Laercio Rangel Ventura: todas as homenagens registradas em nossos corações
A Câmara Municipal de Nova Friburgo aprovou projeto de Lei proposto pelo vereador Joelson do Pote, dando o nome do jornalista Laercio Rangel Ventura ao Teatro Municipal de Nova Friburgo.
Nestes pouco mais de 40 dias do seu falecimento, incontáveis e justas homenagens foram prestadas. Todas atingiram o objetivo, emocionando e enchendo de orgulho seus amigos e familiares pelo reconhecimento da efetiva participação de Laercio, de forma direta ou indireta, em sua trajetória de vida, dos incontáveis feitos produzidos por diversos segmentos artísticos e culturais.
Poucas vezes se viram tantas coroas de flores, e-mails e telegramas de congratulações para uma personalidade, em Nova Friburgo. As homenagens ultrapassaram nossas fronteiras: assistimos, comovidos, o “minuto de silêncio” no Engenhão, no clássico do seu Fluminense com o Vasco, no campeonato estadual. Sem falar nos destaques em sites de notícias de âmbito nacional, como o G1. Da mesma forma e intensidade de carinho, inúmeros humildes moradores e leitores procuraram os familiares naquele momento de dor para passar uma mensagem de conforto, relatando gestos de grandeza do Laercio.
No entanto, esta homenagem em particular merece uma reflexão para extrairmos ensinamentos do quanto o friburguense tem dificuldade de virar a página dos seus problemas. O prévio e paralelo debate travado pelos “defensores” da cultura de Nova Friburgo em redes sociais e blogs de todos os tipos provoca desnecessário e injusto desconforto a todos aqueles que admiram Laercio, por levantarem a bandeira de que o projeto não deveria ser aprovado.
Para quem o conhecia, de fato, por certo entendem que o mesmo estaria torcendo o nariz, bem ao seu jeito, para o episódio. Laercio preferia os bastidores aos holofotes. Era avesso à badalação de seu nome para ficar na frente do que quer que seja. Construía sem destruir. Alinhavava, contornava, enfrentava. Sempre de maneira franca.
Da mesma forma é importante não deixar dúvidas de que a família Ventura jamais pleiteou qualquer tipo de homenagem para ele. Jamais foi levantada qualquer possibilidade ou mesmo existido qualquer sugestão nesse sentido.
Destaque-se, ainda, que Laercio foi sempre um viabilizador e entusiasta da preservação e registro da nossa cultura, que em linhas gerais significa cultivar, sendo genericamente todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, o moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo homem não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade como membro dela que é.
Laercio, sempre e sem qualquer discriminação, apoiou direta e ativamente todos os eventos culturais aqui ocorridos. Deixou sempre abertas, e assim permanecerão, as portas do seu jornal para todas as manifestações culturais. Não há notícia de uma peça teatral apresentada em nossas terras que não tenha contado com o seu apoio e participação direta.
Aos que desconhecem, vale destacar que os laços dele com o teatro são de berço. A família Ventura sempre esteve intimamente ligada ao teatro. Seu pai, Américo Ventura Filho, fundador do jornal A Voz da Serra, atuou em diversas peças teatrais montadas em Nova Friburgo. Da mesma forma, a sua tia Dilma tocava piano nas sessões de cinema, ao tempo do “cinema mudo”. O “tio Manoel Ventura” foi um cinegrafista de mão cheia, talvez o primeiro e por certo o melhor de nossa terra, assim como hoje, José Antônio Ventura, irmão de Zuenir Ventura, é um prestigiado cinegrafista, em atividade desde o movimento do cinema novo. Tivemos ainda o Ariosaldo, como ator, e nas gerações seguintes surgiram Gilse, Marise, Rodrigo e Teleco, todos orgulhosamente Ventura, e coroando essa “família de artistas”, importante citar a renomada pianista Fernanda Ventura Canaud.
