Situação dos abrigos ainda preocupa

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
por Jornal A Voz da Serra
Situação dos abrigos ainda preocupa
Situação dos abrigos ainda preocupa

Dalva Ventura

Um mês depois da tragédia que devastou Nova Friburgo, 949 famílias ainda estão nos 68 abrigos públicos da cidade e outras tantas estão alojadas em casas de amigos e parentes. Nesses abrigos a situação não é nada fácil, como qualquer um pode imaginar.

Sem um mínimo de privacidade, centenas de famílias partilham o espaço comum, totalmente improvisado e sem as condições mais básicas de higiene e habitabilidade. Nos varais pendurados aqui e ali, roupas secam ou fazem as vezes de biombos. O barulho é permanente, com muita gente conversando e crianças brincando.

Mesmo assim, nos abrigos reina uma apatia difícil de vencer. Os voluntários e profissionais de saúde que estão atuando nos abrigos tentam quebrar a inércia que parece ter tomado conta dos que ali estão, mas sem muito sucesso. O que se vê durante o dia na maioria dos abrigos da cidade é gente dormindo, homens jogando cartas, mulheres conversando à toa, sem nada para fazer, além de crianças meio sem assunto, andando de um lado para o outro.

Ali, todos têm um só objetivo em mente: reconstruir suas vidas. E, sobretudo, voltar para casa. Ou melhor, voltar a ter uma casa para morar. No entanto, além de todos os obstáculos a serem vencidos e a julgar pelo estado de espírito dos desabrigados, será difícil. O trauma de perder tudo, inclusive membros da família, a falta de emprego e, principalmente, de um imóvel para alugar, contribuem para aumentar ainda mais o desalento de todos que ali estão.

Por onde recomeçar? Esta é a pergunta que todos se fazem. Ainda esta semana os desabrigados e desalojados começarão a receber o aluguel social a que têm direito. Ao todo, 2.081 famílias foram cadastradas para receber o benefício, de R$ 500 por mês. As primeiras 236 famílias (as que já eram cadastradas no Programa Bolsa Família) receberão a primeira parcela do aluguel social nesta quinta-feira, 17, e outras 1.736 no dia 21.

Vale lembrar que os abrigos em condições mais insalubres, como a Creche Vovó Mulata (São Geraldo), o Colégio Municipal Messias de Moraes Teixeira, Colégio Eduardo Breder, a Paróquia de São Cristóvão (Mury), entre outros, já foram desativados. Segundo o secretário de Assistência Social, Carlos Antônio Maduro, o único abrigo “problemático” é o do Lazareto. Em todos, porém, as condições são muito precárias. Maduro reconhece este fato. “Sim, a vida nos abrigos não é nada fácil. E, por isso mesmo, estou lutando contra o tempo e com todas as minhas forças para poder alojar essas famílias em abrigos mais confortáveis e com alguma privacidade”, declara.

O secretário afirma não ter recebido nenhuma determinação do Ministério Público, que deu um prazo para que a Prefeitura melhorasse as condições dos abrigos na cidade, inclusive individualizando os espaços, para que as famílias tenham privacidade. “Provavelmente este documento foi enviado para o próprio gabinete”, disse.

Segundo Maduro, 60 famílias foram alojadas em locais que permitem uma certa individualização. E cerca de 30 já foram transferidas para o 3º andar do antigo Sase, em Olaria. Outras 30 irão para o Ginásio Esportivo de Olaria, que comporta muitas outras famílias e onde estão sendo erguidas divisórias para individualizar os ambientes.

Outra determinação do Ministério Público é que a Prefeitura desocupasse as escolas públicas para o início do ano letivo, marcado para a próxima segunda-feira, 21. Maduro disse que a Prefeitura está fazendo o possível para tirar os desabrigados de algumas unidades educacionais que ainda estão ocupadas.

A maior dificuldade: um lugar para morar

Tomara que ele não esteja iludido, mas Carlos Antônio Maduro está apostando todas as duas fichas na liberação do aluguel social, para que muitas famílias possam sair dos abrigos. Ele reconhece que não há imóveis disponíveis para alugar em quantidade suficiente, mas acha que as famílias poderão compartilhar imóveis com parentes, vizinhos e até mesmo com pessoas que conheceram no período que ficaram abrigadas.

Para evitar que a especulação eleve abusivamente os preços dos aluguéis, a Procuradoria Municipal está fazendo um levantamento do mercado imobiliário para comparar os preços que estão sendo cobrados antes e depois das chuvas. “A ideia é que, em 40 dias, tenhamos um mínimo de pessoas alojadas em abrigos públicos”, finalizou Maduro.

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