflação baixa ou alta, juros em queda ou subindo, população com renda menor, desemprego, economia patinando em termos de crescimento, crise política, pelo menos uma coisa não muda no Brasil: o lucro estratosférico dos bancos.

NÃO CUSTA NADA lembrar que o setor bancário — e lá se vão 12 anos — era o que mais temia a chegada de um partido de esquerda ao poder. Na época, especulavam sobre a criação de impostos sobre seus ganhos, que seriam destinados a programas populares num governo mais voltado para o social. Como se vê, nada mudou. Ou melhor: para os bancos, mudou para melhor.

OS BANCOS são os donos do jogo. O governo tem que pagar juros altos para poder continuar contando com estes recursos. Em outros países do mundo, o dinheiro emprestado pelos bancos ao governo é apenas uma fonte complementar de recursos. Aqui, não. Sem os recursos dos bancos, o governo fica na pior. Nenhuma outra atividade oferece um ganho tão expressivo.

ENQUANTO a população aperta o cinto e sente o amargo gosto da crise, as instituições comemoram. E não há sinal de mudança deste cenário. Até agora o governo não se manifestou sobre os ganhos dos bancos. Pior ainda: retarda o pagamento do 13º salário dos aposentados, estuda modestas simplificações na folha de pagamento, aumenta a conta de energia e não reduz os gastos públicos. Parece que os bancos vivem num outro Brasil.

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