Sobre beleza e padrão

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
por Jornal A Voz da Serra

Wllysses D’Ávila 

A partir da segunda metade do século 18 os espartilhos, que já eram uma obsessão inglesa, passaram a ser produzidos em série, popularizando sua aquisição. Os padrões da época ditavam uma cintura de no máximo 51 centímetros. Totalmente bizarro para os dias de hoje. A indumentária era utilizada para uma perigosa prática conhecida como tight-lacing, que poderia ser traduzida como laço apertado. Não é difícil encontrar relatos da época sobre mulheres que morriam “enforcadas” pela cintura; ou de aparições que hoje causariam horror nos dias de hoje. Como a da jovem, com 33 centímetros de cintura, que provocou inveja em todo um baile na França da época.
A sensualidade na China antiga também pode no espantar. Sapatos da madeira, medindo 15 centímetros, eram usados para atrofiar os pés. Tudo começava quando a menina completava três anos, já nessa idade, dobrava-se os dedos até as solas dos pés, utilizando faixas, até que os ossos fosse quebrados. A partir disso, minúsculos sapatos de madeiras eram usados por toda uma vida. Dez centímetros era o número padrão dos calçados. Apesar da dor, nenhuma menina desejava ficar de fora do sofisticado ritual de tortura e sacrifício, sob a pena de não conseguir um bom casamento. Os cultuados “pezinhos de lótus” eram reverenciados pelo sexo masculino. Ainda é possível encontrar por lá alguma idosa que sofra as consequências dessa prática, já quase totalmente abandonada pelas jovens de hoje.
Outra forma de “embelezamento” que também tem sido deixada de lado pelas jovens, mas por enquanto ainda está viva em sua cultura, é a das chamadas “Mulheres-Girafa da Tailândia”. Existe uma controversa teoria que diz que as diversas argolas era usadas no pescoço  pelas mulheres das montanhas de Mae Hong Son, no norte da Tailândia, como proteção contra os ataques de tigres. O fato é que isso acabou por se tornar um costume milenar.
Essas mulheres, fugidas a aproximadamente 60 anos do regime militar da antiga Birmânia, viviam isoladas devido à falta de costume com a civilização. Esse afastamento ajudou na criação de mitos e folclores a respeito de suas figuras. Além dos músculos alongados pelo uso de uma espiral de cobre, que faz o pescoço parecer incrivelmente longo, são conhecidas também pela singela beleza. De acordo com o Guiness Book, a mulher que já teve o pescoço mais comprido foi Karen Nighten, com 51 centímetros.  A tradição começa por volta dos cinco anos, quando as meninas recebem seu primeiro aro de cobre.
Na verdade a prática modifica e alonga a musculatura do trapézio, o que dá a impressão de um pescoço maior. Atualmente essas mulheres já não são mais tão reclusas e complementam a renda familiar posando para fotos com turistas.
A mais recente prática bizarra em nome da vaidade consiste em amputar o dedo mínimo para poder usar com mais conforto sapatos de salto. A polêmica intervenção tem origem nos Estados Unidos e promete acabar com o desconforto dos calçados femininos. A amputação dos dedinhos inferiores foi a forma encontrada para acabar com dores, calosidades e deformações, explicam algumas mulheres que se submeteram a esse procedimento.
Esse tipo de plástica é uma das opções para acabar com o desconforto nos pés que usam salto. Diminuição dos dedos e aplicação de sustâncias na sola também são outras alternativas. 87 por cento das estadunidenses sofrem com algum tipo de problema nos pés em consequência do uso a médio e longo prazo de algum tipo de calçado.
Tudo descrito pode parecer estranho, exótico e distante da nossa realidade, porém quando estamos imersos na cultura e padrão que levam a esse tipo de prática não causam tanto estranhamento, pois tudo é uma questão das razões que levam a esse tipo prática. Ficamos indignados com o médico que errou e levou uma jovem ao óbito em uma lipoaspiração, mas entendemos o desejo de ter uma barriga chapada; assombrados com uma amiga que perdeu os cabelos por conta do uso de um produto que continha formol, mas totalmente compreensivos com a ânsia que ela estava por um cabelo liso e arrumado.
As intervenções e práticas dolorosas e deformantes são apenas resultados pelo desejo criado de ser belo, seduzir e, em ultima instância, ser aceito. Os padrões ditam o que é belo e uma indústria cria as maneiras de chegar lá. O belo é uma construção, é relativo e varia de acordo com a cultura. De que valeria um cabelo liso na Tailândia dos pescoços compridos ou a barriga chapada na China dos pés pequenos. Quanto a eles, tenho certeza que o estranhamento seria o mesmo com os nossos desejos. Para que arrancar o dedo do pé? Diria aquela que deformou outra parte do corpo para parecer com as modelos da revista de seu país em sua época.
A verdade é que esses sacrifícios físicos parecem justificáveis dentro do seu próprio contexto. O julgamento nasce do distanciamento e também do desconhecimento das razões que levam a esse tipo de comportamento. O que parece comum é a aversão por determinados aspectos de si mesmo e a necessidade de se adequar que as culturas podem causar nas pessoas. O resultado disso tem sido os mais diversos, que vão desde muito dinheiro, passando por sérias doenças psicológicas e deformações irreversíveis, até a criação de algo que desconhecemos completamente.

http://www.pessoal-intransferivel.blogspot.com

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