Cem dias após a maior tragédia climática do país, a equipe de reportagem de A VOZ DA SERRA visitou alguns dos bairros mais castigados no fatídico 12 de janeiro. Em meio a um lento processo de recuperação da normalidade, os moradores relataram suas queixas, preocupações e os principais problemas enfrentados no dia a dia. Em todos os bairros foram observados tratores e caminhões de terra ainda retirando restos de entulhos provenientes da catástrofe. Apesar de muitas dificuldades, a população preserva um sentimento essencial: a esperança.
Córrego Dantas,
enfim, começa
a receber ajuda
O bairro mais afetado em Nova Friburgo enfim começou a receber atenção do poder público. Córrego Dantas foi devastado tanto por barreiras quanto pelas enchentes, que inundaram boa parte das residências do local. Quando a catástrofe completou dois meses, a reportagem de A VOZ DA SERRA visitou o bairro e pouca coisa havia sido realizada. Cem dias após a tragédia voltamos a Córrego Dantas e vimos muitos caminhões retirando terra, máquinas fazendo o desassoreamento do rio, ruas sem tanta lama e, principalmente, uma nova perspectiva para os moradores e empresários do bairro.
De acordo com moradores, a força-tarefa para limpar e desobstruir as passagens no Córrego Dantas começou há uma semana. “Melhorou muito desde que eles começaram a limpar, não sei por que não fizeram isso antes, era o mínimo”, disse a aposentada Maria Pereira. Reconstruir o que foi perdido começou a se tornar uma realidade mais palpável para a comunidade. “Graças a Deus podemos dizer que estamos vivendo com mais tranquilidade. Deram um jeito na rede de esgoto, estamos com luz, água, isso é que é importante. Já me acostumei com a poeira e o ônibus faz muita falta, mas o principal é que, enfim, começaram a reconstruir nosso bairro”, atesta Maria das Dores Klein.
Entretanto, para o empresário Victor Kamel, um fator que vem causando preocupação no bairro é a possível construção de um parque ambiental. De acordo com ele, essa ideia implicará diretamente na situação das indústrias da localidade, pois é planejado o aumento da faixa não edificante das construções já existentes. “Isso é utópico e custará muito dinheiro”, acredita.
Segundo Kamel, diversas indústrias foram realocadas para o Córrego Dantas em 1989, por orientação do poder público. “Infelizmente, agora cogitam aumentar essa faixa não edificante de 15 para 30 metros, apesar de haver um decreto estadual que regulariza as construções já feitas. As empresas aqui geram dois mil empregos diretos e dez mil dependentes diretos e indiretos. Querem mudar isso e não estão vendo o nosso lado”, corrobora Victor, que é proprietário de uma indústria de tubos no bairro. “Minha empresa possui licença ambiental e está em sintonia com a lei de ocupação e uso do solo urbano e rural”, garante.
População do Jardim Califórnia
pede para que casas sejam demolidas o quanto antes
É realmente impressionante a quantidade de terra que deslizou no Jardim Califórnia, mais precisamente no Loteamento do Barão. Segundo moradores, a quantidade de terra retirada da montanha que ceifou a vida de 16 pessoas no local é inimaginável. Recentemente a comunidade havia realizado uma manifestação pedindo mais atenção das autoridades e prestadores de serviços quanto à necessidade de melhorar ou ao menos minimizar os problemas surgidos no local após a tragédia.
Muitos leitores enviaram cartas à redação de A VOZ DA SERRA reclamando da precária iluminação das ruas, das casas que estão marcadas para serem demolidas e continuam fechadas, tornando-se foco dos mosquitos da dengue e aumentando a possibilidade de ações por marginais. Denunciaram também o problema do acúmulo de lixo no bairro e o péssimo serviço de capina.
Em visita ao Jardim Califórnia, a equipe de reportagem de A VOZ DA SERRA constatou que alguns caminhões ainda retiravam a terra proveniente dos deslizamentos de janeiro e máquinas realizavam o desassoreamento do rio que corta o bairro, e que tanto estrago fez. A poeira ainda é constante no Jardim Califórnia, mas esta não é a maior preocupação do morador José Silveira. “Tenho medo de marginais se instalarem nessas casas que estão para serem demolidas e isso nunca acontece. Está difícil! Estão esperando a casa rolar morro abaixo para demolir?”, questiona José.
