Setor do vestuário amarga crise: 500 demissões só este mês

segunda-feira, 28 de novembro de 2011
por Jornal A Voz da Serra

Henrique Amorim

Setembro, outubro e novembro costuma ser um trimestre de muitas oportunidades para as costureiras e demais trabalhadores do setor do vestuário em Nova Friburgo. É a época do ano em que as confecções de lingerie, moda praia e fitness do município mais contratam, devido à grande demanda de pedidos para o fim de ano. Porém, 2011 tem sido um ano atípico e de muita nebulosidade no setor—um dos (até então) mais pujantes da economia local. O ceticismo é do assessor do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Vestuário, Edil Nunes, que contabilizou só este mês aproximadamente 500 rescisões. “É o triste retrato do setor que—quem diria—se inverteu com uma enxurrada de demissões jamais vista nesta época do ano. Nunca houve tantas baixas nas confecções em novembro, um mês que era de pico na produção”, lamenta o sindicalista, que atribui a crise à falta de perspectiva dos empresários de moda íntima em Nova Friburgo oriunda da tragédia das chuvas do início do ano.

Nas últimas semanas, pelo menos dez confecções encerraram suas atividades no município. Outras duas, de médio porte, baseadas no distrito de Conselheiro Paulino, se transferiram do município. Uma delas, a confecção It, mudou-se para Petrópolis e deixou 100 trabalhadores desempregados. O mesmo aconteceu com outra especializada em moda praia. A gigante do setor, a Fábrica Filó, fabricante do selo Triumph com cerca de 500 operários, fechou o setor de malharia e já dispensou 67 funcionários. Nem todos os demais 37 deverão ser realocados e a previsão é de que haverá mais baixas até o fim do ano.

Para Edil Nunes, os agravantes para a mudança de comportamento do setor devem-se ainda à liberação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) no primeiro semestre do ano por conta da calamidade pública—o que permitiu a muitas costureiras investir o dinheiro na compra de máquinas para facções, mantendo-se no ramo, mas por conta própria. E também à falta de ações do poder público para fortalecer o setor do vestuário, que emprega cerca de 14 mil trabalhadores em 1.582 confecções formais. Acredita-se que mais seis mil costureiras atuem na informalidade, entre facções e confecções não legalizadas.

Outros fatores que podem ter intensificado a crise no setor de vestuário, de acordo com o sindicalista, são a forte concorrência dos polos de lingerie do Ceará, Sul de Minas Gerais, São Paulo e Goiás e também a retração de muitos compradores que evitaram fazer grandes pedidos para confecções friburguenses de pequeno e médio porte, temendo que elas não conseguissem dar conta destes pedidos ante a possibilidade de novos temporais impedirem o funcionamento normal das empresas. Para tentar reanimar o setor, Edil vai apelar ao prefeito em exercício Sérgio Xavier para que seja formulada uma nova política de incentivos fiscais às confecções, com vistas a investimentos no ramo e, consequentemente, a retomada dos empregos.

Facções ou mudança de ramo: as saídas para os trabalhadores do vestuário enfrentarem a crise

A costureira Valéria Barroso, 36 anos, foi dispensada de uma confecção de moda íntima em Olaria no início do mês e, como já possui máquinas de costura em casa, reforça o orçamento doméstico trabalhando com facção. Mas em 2012, quando acabar o seguro-desemprego, a costureira pretende mudar de ramo. “Minha casa em Riograndina foi atingida por uma encosta e estou morando com minha irmã, mas pretendo ir embora para Rio das Ostras, que está crescendo muito. Meu marido e meu filho são pedreiros e já estão morando lá. Não falta emprego. Quem sabe eu possa ajudá-los trabalhando no comércio ou vendendo roupas infantis. Certamente o salário vai ser maior que o ganhava aqui”, prevê ela, que não vislumbra possibilidade de reerguimento em Nova Friburgo, onde o piso das costureiras mantém-se em R$ 664,40.

Ainda segundo Valéria, a confecção onde ela trabalhava vai fechar em janeiro: os patrões têm medo de investir em equipamentos e não ter encomendas suficientes para compensar o gasto. “Muitos clientes ficaram com medo de fazer encomendas para confecções de Nova Friburgo. Muita gente assumiu compromisso e não pode entregar as mercadorias porque as empresas sofreram enchentes, as máquinas se perderam”, comenta a costureira.

Para Edil Nunes, as facções são outra saída para os trabalhadores do ramo. A Filó, inclusive, já investe neste segmento há pelo menos duas décadas com mais de 350 costureiras em facções que só produzem para a fábrica em Cachoeiras de Macacu, Cordeiro e Santa Maria Madalena. As peças, inclusive, já saem cortadas da produção no bairro Vila Amélia e apenas são montadas nas facções. Muitas facções investem no pagamento de salários por hora sem os prêmios de produção que atualmente variam nas confecções entre R$ 150 e R$ 400 por mês, não embutidos nos salários, portanto, sem incidirem impostos.

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