Eu a espio, mas nem sei bem quem ela é. Ela conhece quase todos os meus pensamentos, sabe de todas as coisas de minha alma e coração, mas também não me conhece bem.
Temo que ela me pinte como um santo desses exagerados que fazem tudo que alguém espera. Eu espero, mas peço a ela que não espere que eu atire pedras na sua janela para exibir flores roubadas. Posso sim ilustrar o céu de estrelas e abrir meu caderno de anotações para dizer a ela que sou rascunho que a espera para ser texto publicado.
Eu nem a conheço, mas sei que ela tem graça e sensibilidade. Eu nunca a vi, mas presumo que seja romântica e envolvente. Interessante conhecer tão bem alguém sem nunca tê-la visto! Eu quero vê-la, mesmo que saiba que já estou de alma despida para ela. O que ela não sabe é que também guardo segredos ainda que não exista roupa que me esconda.
Tenho minhas manias e defeitos. Tenho minhas confusões e medos. Há dias em que ouço a mesma música o dia inteiro. Há outros que não ouço música alguma, ainda que coloque dezenas de músicas para os outros ouvirem. Fujo do egoísmo que me atormenta. Corro para os braços dos amores platônicos que nunca me magoam ainda que me rasguem com voracidade o peito. O que escrevi ontem nem sempre lembro e, por vezes, até suspeito que não fui eu que escrevi. Mas o que digo fica a me perturbar e sei que sou o único culpado pelo resultado de minhas tragédias. Não imputo aos outros minhas mazelas. A sorte ou azar que tive e tenho é fruto exclusivo de minha percepção.
Quero te conhecer ao mesmo tempo em que me pergunto se devo ousar... Importunar aquela que espio e me conhece...
Que flores ela prefere? Será que ela gosta de flores? Será que ela já viu meu filme predileto? Será que ela lê Nicholas Sparks? Devo-lhe enviar a música que ouço enquanto me revelo? Rio disso tudo e retorno ao tempo em que me perdi de mim mesmo. Lembranças que vivem a me chamar e que tento fazer delas motivos para escrevê-las de novas formas com outros personagens. Mas será que dessa vez posso proteger melhor meus personagens? Será que tenho capacidade para deixá-los virem aos meus braços como deve ser?
Afinal, quais são suas manias e defeitos? Será que posso te conhecer ou é melhor te manter sob a doce proteção do desconhecimento? Será que devo te achar ou será que não devo te procurar?
Os mesmos bytes que nos aproximam nos distanciam às milhas e milhas que nos separam. Somos, afinal, desconhecidos conhecidos que se conhecem aos se desconhecer.
Talvez eu ainda seja folha presa ao galho da velha árvore que me impede a liberdade de voar dessa para outra cidade, onde imagino que você está. Por que você se fez tão linda?
E, assim, nesse mundo de insanidades, só posso ter fé (sim, fé é a palavra mais apropriada, pois a fé vence a ilusão) que os iguais estão se procurando para se juntar e viver o mesmo sonho juntos. Sonho, antes, no entanto, que possa compartilhar dessa fé com a minha conhecida desconhecida.
Não sei onde ela mora. Pouco sei acerca do que ela faz. Só sei seu nome com um punhado de boas imaginações. Claro que não sei também que lugares ela habita enquanto a procuro nas noites iluminadas pela lua cheia.
Na verdade, agora, você já deve estar dormindo... Na paz de seus sonhos digo bem baixinho para não te acordar: boa noite!
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