Assim sendo, muito nos chocou o tempo perdido com o tema e as críticas que soaram como desrespeito não só à figura do Laercio, mas notadamente às instituições que parecem ter extrapolado os limites de suas respectivas competências.
Indiscutível a competência dos vereadores para legislar sobre o tema, cabendo única e exclusivamente aos mesmos a função de apresentar projetos de nomes de logradouros, obras e serviços e monumentos públicos e, da mesma forma, votar contra ou a favor de projetos apresentados por seus pares, mas sempre de acordo com suas respectivas convicções pessoais.
A tal propósito, há necessidade de os projetos cumprirem o que determina a Lei Federal 6454, de 24/10/77, que proíbe terminantemente, em todo território nacional, atribuir nome de pessoa viva a bem público, de qualquer natureza, pertencente à União ou às pessoas jurídicas da administração indireta.
Desta forma, inoportuno neste momento voltar a discutir ou considerar o motivo do Teatro de Nova Friburgo estar sem nome até hoje por força da anulação da homenagem prestada ao dramaturgo Ariano Suassuna. Sem lógica a crítica ao nobre vereador Joelson do Pote, por cumprir fielmente suas obrigações quando assumiu o cargo de vereador. Da mesma forma, não cabe sugestões alternativas de nomes de pessoas vivas, por ilegal, e, muito menos, discutir se seria melhor este ou aquele nome por ter ou não pisado como artista em um palco.
A este propósito, será que o jornalista Mário Filho alguma vez jogou futebol para ser homenageado e eternizado com o nome do maior estádio de futebol do mundo? Da mesma forma, teria Tom Jobim assumido o comando de alguma aeronave para justificar a homenagem do batismo do seu nome ao antigo aeroporto internacional do Galeão? Diversos outros exemplos poderiam ser dados para jogar por terra argumentos vazios levantados para, de forma inoportuna, fazer a crítica vazia a tudo que aqui é proposto e realizado.
Nova Friburgo precisa se transformar, focar nos objetivos futuros para conseguir vencer os grandes obstáculos que precisa enfrentar. Aproveitando que a “cultura” é também um mecanismo cumulativo porque as modificações trazidas por uma geração passam à geração seguinte, se transformando, perdendo e incorporando outros aspectos, procurando assim melhorar a vivência das novas gerações. Portanto, é necessário aprendermos com os episódios, virar páginas e seguir em frente.
Precisamos que cada um fique atento às suas obrigações e competências. Que o Conselho de Cultura de Nova Friburgo cumpra seu papel, estando atento e vigilante ao que lhe cabe. Buscar modernidade nas legislações para viabilizar apoio financeiro à cultura; fiscalizar, denunciar abusos e irregularidades; propor ideias construtivas, inovadoras, para sairmos da mesmice em que nos encontramos. Da mesma forma, precisamos de uma Câmara Municipal atuante, que não perca tempo com questões menores, pois há muito a fazer e, como dizia o poeta Cazuza, “o tempo não para”.
Nesta linha, sentimos-nos abraçados com a aprovação do projeto na Câmara Municipal, mas desconfortáveis com a forma como o nome de Laercio foi exposto. Respeitamos a opinião dos que se manifestaram contrários, mesmo que com o discurso de donos da verdade, da cultura e do teatro.
Entendemos que não cabe aos vereadores buscarem conselhos para determinar seus votos; que não cabe ao Conselho de Cultura definir nome de teatro; não cabe, por coerência, manifestação, contrária ou a favor, ao recebimento ou aprovação de tal homenagem, por parte da família Ventura.
Assim, todas as homenagens estão registradas em nossos corações, sendo certo que a inclusão do nome do jornalista Laercio Rangel Ventura na porta daquele teatro não aumentará ou diminuirá a importância do mesmo para nós e para a arte e cultura de Nova Friburgo.
Ficamos no aguardo do desfecho natural do curso processual, que segue para sanção do prefeito Rogério Cabral no uso de suas atribuições e competência.
Antônio Wilson Ventura Lugon

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