A outra crise

terça-feira, 29 de março de 2016
por Jornal A Voz da Serra
(Foto: Flickr)
(Foto: Flickr)

O BRASIL VIVE hoje os tombos da má governança, da corrupção e da crise econômica que reduz o desemprego, aumenta a inflação e cria um cenário de incertezas para os próximos anos. Como não bastasse esses péssimos indicadores, aliados à constante carência de infraestrutura na saúde e na segurança, a educação nacional enfrenta um de seus piores momentos.

NAS ESCOLAS públicas do Brasil, 200.816 professores dão aulas em disciplinas nas quais não são formados, isso equivale a 38,7% do total de 518.313 professores na rede. Os dados estão no Censo Escolar de 2015 e foram divulgados esta semana pelo Ministério da Educação. Em alguns casos, um mesmo professor dá aula em mais de uma disciplina para a qual não tem formação, com isso, o número daqueles que dão aula com formação inadequada sobre para 374.829, o que equivale a 52,8% do total de 709.546 posições ocupadas por professores.

A FALTA DE formação adequada atinge também duas disciplinas chave para formação dos estudantes: matemática e português. Em matemática, por exemplo, 73.251 do total de 142.749 docentes não tem a formação específica para lecionar a disciplina, ou seja, 51,3%. Em língua portuguesa, do total de 161.568 professores em exercício, 67.886 não têm licenciatura em português, o equivalente a 42%.

PORTUGUÊS e matemática são as disciplinas cobradas em avaliações nacionais como a Prova Brasil e internacionais, como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), e são usadas para medir a qualidade da educação. Matemática e português são as duas pernas para o estudante caminhar na educação. Sem essas duas ferramentas não tem como prosseguir, avaliam os educadores.

SE A FORMAÇÃO dos professores é um problema, a situação dos alunos é pior. Os dados do Censo Escolar de 2015 mostram que as matrículas diminuíram em todas as etapas de ensino, menos na creche. Os números refletem a queda da população, em geral, que tem reduzido entre crianças e jovens, mas refletem também desafios para o sistema educacional. São pelo menos três milhões de crianças e jovens de 4 a 17 anos fora das salas de aula, e que, por lei, deverão ser incluídos até este ano.

A CRISE ORÇAMENTÁRIA pela qual passam tanto a União, quanto estados e municípios, impacta a educação, não só na redução das matrículas, mas na dificuldade de expansão. Ao invés de estarmos diminuindo ou patinando, precisaríamos aumentar o número de matrículas. Enquanto no ensino médio, a falta de atratividade, a busca por trabalho, a gravidez precoce fazem com que estudantes abandonem os estudos, no ensino infantil faltam salas de aula para incluir todas as crianças.

VALORIZAÇÃO é a palavra que não cabe no dicionário do professor. Em todas as cidades, é consenso a decepção da categoria com os rumos da educação, vitimada por todos os lados, inclusive em sua integridade física. Desenvolver este fundamental contingente de profissionais, promovendo seu aperfeiçoamento e pagando-lhes salários dignos é o desafio imediato para quem quer formar gerações de cérebros no futuro.

O INVESTIMENTO na educação não é um problema do governo tão somente. E muito menos motivo de barganha política e ambição eleitoral. Seu objetivo proporcionará dias melhores para as novas gerações, provavelmente erradicando a pobreza no país. Mas até lá temos um longo caminho a percorrer. Se todos nós temos a certeza que a educação é a salvação, então que se comece agora o preparativo para a grande mudança. O futuro está na sala de aula hoje, com o professor e os alunos.

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