Preconceito racial de marca e de origem

Por Valfredo Melo e Souza
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
por Jornal A Voz da Serra

Sugestões do professor e sociólogo Oracy Nogueira nos levam a uma definição de preconceito racial como sendo uma atitude desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui; os traços físicos, os gestos, o sotaque, diz-se que é preconceito racial de marca. Quando o indivíduo descende de certo grupo étnico para que sofra as “sanções” consequentes do preconceito, diz-se que é de origem (basta a suposição, a exclusão e independe de condições econômicas ou se é PhD).

Em vasta bibliografia o autor desfila as diversas diferenças que se interpõem entre eles conforme o grupo discriminador e o discriminado. Um fato recente lá fora: a Ku Klux Kan, dois meses atrás, queimou crucifixos em praça pública na Carolina do Sul e ratificou seu juramento racista. Racismo republicano embutido que derrotou Barak Obama na Câmara dos Deputados em pleito recente.

Um fato local: o Conselho Nacional de Educação aprovou parecer aconselhando o banimento de uma obra de Monteiro Lobato nas escolas do DF (Parecer 1512010). Trata-se do livro Caçadas de Pedrinho, onde se registra uma referência preconceituosa à Tia Anastácia, considerada um “estereótipo racial”. Eis o polêmico trecho: “Sim, era o único jeito e Tia Anastácia esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima”.

Nota-se então como são os preconceitos, surgimento e construção, mas como se expande e se amplifica a atitude, está revelado neste ato. Tia Anastácia é a “deusa” criadora de gerações infantis deste Brasil. A obra de Lobato, motivo de orgulho da cultura nacional. Tem-se de combater todos os racismos, mesmo quando eles se disfarçam, em “defesa” da própria “raça”. Hipocrisia racial. Racismo dissimulado, meio acanhado.

No Censo Nacional 2010, salta um diálogo curioso. O recenseador perguntava a um cidadão, antigo lavrador, gente da terra, trazido pela transumância para a metrópole:

— Qual a sua cor? .

O velho lavrador, meio filosofando, explica que o avô paterno era português, 1,97m de altura, branco (quase albino), olhos verdes claros; a avó, uma índia tapuia, aculturada, 1.50m de altura. O avô materno, de origem judia; a avó, mestiça. O pai, como na música de Luiz Gonzaga, “ninguém sabe se ele é branco, se é mulato ou negro”. Por obra e graça do tabelião, na Certidão de Nascimento, consta cor branca!

Com tanta “filosofia”, o entrevistado pediu carinhosamente ao Agente se podia deixar este item em branco. Imediatamente o homem do Censo registra: “cor branca” e segue com o questionário.

E eu pensei: Com tanta tecnologia vem um belo resultado de Censo Nacional por aí. Esperemos. E olhe que hoje (8 Nov 2010) tem muita gente de “pura raça” e de alto “grau de intelectualidade” (para os preconceituosos raciais de origem) se recusando a responder ao chamamento.

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