Henrique Amorim
Desde o mês passado está em funcionamento num espaço de 200 metros quadrados do Cemitério Luterano Jardim da Paz, no Paissandu, o Crematório Nova Friburgo, que tem capacidade para fazer por dia até dez incinerações de corpos, restos mortais e membros humanos amputados em cirurgias e não é exclusivo para integrantes da comunidade luterana do município. Até agora, cerca de 20 cremações, a maioria de não evangélicos, já foram realizadas no crematório, que figura como uma nova opção para a falta de vagas nos cemitérios do município, inclusive o próprio Jardim da Paz. O Crematório Nova Friburgo é o segundo a funcionar no estado. O primeiro fica no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro.
Embora muita gente ainda seja avessa a tal prática de destinação dos restos mortais de entes queridos, os responsáveis pelo crematório valorizam a higienização de todo o processo, que não exala sequer fumaça ou odor. “É um destino limpo que se dá aos corpos com a cremação, sem o risco de contaminação do solo e posterior necessidade de exumação (retirada dos ossos humanos) gerando sofrimento aos familiares dos falecidos”, observa o administrador do crematório, Márcio Rebouças. É ele que acompanha todas as incinerações de corpos no moderno forno importado da Alemanha e montado na Argentina.
O sistema é alimentado por gás canalizado num tubo cilíndrico, com capacidade para até uma tonelada e meia do combustível. A cada cremação são consumidos pelo menos 50 quilos de gás. Duas câmaras são acopladas ao forno para a incineração dos corpos e a queima da fumaça. Esses equipamentos garantem a total limpeza do processo, impedindo que sequer seja exalada fumaça durante a cremação, respeitando-se, assim, as leis ambientais.
Renda obtida no crematório viabilizará projeto social luterano
Com a inauguração do Crematório Nova Friburgo, a Igreja Luterana pretende pôr em prática um projeto social antigo: o Lar do Idoso, que contará com 150 chalés de 36 metros, cada, com quartos individuais. A iniciativa pretende dar amparo e assistência social aos vovôs e vovós. O complexo deverá ser construído num terreno doado por um dos membros da igreja. Todas as despesas com a administração do Lar do Idoso serão custeadas com parte da arrecadação do crematório.
Os responsáveis pelo crematório destacam ainda que a incineração de corpos vem sendo difundida no Brasil desde a década de 1960, e no exterior durante a Segunda Guerra Mundial, quando os fornos industriais desativados na Alemanha foram adaptados para a incineração de corpos.
Naquela época os europeus aproveitavam a inversão térmica (fenômeno comum nas regiões frias) para evitar que a dissipação atmosférica originada dos cadáveres favorecesse a propagação de pestes e epidemias nos campos de concentração. A cremação de corpos, porém, foi criada na Inglaterra. Atualmente as cremações substituem cerca de 60% dos sepultamentos na Europa, garantindo ainda a não contaminação dos lençóis freáticos (águas subterrâneas). No Brasil, o crematório Jayme Augusto Lopes, em São Paulo, é o campeão em incinerações de corpos: até 30 por dia.
Como acontece a cremação de um corpo humano
O Crematório Nova Friburgo dispõe ainda de uma capela ecumênica para velórios. Após as celebrações religiosas e a despedida do ente querido, o caixão de madeira é direcionado a uma janela e depositado sobre uma esteira mecânica, em direção ao forno. A partir daí, nenhum familiar ou pessoa estranha pode acompanhar o processo de incineração e a urna não pode ser aberta, apenas são retiradas as alças de metal do caixão, devido à maior dificuldade de combustão desse material. Tais proibições são garantidas por lei. O processo de incineração acontece a 950 graus de temperatura em média e dura aproximadamente duas horas para corpos de até 90 quilos e cerca de três horas para corpos acima deste peso.
Após a cremação dos corpos, roupas e urna de madeira são geradas aproximadamente 400 gramas de cinzas, retiradas da base do forno com uma vassoura e depositadas numa gaveta de metal acoplada ao equipamento. Depois do esfriamento, as cinzas são depositadas em caixas padronizadas e entregues posteriormente aos familiares do falecido. O forno só tem capacidade para a incineração de um corpo por vez e, após aquecido, o ideal é que seja incinerado pelo menos mais um corpo em seguida. Se houver fila de espera para incineração, os corpos devem ser colocados numa câmara frigorífica. “Esse recurso favorece muito também os funerais que não podem ser realizados até o primeiro dia seguinte à morte, devido à espera de familiares que residem longe. O corpo pode ser refrigerado com a tampa do caixão levantada por até cinco dias”, enumera Márcio.
Vale destacar que a cremação só pode ser realizada em pessoas que expressaram essa vontade em vida, seja através de documento registrado em cartório civil ou verbalmente a parentes, que terão que comprovar esse desejo do falecido com testemunhas em cartório antes do funeral. Só não poderão ser cremados corpos de pessoas vítimas de assassinatos ou de mortes suspeitas, já que a Justiça poderá decidir posteriormente pela exumação das ossadas para investigações. Os velórios de pessoas que serão cremadas podem ainda ser feitos em qualquer capela ou lugar, bastando, porém, que o corpo seja transladado até o crematório por funerárias, com despesas pagas pelos familiares. O Crematório Nova Friburgo cobra apenas pela incineração, que custa em média R$ 900.

Deixe o seu comentário