Comunidade de Riograndina quer mais ajuda e atenção
Ao chegar ao distrito de Riograndina, a reportagem de A VOZ DA SERRA se deparou com um caminhão espalhando água para amenizar a poeira no local, um cenário de devastação. Em Riograndina, o maior problema foi mesmo o grande volume de água no Rio Grande, e não as barreiras que fizeram vítimas fatais na cidade. Diferentemente de outros lugares afetados pelas chuvas em Nova Friburgo, não foram registradas maiores quedas de encostas na localidade.
O Rio Grande alargou bastante e destruiu casas às suas margens. “Entrou bastante água na minha casa. Consegui recuperar algumas coisas, mas o que realmente importa é que meus familiares e eu estamos bem”, destaca o morador Paulo Pires, que está com medo das chuvas. “Qualquer chuva que cai eu fico em dúvida se saio de casa ou não, estamos com muito medo”, afirma.
Paulo morador reclama que o poder público abandonou o local. “Precisamos de ajuda em nosso bairro, o máximo que acontece é esse caminhão que joga água e ameniza a poeira que sobe. Ninguém veio demolir as casas que estão marcadas, já era hora”, diz.
O campo de futebol da Escola Municipal Estação do Rio Grande também ficou bastante deteriorado com as chuvas. A comunidade cobra uma ação mais efetiva da Prefeitura no bairro.
Em Campo do Coelho, uma falsa impressão de que o distrito escapou da tragédia
Campo do Coelho teve a maior parte de suas ocorrências no interior de sua extensa área rural. Localidades como Boca do Sapo, Hottz e Estrada Santana registraram dezenas de vítimas fatais. Ao longo da principal via que corta o terceiro distrito, a Avenida Antônio Mário de Azevedo, não se observam grandes marcas da tragédia de 12 de janeiro, o que dá a falsa impressão de que Campo do Coelho ficou imune à tragédia.
Mas, a Estrada Santana, por exemplo, ficou dias interditada devido à queda de uma enorme barreira. Foram necessários diversos tratores agindo no local para liberar a passagem. Os tratores, aliás, seguem no bairro, mais precisamente na área onde se situava a casa do ex-prefeito de Nova Friburgo, Paulo Azevedo, mais uma vítima fatal da catástrofe. “Na madrugada do dia 12 (de janeiro) eu estava em casa e não ouvi quando a barreira caiu. Pela manhã é que o meu funcionário avisou que a casa do Paulo Azevedo havia sido destruída, e fomos lá para ver o que aconteceu. Morreram, além dele, mais três pessoas”, relata o major aposentado do Exército e então vizinho do ex-prefeito, Vitor Cláudio Macário dos Santos. Ele conta que ficou ilhado em seu sítio e só conseguiu deixar o local graças a um helicóptero fretado por familiares.
Outro local bastante atingido no distrito foi a Rua Suassena, onde uma grande barreira destruiu sete casas e matou um adolescente de 14 anos. “Ele foi salvar um outro adolescente, que não estava conseguindo sair de casa, e acabou sendo soterrado”, relembra uma moradora, que prefere não se identificar.
Cem dias após o trágico 12 de janeiro, Campo do Coelho dá sinais de que a normalidade está, aos poucos, retornando. Entretanto, o distrito ainda levará consigo por um bom tempo as diversas marcas da maior tragédia climática do país.
No bairro Vilage,
acesso dificultado
pelas barreiras
“Vocês estão vendo que está tudo igual, não é? Continuamos abandonados. Esqueceram da Vilage”. Desta forma a equipe de A VOZ DA SERRA foi recebida pela moradora Ana Maria da Silva, na Rua Izair Pires, na parte alta da Vilage. Há pouco mais de um mês, quando nossa equipe esteve no local para produzir “A Voz dos Bairros”, Ana Maria apontou o acúmulo de lixo nas ruas, a falta de iluminação e, principalmente, o difícil acesso à parte alta como as principais dificuldades enfrentadas pelos moradores. As queixas ainda se repetem.
Moradora do Vilage há 40 anos, Ana Maria explica que a comunidade tem feito o que pode para superar as dificuldades. O acúmulo de terra no início da Rua Izair Pires continua impedindo a passagem de veículos. Com isso, moradores com dificuldade de locomoção sofrem para ir até outros locais. Ou passam pelo escadão — o que é inviável —, ou contam com a boa vontade de vizinhos, que chegam até mesmo a carregá-los nos braços. “Quando faço uma compra o taxista me deixa no início da rua e faço várias viagens com as sacolas até a minha casa”, revela o marido de Ana Maria, José Marcos Daudt.
