Pesos e medidas

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
por Jornal A Voz da Serra

Wllysses d’Ávila—visite o blog www.pessoal-intransferivel.blogspot.com

Uma pessoa carente é necessariamente uma pessoa chata. Na verdade todo mundo é carente, não conheço ninguém que tenha nascido em uma família de propaganda de margarina. Então, “problemático” não é desculpa para assumir uma postura inconveniente, pois na verdade todo mundo de certa forma o é. Mas enquanto alguns saem pelo mundo fazendo a roda girar com suas insanidades, provinda de uma vida deliciosamente desequilibrada, outros ficam sentindo pena de si e ocupando as outras pessoas, ou as importunando.

Minha analista uma vez me falou uma metáfora fantástica; todos temos um enorme buraco no peito, que ocupa praticamente todo tórax, decorrente de nossas carências, traumas, frustrações e inseguranças; e é muito injusto esperar que alguém preencha todo esse vazio, uma tarefa quase impossível, uma empreitada faraônica que delegamos cruelmente aos que decidiram nos amar. Em vez de agradecermos e retribuirmos o amor que recebemos, exigimos que o ser amado dê conta de aterrar todo vazio que os percalços da vida causaram em nós. Totalmente injusto.

A tirania com o amor se estende pela vida, a criança que aprende que chorando escraviza toda a família, o namorado inseguro que afasta os amigos da namorada com crises de ciúme, o chefe incompetente que sobrecarrega os melhores funcionários esperando ansiosamente por uma falha, e por ai vai. Gente chata dedicando a vida a atormentar aqueles que, nem se sabe por que, os ama.

Pessoas tão egoístas que acreditam que são as únicas que sofrem, e são capazes de sentir ciúmes da tragédia alheia. Conheço gente que se ressente da doença do outro, se essa for mais complexa e grave que a sua. Já vi duas pessoas discutindo coisas do tipo: “mas eu nem posso andar sozinha pela rua, e tomo mais de cinco comprimidos diários” e a outra respondia “isso não é nada, pior eu que fiquei de cama quase três meses e agora tomo uma injeção semanal que custa quase meio salário cada uma”. Tem cabimento uma disputa dessas? Pior é que às vezes você ainda tem que levar um para casa. Troféu carma pesado.

Há também aqueles que não se equilibram para não ter que tomar atitude: “Se eu assumir que não admito ser traída vou ter que me separar”, “Se eu ficar independente vou ter que sair da casa da mamãe e encarar um aluguel”, “Se eu ficar saudável não vou ter mais atenção das pessoas nem assunto”. Uma coisa horrorosa, comportamentos cercados de desculpas incoerentes, autopiedade, e tolerância exacerbada com as próprias atitudes, com efeitos colaterais que incomodam a todos nós, com choro, tristeza, amargura, mau humor; como no caso daquela pessoa que vive de cara amarrada e criticando todo mundo, essa com certeza faz parte desse time.

A forma de encarar as coisas é que nos leva para esse tipo de vida ou para um outro muito mais interessante, focado no sorriso, na gentileza, na superação e na delicadeza com o lidar com o outro. Como dizia o poeta, a tristeza é uma forma de egoísmo. Pessoas chatas e pesadas não estão incomodadas com os outros, pois se estivessem mudariam. Os mal-humorados são incômodos, difíceis de conviver, sufocantes, e só não ouvem essas verdades constantemente porque as outras pessoas, as mais leves, são delicadas demais para magoar alguém, por mais que esse alguém mereça. Geralmente os “pesados” só entram em atritos com outros “pesados”, que querem todo dó do mundo só para si mesmos.

Provavelmente você identificou alguém nessas palavras, ou mesmo se identificou. Normal. Na verdade, não existe uma cisão radical entre estes dois tipos de pessoas. Somos dos dois tipos em momentos diferentes do dia. O que difere é em qual papel passamos mais tempo, no qual ficamos mais à vontade e com o qual conduzimos nossa vida. Ser pesado ou leve é uma escolha que fazemos segundo após segundo. Perceba com franqueza que atitude você mais exerce e descubra se você é um chato.

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