São Pedro da Serra por João Carlos Leal, da Pousada Canteiros

sábado, 29 de junho de 2019
por Jornal A Voz da Serra
São Pedro da Serra (Foto: Regina Lo Bianco)
São Pedro da Serra (Foto: Regina Lo Bianco)

“Eu, João Carlos Leal, 58, jornalista, minha mulher, Elaine Souza, 51, bancária, e meu filho Lucas, 18, aluno do Cefet de Nova Friburgo, nos mudamos para São Pedro da Serra no fim de 2003. Demos a "sorte" de perder nossos empregos quase ao mesmo tempo. O que tornou mais fácil decidir içar âncora, vender tudo e tentar a sorte em São Pedro - e realizar o sonho de uma vida mais tranquila no interior. 

Alugamos uma casa durante o primeiro ano na vila e, enquanto procurávamos um lugar ideal para montar uma pequena pousadinha que pudéssemos cuidar sem necessidade de empregados, eu comecei a editar um jornal comunitário (o Correio da Serra, que circulou em Lumiar e São Pedro, entre 2003 e 2011) e junto com Elaine, montamos uma papelaria. Em junho de 2005, inauguramos a Pousada Canteiros. Bem a tempo de atender a procura pela Tradicional Festa de São Pedro. 

Hoje, quase 16 anos depois de nos mudarmos, não temos nenhum arrependimento. A vida na vila é uma delícia e o turismo continua sendo um excelente negócio para essa parte de Nova Friburgo. Não é coisa para ficar rico. Mas essa também nunca foi a nossa proposta. Queríamos um lugar bom para criar nosso filho, que chegou aqui com dois anos, e conseguir nos manter com conforto. 

A festa

Quando chegamos a São Pedro, a Festa - assim mesmo, com letra maiúscula - era considerado o maior evento comunitário do gênero no interior do Estado do Rio. Tinha festa maior, claro. Mas organizada por prefeituras, com verbas públicas e patrocínios graúdos. A Tradicional Festa de São Pedro, que completa 154 anos no próximo dia 29, nunca teve nada disso. Ainda assim, a procura por ela era tão grande que lotava todas as pousadas de São Pedro, as de Lumiar e ainda se influenciava a taxa de ocupação de hotéis em Mury. 

O valor da diária durante a festa era o mais alto de todo o ano, superando as diárias cobradas no Réveillon, Carnaval e Páscoa. E não eram apenas as pousadas que ganhavam com a festa. Vários moradores alugavam quartos, ou as vezes as próprias casas, para ganhar em três dias (sexta a domingo) o que não recebiam em dois meses.

Mas as crescentes exigências e taxas (Bombeiros, Ecad, Energisa e secretarias municipais) foram tornando inviável continuar fazendo a festa por puro amor, na base de voluntários, que precisavam largar seus trabalhos e negócios para obter as licenças e, depois, ainda passar as noites da festa em claro, cuidando para que os frequentadores não causassem muitos danos à vila. 

A comissão de fiéis da capela, que sempre esteve à frente do evento, não aguentou e, em 2008, desistiu e passou o ‘abacaxi’ para a Associação de Moradores e Amigos de São Pedro da Serra, Amasps. A diretoria da Amasps ficou com a responsabilidade durante seis anos, até que percebeu que era tanto trabalho, tanta burocracia, tanto custo e tão pouco apoio do poder público que passava quase meio ano voltada para um único evento ao invés de cuidar dos problemas da comunidade (saúde, segurança, transporte etc.). E a festa foi devolvida à igreja.

A comissão da capela aceitou a responsabilidade, mas para fazer as coisas em moldes diferentes. Quis ‘pisar no freio’ como se falou na época. Reduzir o número de barracas, proibir a venda de bebidas alcóolicas e excluir shows que tivessem músicas de duplo sentido, apelativas etc. E foi cortando aqui e ali, até que no ano passado, o evento ficou limitado ao entorno da histórica capelinha de São Pedro (a mais antiga de Nova Friburgo e região).  

Este ano, para que não se repetisse a edição minguada de 2018, outra associação da vila, a Associação do Comércio e da Indústria de São Pedro da Serra, Acisps, pediu autorização à Amasps e ao padre da paróquia local (que tem base em Lumiar) para negociar uma maneira de "terceirizar" a festa. 

A Acisps defende a ideia de que nenhuma das entidades locais têm condições de enfrentar o nível de burocracia para liberar uma festa, nem de cuidar da produção propriamente dita. E que era preciso passar esse trabalho para uma empresa de eventos que topasse realizar o festejo dentro de parâmetros que garantissem segurança, saúde e limpeza da vila antes, durante e depois da festa. A empresa convidada, a Teia de Eventos, topou e está fazendo uma primeira experiência. Torcemos para dar certo.”

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