Segundo ele, a necessidade de um táxi se deve à ausência da linha de ônibus do bairro que, desde a tragédia, foi desativada pela Faol. Outro problema enfrentado é a coleta de lixo, ou melhor, sua ausência. “A coleta não está sendo realizada e os próprios moradores estão queimando o lixo. Mas nem tudo conseguimos queimar e temos observado muitos ratos e baratas no bairro”, queixa-se José Marcos, que também conta que ele e outros moradores reconstruíram a lixeira da rua, pois, caso contrário, o lixo estaria sendo jogado no chão. “A Vilage está esquecida. Marcaram as casas condenadas, mas até agora nenhuma foi demolida”, diz.
Lazareto: um bairro fantasma?
Na matéria assinada pelo repórter Henrique Amorim, publicada em A VOZ DA SERRA no dia 18 de fevereiro, o Lazareto era comparado a um bairro fantasma, onde terra, escombros, entulho, lixo, pedaços de construções, móveis, roupas, utensílios domésticos e brinquedos se espalhavam pelo chão. Dois meses após este registro, apenas uma coisa mudou: o matou cresceu, dando ainda mais impressão que o Lazareto está, literalmente, abandonado.
As ruas permanecem esburacadas, dificultando tanto o acesso de veículos quanto de pedestres. Dezenas de casas estão condenadas à demolição. Outras foram interditadas pela Defesa Civil devido a risco de novos deslizamentos de terra e rochas.
A ponta de esperança para a comunidade veio do encontro com a Defensoria Pública, realizado no dia 18 de março, quando queixas e reivindicações foram tornadas oficiais. Agora, os moradores aguardam as soluções.
Máquinas continuam retirando terra do Loteamento Floresta
Um morro inteiro deslizou no Loteamento Floresta. Mais de cem casas foram ao chão com a catástrofe de 12 de janeiro. Sete pessoas morreram no bairro e máquinas ainda trabalham para retirar a terra no local. A Prefeitura já demoliu algumas casas no Floresta, mas, de acordo com moradores, faltam outras residências, que estão correndo risco de deslizamento.
O morador Francisco Teodoro da Silva diz que nunca teve uma sensação tão terrível quanto à do dia da tragédia. “Estava dormindo e não acreditei quando acordei. Só meus filhos carregaram 43 corpos mortos! Extremamente triste”, relata Francisco. Segundo ele, as máquinas trabalham desde que aconteceu a catástrofe e inúmeros caminhões de terra já foram retirados.
Um micro-ônibus está fazendo o transporte das pessoas que moram no Alto do Floresta. Um ônibus vai até a Rua Manoel Elias Perrut e quem mora na parte alta do bairro utiliza o micro-ônibus para subir o morro.
Em Duas Pedras, a reconstrução
A comunidade cobrou seus direitos, fez reivindicações, afixou placas em diversos pontos do bairro ironizando a demora na ação das autoridades, foi ao Ministério Público, se encontrou com a Defensoria Pública — e enfim começou a perceber melhoras no bairro Duas Pedras, um dos locais mais atingidos pela tragédia climática de 12 de janeiro. Após três meses, os moradores começam a ver que o dia a dia começa a retornar a um mínimo de normalidade.
Na Rua São Pedro, uma das principais do bairro, que registrou diversas vítimas fatais devido aos deslizamentos de terra, a lama que se acumulou em várias partes já foi praticamente toda retirada. Já na Rua Dr. Hélio Veiga, que se localiza num quarteirão abaixo do Hospital São Lucas, a grande quantidade de terra e entulho proveniente das chuvas e das casas que desabaram também foi removida. Com isso, tanto pedestres quanto motoristas voltaram a passar pela via sem maiores problemas. Na mesma rua, foi iniciada a demolição das casas que tiveram sua estrutura comprometida na catástrofe.
Outra questão que vem incomodando os moradores de Duas Pedras é o Córrego dos Mosquitos, localizado próximo ao ponto final do ônibus, que foi totalmente assoreado pelos detritos que desceram das encostas e das casas destruídas. Embora a terra que se acumulou sobre o córrego que capta o esgoto local ainda não tenha sido totalmente retirada, a Prefeitura anunciou que será construída uma nova galeria de águas pluviais no bairro.

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