Maurício Siaines (*)
O tradutor alemão de Os sertões, de Euclides da Cunha, Berthold Zilly, costuma dizer, em todos os eventos de que participa, que o livro é o mito de origem do Brasil atual, pois estariam expostas ali todas as condições que levaram à evolução histórica do país tal como aconteceu. Talvez seja mera literatura essa afirmação, mas é muito tentador – mesmo que seja apenas como exercício – verificar o quanto de Os sertões está vivo no Brasil de depois.
O que primeiro salta aos olhos é a presença do sertanejo nordestino nas grandes cidades do Sudeste, a partir de processos de migração interna. E, como conta a Asa Branca, de Luiz Gonzaga, o abandono da terra pelo nordestino acontece por falta absoluta de condições de vida. Desafio e aventura marcam esse processo, mas, como disse Euclides, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte” e enfrentou a situação. Muitos foram engrossar as favelas que cresciam no Rio de Janeiro e, depois, em São Paulo.
Aliás, a palavra favela também vem de Canudos. É o nome de uma planta espinhosa daquela região do sertão. Os soldados que assediavam o arraial sertanejo tinham se posicionado em cima de um morro onde há grande quantidade dessa planta e, por isto, era o ‘morro da Favela’. Quando a guerra acabou, parte da tropa foi para o Rio de Janeiro e, para ficar perto do comando do Exército, no centro do Rio, aqueles soldados resolveram se instalar no morro da Providência, que, no Rio de hoje, fica entre a estação ferroviária da antiga Central do Brasil e a região portuária. E aquela gente vinda de Canudos começou a chamar o morro pelo mesmo nome do outro, lá de Canudos: morro da Favela. A palavra tomou assim outro significado, passou a designar um tipo de bairro fora da ordem urbanística, com uma lógica própria e marginal.
No início do século 20, houve um malandro famoso no morro da Favela: Sete Coroas. Era reconhecido no meio da marginalidade por ser fiel a uma determinada moralidade, sua palavra era respeitada e tornou-se uma lenda no meio das pessoas que viviam à margem da vida de uma cidade de grande tradição escravocrata. Quando morreu, seu velório na igreja de Santana, próximo ao morro da Favela foi muito concorrido. O compositor Sinhô (1888-1930) compôs um samba em homenagem a Sete Coroas, que tem o seguinte trecho:
É noite escura,
Iaiá, acende a vela!
Sete Coroas
Bam-bam-bam lá da Favela!
Exatamente dez anos depois do fim da guerra em Canudos, em 1907, com sete anos de idade, estabeleceu-se no Rio de Janeiro um menino de 7 anos, meio adotado por uma prostituta da rua Joaquim Silva, na Lapa. Era João Francisco dos Santos, oriundo do sertão de Pernambuco, um pouco mais ao norte de Canudos. Cresceu na marginalidade e vivenciou os mais diversos conflitos e, ao chegar à idade adulta, era marcado por três características que o colocavam na posição de alvo de discriminações: era negro, era nordestino e era homossexual.
Figura lendária do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, João Francisco tornou-se Madame Satã e é personagem de diversas histórias, algumas verdadeiras, outras nem tanto. Algumas dessas histórias referem-se a conflitos, outras a atitudes de solidariedade humana. Em todas a marca era a grande valentia do personagem. O herói de sua juventude, como uma espécie de nexo moral, foi Sete Coroas.
Três anos depois da chegada de João Francisco ao Rio, em 1910, outro acontecimento revelador de contradições e injustiças sociais abalava a cidade, a Revolta da Chibata. Marinheiros rebelaram-se contra os maus tratos nos navios da Marinha de Guerra, onde era empregada a chibata para impor a disciplina, método típico da escravidão. Os rebeldes dominaram os navios de guerra que se encontravam na baía de Guanabara e, sob o comando do marinheiro negro João Cândido, sitiaram a cidade. Deram alguns tiros de canhão por cima da cidade exigindo a suspensão do uso da chibata na Marinha e a anistia pela revolta. Provocaram grande alvoroço entre as elites governantes e conseguiram que o governo se comprometesse a atender suas reivindicações, concordando em entregarem-se. O governo não cumpriu o pacto e os marinheiros foram presos e submetidos a torturas.
Durante o regime militar, o compositor Aldir Blanc fez uma música falando de João Cândido, ‘O mestre-sala dos mares’. Consta que a censura da ditadura não permitiu que houvesse referência ao “almirante negro”, como João Cândido foi conhecido. Provavelmente, porque seria um atentado à segurança nacional de uma ordem tão excludente haver um almirante negro. Assim, a letra da música dizia: “conhecido como o navegante negro, tinha a dignidade de um mestre-sala”.
Esses exemplos da exclusão social gerada pela ordem elitista, assim como tantos outros, podem se simbolizar em um acontecimento durante a campanha de Canudos: no dia 14 de julho de 1897, os militares que atacavam Canudos resolveram prestar uma homenagem à Revolução Francesa – pois foi nela que se originaram as ideias de civilização que orientaram a Proclamação da República no país – e fizeram uma salva de 21 tiros de canhão. Tais tiros não eram de festim e os projéteis eram lançados sobre o arraial sertanejo. O paradoxo não escapou a Euclides da Cunha que, com fina ironia, informou que aquele bombardeio acontecia “porque havia pouco mais de cem anos um grupo de sonhadores falara nos direitos do homem e se batera pela utopia maravilhosa da fraternidade humana” ... (Euclides da Cunha,[1902] 2002. Os sertões. Rio de Janeiro, Record, p. 431)
Aqui estão algumas histórias, entre muitas, de equívocos, de injustiça e exclusão social. Talvez ainda seja possível reparar tudo isso. Ao final do segundo governo do presidente Lula, o Brasil terá completado a marca inédita de 16 anos de estabilidade financeira e normalidade democrática combinadas. A dívida com o passado é grande e seu resultado é a crise social que se expressa na violência urbana, mas pode ser que ainda dê tempo, antes que se instale a completa barbárie.
(*) Jornalista, mestre em sociologia

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