Ser professor é mais do que profissão, é vocação

sábado, 13 de outubro de 2018
por Paula Valviesse (paula@avozdaserra.com.br)
Ser professor é mais do que profissão, é vocação

Há 17 anos o Colégio Modelo, em Nova Friburgo, tem como um de seus compromissos a formação de novos educadores. O curso de formação de professores é procurado por alunos recém-saídos do ensino médio e também por pessoas que abrem mão de outras carreiras em busca da verdadeira vocação: ensinar. A tarefa não é simples, mas é abraçada com muito amor por aqueles que se habilitam, como é o caso da professora Edméa Thurler, que com 34 anos de profissão mantém até hoje a fala apaixonada pelo magistério.

Para Edméa, ser professor é gostar do que faz, ter compromisso com o aprendizado e estabelecer ligações de amizade e afeto, que muitas vezes vão além da sala de aula: “Comecei a dar aula muito jovem e tenho muitos alunos que estudaram comigo no pré-escolar, com os quais mantenho contato até hoje: sou convidada para casamentos, batizados, eles vêm até mim para apresentar seus filhos, contar sobre as carreiras.

Esse é o grande presente que nós professores recebemos, apesar dos baixos salários, da falta de infraestrutura em algumas escolas, o que carregamos de mais gostoso é essa questão do afeto, esse convívio, a diferença que fazemos na vida e na educação dos alunos”, afirma a professora.

O curso do Colégio Modelo tem duração de um ano. A partir dessa formação os novos professores estão habilitados para darem aulas para turmas do ensino infantil ao 5º ano. A procura é majoritariamente feminina, mas ainda há alguns homens que se descobrem nessa profissão. Para a professora, que hoje contribui ainda com a formação de novos colegas de trabalho, compondo a equipe coordenada pela professora Elisabeth Cortez Teixeira, ensinar não é tarefa fácil, assim como não é simples seguir o curso de formação, é preciso vocação. De acordo com ela, muitas pessoas iniciam a formação, mas não se descobrem como educadores e acabam abandonando o curso.

“O Colégio Modelo oferece o curso de formação de professores desde 2001. De lá para cá, muitos alunos se formaram, boa parte deles, inclusive, trabalham atualmente nas redes pública e privada do município. Mas essa é uma profissão muito difícil, apesar de apaixonante. Quando as pessoas iniciam os estudos, muitas vezes não têm noção do que é necessário para ser professor. E no curso nós trabalhamos as habilidades e competências fundamentais para ensinar. Então começamos com turmas grandes, mas muitos desistem, descobrem que não é isso que verdadeiramente desejam”, conta Edméa.

Essa questão da vocação é percebida na composição das turmas. Por exemplo, neste ano, dos 40 alunos que iniciaram o curso de formação, apenas 16 continuam: “Geralmente são formadas duas turmas, mas esse ano abrimos apenas uma, com 40 alunos. As pessoas buscam o curso porque querem uma profissão e acham que, como é de curta duração, vale investir. Consideram ainda que ser professor é ter férias em julho e recesso em janeiro e no Carnaval, mas esquecem que muitas vezes os alunos param, mas nós não. Temos um compromisso, é preciso planejamento, fazemos correções de provas e trabalhos muitas vezes em nossas casas, precisamos estar sempre bem informados. Formar crianças é uma responsabilidade muito grande”.

E uma das formas encontrada pelo colégio para estimular os futuros professores é o incentivo à continuidade da formação: “Já no meio do curso apresentamos opções de graduação, como o Cederj, à distância, o que permite um ingresso ainda durante a formação, e está entre os melhores cursos superiores do país. Então muitos já terminam a formação dando andamento ao curso superior, inclusive na turma deste ano já temos oito alunos inscritos na graduação”, conta Edméa.

Sobre os assuntos que vêm sendo repercutidos, como o professor agredido pelos alunos, o mercado de trabalho, o apoio familiar, Edméa destaca a importância do apoio da família e da direção das escolas para um melhor exercício da profissão: “Muitas vezes nós não temos o apoio da família, falta o estímulo de casa para que o aluno queira aprender. Mas temos o nosso compromisso, que é garantir a aprendizagem, e como dizia Paulo Freire, temos a responsabilidade de transformar vidas”, diz a professora, que ainda ressalta que em Friburgo, o apoio da direção das escolas e a postura dos alunos com relação ao mestres ainda é muito boa, são alguns casos de rebeldia, mas o que prevalece é o respeito.

