Maurício Siaines (*)
A execução do sequestrador Sérgio Ferreira Pinto Junior, de 24 anos e duas passagens pela polícia, na rua Pereira Nunes, na Tijuca, Rio de Janeiro, na sexta-feira, 25 de setembro, teve ares de espetáculo. As imagens do momento em que Sérgio foi atingido e seu boné arrancado foram exibidas à exaustão pela TV e circulam na internet.
A comoção popular é algo que precisa ser estudado com cuidado. No Rio atual, pode-se falar em uma mistura de pânico e ódio suscitada pelas ações de criminosos nos últimos anos. Mistura esta que gera reações como o aplauso à PM depois da execução do sequestrador que mantinha sob seu domínio a dona da farmácia, Ana Cristina. O que se manifestava naquele aplauso? O desejo de desforra? O alívio? Seja o que for que componha essa mistura de emoções, está longe do que se pode chamar de justiça.
No dia seguinte ao acontecido, o jornal O Globo publicou 13 cartas de leitores, 12 delas aplaudindo de maneira entusiasmada a PM pela execução do criminoso. Não está aqui em discussão se foi ou não acertada a decisão do tenente-coronel Fernando Príncipe, que autorizou o atirador de precisão, major João Busnello a agir.
Pelo menos duas experiências anteriores sugerem que era o que a PM tinha mesmo de fazer, em defesa da vítima do sequestro. Uma delas foi o caso do ônibus 174, também na cidade do Rio de janeiro, no dia 12 de Junho de 2000, quando Sandro Barbosa do Nascimento manteve os passageiros de um ônibus como reféns durante quase cinco horas, resultando na morte de uma passageira e do próprio sequestrador. A outra história foi a da estudante Eloá Pimentel, de 15 anos, que ficou refém do ex-namorado, Lindembergue Fernandes Alves, de 22 anos, por mais de cem horas, em Santo André (SP), entre 13 e 17 de outubro de 2008, e terminou baleada e morta.
Dois dias antes da execução de Sérgio Ferreira, na Tijuca, as primeiras páginas dos jornais apareceram com a estranha notícia de que o governador de Mato Grosso do Sul, André Puccineli (PMDB) ameaçava o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, de estuprá-lo em praça pública caso ele fosse a seu estado. E o assustador é que o homem que pretendia ser sujeito de tal ação foi eleito e não indicado por algum poder ditatorial. Foram dados a ele, nas eleições de 2006, 726.806 votos, o que corresponde a 61,33 % do eleitorado do estado. O segundo lugar foi de Delcídio Amaral, do PT, com 450.747 votos, 38,03 % dos votos válidos. A preferência por Puccineli foi inquestionável. Qual terá sido o aspecto de sua personalidade que o então candidato eleito apresentou aos seus mais de 700 mil eleitores, que com ele se identificaram?
Pois a frase do governador de MS – de que ele depois se retratou, o que não quer dizer que a declaração tenha desacontecido – sugere que ele seja um homem que preza o estupro, vê nele manifestação de força e de autoridade. Que, através do estupro em praça pública, estaria desmoralizando um desafeto político. Nos tempos da ditadura, muitos estupros aconteceram nos porões do regime e certamente havia de parte de seus sujeitos a intenção de humilhar a pessoa estuprada, de mostrar-lhe o quanto ela estava à mercê de seus captores.
Isto dá para fazer algumas reflexões. O que é o desejo de um estuprador, como ele se constitui, o que esse desejo representa da relação desse indivíduo com o outro? Que atribuição de funções o estuprador – de fato ou potencial – atribui a partes do próprio corpo? Por quantas pessoas em nosso país – e não apenas em Mato Grosso do Sul – o estupro seria tolerado, aceito como algo compreensível, quase normal?
O posicionamento do governador André Puccineli revela uma subjetividade tão afeita à violência quanto as dos criminosos comuns. Alguns desses, digamos, eventos subjetivos podem ser explicados, pelos menos em parte, pela psicologia e pela psiquiatria, mas existe uma inclinação à violência entranhada nos indivíduos, que parece favorecida por condições culturais, e é preciso entender o que é este fenômeno. A violência não é caso somente de polícia, e aplaudir ou condenar ações da polícia em nada contribui para mudar as coisas. É preciso compreender a violência nas suas diversas manifestações e descobrir suas raízes, como único meio de superá-la. Mas parece que essas raízes vão mais fundo na alma social do que se imagina, gerando indivíduos capazes de ações bárbaras como essas que vemos todos os dias nos jornais.
(*) Jornalista

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