MUDAMOS, PERO NO MUCHO...
A coluna desta semana está grande. Orgulho para nossas mães, que vão poder colocar uma página linda nas pastinhas de fã. Bom, a coluna mudou, mas não muito, porque somos meio preguiçosos. Agora cada um tem seu espaço fixo. O Léo só sabe falar de esportes, então vai falar sobre esportes. A Priscilla, um talento, vai fazer crônicas. O João, xiita musical, ficou com o “Ler, Ver e Ouvir”, e a Amine ficou com o “Lembra disso?”, pra você se sentir velho. Sugestões e críticas podem ser enviadas para osfocas@avozdaserra.com.br, mas talvez a gente não leia.
Velozes e Furiosos
Priscilla Franco
De maneira geral, eu adoro o friburguense. Menos quando saio da Getúlio Vargas e cruzo a Alberto Braune às seis horas da tarde, voltando para casa. Saindo do trabalho a pé, me sinto entrando em um campo de batalha quando insisto em passar em frente ao antigo fórum, em vez de atravessar a rua e fazer o caminho pela praça. Talvez pela largura das calçadas, maiores do que o comum em outros bairros, a sensação é a de que os transeuntes sentem necessidade em ocupar todo o espaço quando andam pelo centro.
Não sou tão baixinha que justifique passar despercebida. Mas juro ser um fantasma quando vou de encontro àquela família que decidiu andar, os quatro, de mãos dadas no contrafluxo. Percebendo as pessoas que vêm andando atrás de mim, me preparo para o esmagamento. É quando o garotinho da ponta solta a mão da mamãe, faz cara feia e desvia, cedendo uns 10 centímetros para que eu possa seguir meu caminho. Nem dá tempo de respirar aliviada, só percebo o vulto, e alguém com um pouco mais de pressa se aproveita da brecha para tomar a dianteira.
Sou competitiva e me enfureci com a atitude. Acelero o passo disposta a retribuir o empurrão. Desanimo quando esbarro em outra pessoa que caminhava à minha frente, e resolveu parar para cumprimentar um conhecido. Aliás, é impressionante a quantidade de conhecidos encontrados todos os dias na Alberto Braune. Seria um recorde se contabilizassem as horas de novidades contadas, fofocas fresquinhas, notícias de última hora. E daí me pergunto o porquê de haverem instalado banquinhos no decorrer da avenida. Parece tão mais interessante conversar no meio do caminho!
Eu sei que pode ser muito saudável fazer uma caminhada a pé. Mas alguns fumantes insistem em tornar a ida para casa insalubre, dividindo comigo a fumaça do cigarro. Mesmo assim, diminuindo o passo para não atropelar as moças que conferem vitrines, tropeçando em alguém que resolveu descarregar um caminhão bem no horário do rush, olho para o céu e agradeço: o tempo está seco.
Já que não adiantaria tentar criar um código de trânsito para pedestres, e me falte um caminho alternativo para fugir do tumulto, se algum dia você encontrar por aí um cartaz com esses dizeres, pode me atribuir a autoria: “Feche o guarda-chuva! Debaixo da marquise não chove!”
E a história novamente se repete
Leonardo Lima
Ronaldinho Gaúcho teve um saldo positivo em sua passagem pelo Flamengo? De acordo com uma pesquisa feita recentemente pela TV Globo, a resposta é não. E essa pesquisa vai ainda mais além: a maior parte dos torcedores dos 20 clubes que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro não gostariam de ver o (ex-) craque defendendo as cores do seu time. Não bastassem as contestadas atuações dentro de campo, o dentuço promete deixar a diretoria rubro-negra ainda mais arrependida de sua contratação. Junto ao seu irmão e empresário Roberto Assis, Ronaldinho cobra, na justiça, R$ 40 milhões de reais do Flamengo.
