Pouco tempo, muita coisa

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
por Jornal A Voz da Serra

Wllysses d’Ávila—visite o blog http://www.pessoal-intransferivel.blogspot.com

Para mim, ano novo é uma oportunidade de renovação. Sempre encarei a data com um sentido espiritual muito forte. Pode parecer tolice para alguns, mas, na vida de todas as pessoas é necessário fechar para balanço em algum momento, e o meu é esse. Quando eu era criança achava que se você quisesse incorporar alguma coisa na sua vida, deveria fazê-lo logo nos primeiros dias do ano para dar certo, não sei explicar essa crença, mas acho que ilustra bem o misticismo que essa data possui para mim.

Uma amiga uma vez me falou uma coisa que acabou se revelando grande verdade: “Um ano é pouco tempo, mas acontece muita coisa”. Sem dúvida que quando empreendemos alguma coisa, não nos assustamos com esse período de tempo, um curso de um ano, um ano no exterior, um ano de noivado, construção da casa em um ano, e por aí vai. Definitivamente não é nenhuma eternidade, olhando por esse lado, 365 dias é pouco tempo.

Foi então que eu ganhei um celular desses bem modernos, que ficam on-line o dia todo, e um aplicativo chamado “galeria” me assombrou. Cliquei no ícone, e estavam ali absolutamente todas as fotos que um dia eu postei na internet, faço isso há mais ou menos 10 anos. Não sei que espécie de bruxaria foi essa, também não sei se gostei dessa possibilidade, pois me senti monitorado. Oras, um aparelho que acabou de sair da loja já tinha toda minha vida on-line dentro dele. Será que um aparelho do FBI veio parar em minhas mãos? Se for assim, minha vida corre risco? Se eu sumir vocês já sabem.

Paranoias à parte, olhando aqueles álbuns eu tive a mais completa noção de tempo da minha vida. Estava ali um cronograma de acontecimentos gritando para mim “o tempo não para”. Fiquei perplexo com aquelas imagens e pensando como as mudanças ocorrem independentemente da nossa vontade. Uma absoluta falta de controle sobre as ocorrências e a constatação de que o futuro é uma incerteza, e diante dele só existe dois caminhos: o medo ou a fé.

Não quero que ninguém se torne religioso, longe de mim—substitua a palavra fé por esperança se achar mais oportuno. Mas, voltando às fotos, bom, estavam ali abraços que eu não daria mais, amizades que não foram em frente, sorrisos que se frustraram no momento seguinte, mas também, derrotas que se transformaram em volta por cima, dores que cederam espaço à superação e encontros casuais que se transformaram em amor.

Aquelas pessoas ali, circulando pela minha vida, e nossos destinos tão incertos. Apesar do caos dos acontecimentos, os fatos estavam organizados em álbuns, que se dividam por anos. Uma bagunça arrumada.

Um casamento que movimentou meio mundo e que já acabou, uma criança que já é pai, uma turma de formandos que nunca mais se encontrou, gente que morreu, gente que se afastou, gente que surgiu. Se fosse feito um filme de cada ano a crítica diria que o roteiro era sem sentido, sensacionalista, incoerente, apelativo, clichê e vulgar, seguido do comentário: “Arrastado com poucos acontecimentos relevantes”.

E 2001, que resenha teria? “Filme catástrofe, mistura drama, justiça e questões ambientais, mas o final é frustrante.” Seria assim mesmo? Revi aquele álbum de fotos para avaliar melhor o período. Encontrei ali as fotos da formatura de primeiro grau da minha irmã, primeira conquista, e se Deus quiser de muitas, na vida de uma pessoa que eu verdadeiramente amo, apesar de tudo já me valeu o ano. Se dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, dois sentimentos podem ser sentidos por um mesmo ano.

Se o ano que passou foi marcado por grandes tristezas, principalmente para os moradores da região serrana do Rio, havia ali para mim, nesse período, uma grande felicidade também. Não queria me despedir com saldo negativo, e foi bom olhar para trás, acabei encontrando razões que fizeram as dificuldades valerem a pena. E mesmo que você não tenha um celular do serviço secreto, procure nas redes sociais, ou mesmo só na sua lembrança uma boa razão.

Um ano é pouco tempo, mas acontece muita coisa, boas e ruins, e mesmo que a vida seja essa grande incerteza, tão certo quanto os obstáculos que virão são também as boas surpresas, porque sim, elas sempre virão, pesquise e você vai me dar razão, muitas ou poucas, grandes ou pequenas, as alegrias também são certas.

O problema é que às vezes lembramos mais do carro que bateu do que da tia que venceu um câncer, dedicamos mais nossa atenção à televisão que queimou do que ao nascimento do sobrinho. A memória parece que gosta de sofrer.

Mas vamos olhar a vida com franqueza, é um mistério para todo mundo, os álbuns de fotos estão aí para confirmar isso. Essa angústia também pode ser o lado bom da vida, a força que nos move, mas é preciso encarar com fé ou esperança, ou com os dois de preferência, se o ano que começa com certeza trará algumas tristezas, com certeza também trará alegrias, e quem sabe dessa vez muito mais alegria que tristeza. Lancem os dados, rolem as roletas, cruzes os dedos, o ano começou, a sorte está lançada.

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