Jeferson Lima, ou simplesmente Jefinho. Guardem bem este nome. Ao lado de Flavinho, Gil Branco, Guga e Me Leva - todos do Rio – ele é um dos autores do samba-enredo da escola de samba Imperatriz Leopoldinense para o carnaval 2010, Brasil de todos os deuses. E não é só isso: o samba da Imperatriz foi eleito o melhor do Grupo Especial, segundo o júri de especialistas do jornal O Dia, cujos integrantes encheram de elogios a composição.
Avesso “aos holofotes”, como ele mesmo diz, Jefinho confessa preferir que seu trabalho apareça na avenida, com notas máximas, mas não consegue escapar de uma entrevista ou autógrafo. E, mesmo envolvido no carnaval do Rio, ele não descuida de sua Vilage, embora não vá estar presente ao desfile da verde e branco em Nova Friburgo, por coincidência do desfile da Imperatriz Leopoldinense praticamente na mesma hora no Rio.
Nesta entrevista, Jefinho fala de seu trabalho no mundo do samba no Rio de Janeiro e em Nova Friburgo.
A VOZ DA SERRA – O samba da Imperatriz foi eleito o melhor do Grupo Especial, segundo o jornal O Dia e outras publicações especializadas. Como você se sente vendo seu samba considerado o melhor?
Jeferson Lima – É motivo de muito orgulho ver uma obra nossa ser plenamente aceita pela imprensa e pelas pessoas. Mas eu trocaria todos esses prêmios pelas notas máximas na avenida para ajudar a escola. Mas nós vamos avaliar se ele tem mesmo toda essa importância depois do desfile. Antes, analisando tecnicamente, nós temos consciência do nosso trabalho. E eu credito também ao enredo, extremamente bonito, que mexe com a emoção das pessoas – a religiosidade, a fé – e principalmente pela liberdade que o carnavalesco nos deu, sem termos que ficar presos aos conceitos. Ele deu o tema, temos a sinopse para seguir, mas tivemos liberdade e isso favorece a criatividade.
AVS – A pergunta seguinte seria sobre o que aborda o enredo, mas você já falou...
Jefinho – O enredo fala sobre a formação do povo brasileiro através da fé. Todas as religiões convivem no país de forma pacífica, diferente de tantos outros lugares onde há conflitos religiosos. No país, desde sua formação, os diversos povos que formaram nosso conceito de brasilidade, cada um deles trouxe a sua crença, sua religiosidade e conseguimos reunir no país todas as crenças e religiões convivendo harmoniosamente. E o Brasil é um culto de celebração de todos os deuses. Por isso, Brasil de todos os deuses.
AVS – Como foi a parceria com Flavinho, Gil Branco, Guga e Me Leva?
Jefinho – Eu ainda incluo aí o meu grande parceiro, o saudoso Venezia, que tenho certeza absoluta que ele também interferiu aí para uma ajuda divina. Ele era meu maior parceiro. Por motivos de estrutura, de dificuldades, temos que estar sempre agregando, somando forças e, no Rio, eu já vinha com Me Leva e Guga já há algum tempo, nós vencemos em 2004, junto com Carlos de Olaria e Venezia; no ano passado tive a felicidade de ganhar o samba da Renascer, de Jacarepaguá, considerado também pela imprensa o melhor samba do Grupo de Acesso; e este ano somamos o Flavinho e o Gil Branco, substituindo o Venezia. E cada um com sua parte: uns apoiam levando torcida, outros financeiramente. Infelizmente hoje não se ganha um samba só pela sua qualidade. Além de ser o melhor, para que ele transpareça essa superioridade é preciso essa estrutura. E temos que agregar valores e conceitos, mas todos com igual importância.
AVS – Quantas vezes você já concorreu no Rio e venceu?
Jefinho – No Rio já fiz alguns sambas para blocos, também com parceiros de lá; fiz o samba da Barra da Tijuca, do Grupo de Acesso, e a escola foi campeã; em 2004 na Imperatriz Leopoldinense; fizemos o samba da Renascer, de Jacarepáguá, no ano passado; e este ano novamente na Imperatriz. Além de São Paulo e Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.
AVS – E em Nova Friburgo, quantas vezes você já concorreu e venceu?
Jefinho – Aqui eu já perdi a conta, porque com muitos sambas eu venci e outros perdi, mas também de algum tempo para cá, na Vilage, ficou bastante tempo sem concurso. Então fazíamos e assinávamos o samba, que era responsabilidade nossa fazer. Mas, em Friburgo, certamente fizemos uns 40 sambas, entre blocos e escolas de samba.
AVS – Você está com que idade e quando começou a compor?
Jefinho – Eu estou com 42 anos e componho desde os 16.
AVS – Você está no carnaval 2010 em Nova Friburgo também. Não pretende ficar só no Rio?
Jefinho – Não, estamos com a Vilage, fazendo toda a direção de carnaval, junto com toda a comissão de carnaval da Vilage, mas infelizmente, provavelmente eu não deverei estar aqui no momento crucial do desfile porque vai coincidir o horário. E como lá é muito mais difícil de estarmos com essa oportunidade de trabalho, na Marquês de Sapucaí, para milhões de pessoas no mundo todo, queremos sentir essa emoção de perto. Mas, claro, o coração vai estar dividido, porque na Vilage desenvolvemos um trabalho que é muito maior, não é só o samba, passa pelo enredo e todo o cronograma.
AVS – E já está tudo esquematizado?
Jefinho – A Vilage hoje é uma escola organizada, que não depende mais ninguém especificamente, mas continuamos trabalhando muito para que os companheiros não sintam a minha ausência, que vai ser só durante a hora do desfile.
AVS – É interessante para Nova Friburgo ter um compositor da cidade com um samba vencedor numa escola do Rio. É um valor friburguense se destacando lá...
Jefinho – Muito francamente, eu prefiro sempre que apareça o trabalho. Eu preferia ficar fora dos holofotes. Mas isso é inevitável. Hoje com essa facilidade de comunicação, das pessoas terem acesso às informações. Mas prova que Friburgo tem vocação carnavalesca. Não digo isso por mim, mas temos um carnavalesco que já foi do Grupo Especial do Rio e Grupo Especial de São Paulo; temos hoje cinco cantores que vão provavelmente estar na Sapucaí, cada qual defendendo seus sambas: o Monstrinho, no carro de som da Imperatriz Leopoldinense; o Kaísso, no carro de som da Viradouro; o Malandro (que também cantou meu samba junto com Monstrinho), na Renascer, de Jacarepaguá, que é a escola sensação do Grupo de Acesso; e me parece que o Guto e o Fabinho, na Império da Tijuca. Na verdade prova que Friburgo tem pessoas talentosas que estão aí despontando. Talvez precise que o carnaval aqui tenha mais investimento, que as pessoas procurem olhar com um pouco mais de carinho, porque traz divisas, é um investimento que traz retorno e prova também o valor cultural da cidade.

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