“Ser uma jovem professora é um grande desafio”

Raryna Rosa Ribeiro de Oliveira terminou o ensino médio e optou pela formação de professores. Hoje, aos 21 anos, ela cursa faculdade de psicologia e segue os passos da mãe, das tias e os exemplos que teve em sala de aula:

“Estudei a minha vida toda no Colégio Modelo, onde me formei no ensino médio e tive a oportunidade de concluir o curso de formação de professores, o pós-médio. A ideia de ser professora, sempre esteve comigo. Ainda no ensino fundamental, gostava de ajudar meus colegas de classe e ser "ajudante" dos meus professores. Com o passar do tempo, o universo escolar foi me conquistando mais, apresentei maior habilidade para lidar com crianças e isso foi me mostrando minha verdadeira vocação. No terceiro ano do ensino médio, época em que se exige a escolha de uma profissão, já possuindo mais maturidade e consciência da importância da educação, foi natural o desejo de cursar o pós-médio e seguir como professora.

Hoje curso faculdade de psicologia e, ao mesmo tempo, sou aplicadora do programa Escola da Inteligência, que trabalha com um método para o desenvolvimento da saúde emocional e construção de relações saudáveis. Apesar de acreditar que a educação como um todo seja em sua integridade importante, tenho um carinho especial por história. Acredito que essa matéria auxilia na construção da nossa singularidade. Que os acontecimentos ao longo dos anos, servem como aprendizado.

Ser uma jovem professora, é um grande desafio, porém representa muito para mim. Acredito que a educação em nosso país está carente de atenção e eu tenho muita esperança de que é através dela que vamos mudar o nosso futuro. Somente com investimento em educação vamos mudar a realidade das nossas crianças e jovens. Temos uma importância muito grande e que vai além de passar conteúdos acadêmicos, formarmos seres pensantes dotados de empatia e respeito”.

“Me encontrei profissionalmente”

Luciane Lack Francisco, de 42 anos, se formou em direito, mas depois de avaliar suas motivações, resolveu largar tudo para se tornar professora:

“Ser professora sempre foi um sonho que acabei deixando de lado por um tempo. Me dediquei a outras coisas. Mas agora tive a oportunidade de fazer o curso e acho que me encontrei profissionalmente.

Na minha opinião, ensinar no mundo moderno é muito mais que aplicar os conteúdos das matérias curriculares, os pais trabalham fora e temos várias formas de famílias e a correria do dia a dia às vezes faz detalhes passarem "batidos" com respeito às crianças. Com isso o professor acaba percebendo e ajudando na formação não só intelectual, mas moral dessa criança ou adolescente.

Como já tenho uma graduação, e agora estou terminando o curso de formação de professores, farei uma pós-graduação. Vou continuar me dedicando à área da educação e acredito que só com um cidadão esclarecido podemos mudar algo. Ser professor é a oportunidade de contribuir diretamente para o desenvolvimento do ser humano e da sociedade em geral. Hoje sou feliz por fazer parte desse grupo!”.

 

Ienf: a escola pública que forma talentosos educadores em Nova Friburgo

Antigo Ribeiro de Almeida: uma referência no ensino desde 1933

Ao passar pela praça Dermeval Barbosa Moreira é impossível não apreciar o belo prédio, em estilo alemão, denominado enxaimel, com suas paredes amarelas, sua torre e muitos jovens estudantes. É o Instituto de Educação de Nova Friburgo, o Ienf. Muitas pessoas, entretanto, ainda lembram dos tempos em que ele se chamava Grupo Escolar Ribeiro de Almeida, educandário inaugurado em 1933, responsável por formar milhares de jovens e de marcar o nome de tantos outros professores ao longo da história de Nova Friburgo.

Em 1920, foi lançada a pedra fundamental do prédio, cujo projeto é do arquiteto Heitor de Melo. O local escolhido, entretanto, causou polêmica, já que parte dos moradores consideravam o local inapropriado para uma escola. As obras só foram iniciadas em 1926 sendo concluídas em 1933.

Em 1985, o Ribeiro de Almeida passou a se chamar Instituto de Educação de Nova Friburgo. Apesar da mudança do nome, a escola continuou a ser referência no município, principalmente na formação de professores, oferecendo ao mercado de trabalho centenas de educadores talentosos e dedicados.

 

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