Na espera do desenrolar de novos capítulos dessa briga, os flamenguistas lamentam mais um jogador que muito prometia dar ao clube e acabou saindo pela porta dos fundos. Em 2000, sob o comando do então presidente Edmundo Santos Silva, o Rubro-Negro fechou um obscuro acordo com a empresa ISL, que jorrou dinheiro no clube. Consequentemente, grandes nomes foram contratados e o status de melhor time do Brasil foi inevitável. No entanto, a equipe não rendeu o esperado e foi eliminada na primeira fase da Copa João Havelange—vencida pelo arquirrival Vasco. Nem alguns dos mais fanáticos torcedores se recordam de Denílson e Alex, dois dos jogadores mais badalados daquele time, atuando sob o manto vermelho e preto.
Cinco anos antes, mais precisamente em 1995, o Flamengo foi ainda mais ousado na tentativa de formar um time dos sonhos. Recém eleito o melhor futebolista do mundo pela FIFA, Romário foi trazido do Barcelona em uma negociação que, a princípio, parecia impossível. Junto com o Baixinho, veio também seu amigo Edmundo. A eles se juntava Sávio, o “Anjo Loiro da Gávea”. Os três formaram o que a torcida intitulou de “melhor ataque do mundo”. Entretanto, esse slogan ficou apenas no imaginário. O começo foi até bom, com a conquista da Taça Guanabara. Porém, na decisão do Campeonato Carioca, brilhou a estrela (ou seria a barriga?) de Renato Gaúcho, que desviou um chute de Aílton e garantiu o título ao Fluminense.
LEMBRA DISSO?
Amine Silvares
Um dos meus programas favoritos na década de 90 era a TV Colosso. Parodiando uma emissora de TV, todos os personagens eram bonecos de cachorros de raças diferentes. Tinha a sheep dog Priscila, que me fez querer um cachorro desesperadamente, o bulldog Borges, o Walter Gate, apresentador do Jornal Colossal, e outros cãezinhos que formavam a equipe da “emissora”.
A TV Colosso foi ao ar entre os anos de 93 e 97, na parte da manhã, na Rede Globo. O programa entrou no lugar do Xou da Xuxa, do qual eu tenho uma vaga lembrança da nave, das roupas bregas, do Dengue e do Praga. Além dos quadros humorísticos voltados para o público infantil, também havia os desenhos animados que passavam durante a programação e que eram muito legais.
Talvez o momento mais lembrado pelos fãs seja o encerramento, que era sempre igual. Exibido pela manhã e terminado por volta do meio-dia, o boneco que fazia um chef de cozinha berrava “Atention, tá na horrra de matarrr a fomê, tá na mesa pessoaaaaal” com um forçado sotaque francês. Os outros cachorros surgiam desesperados e o cãozinho era atropelado por uma matilha faminta que se despedia com vários “até amanhã”.
Em 2004, os personagens da TV Colosso participaram de um especial de fim de ano da Rede Globo cantando o tema de abertura “Eu não largo o osso”. Eles também fizeram aparições em outros programas, como o Mais Você e Criança Esperança. O sucesso ainda rendeu uma peça de teatro com o nome da música do programa e três DVDs de melhores momentos.
LER, VER, OUVIR—ESPECIAL 1997
João Clemente
Ler: “O Deus das Pequenas Coisas” (1997) é um desses livros que você deve ler calmamente, com o estado de espírito certo, para poder apreciá-lo. Cada parágrafo é um universo próprio, imerso em outro, que é a página, e em outro que é o capítulo, e por aí vai. Histórias dentro de histórias, lembranças que remetem a outras lembranças; e imagens, cheiros, emoções, sutilezas, sonhos... Há um fio condutor, mas essa história principal propriamente dita pode ser resumida talvez em uma única página (nesse aspecto é como “A hora da estrela” da Lispector)—entretanto, dessa forma nunca poderíamos sentir a intensidade da história. Arundhati Roy, a autora, vai introduzindo o leitor aos poucos na subjetividade do livro, como em conserva, em picles... (A família personagem tem uma fábrica de picles).
Ver: “Contato” (1997) foi o primeiro filme que Robert Zemeckis fez depois de ganhar o Oscar com “Forrest Gump”. Mesmo sendo ficção científica (adaptado do livro homônimo de Carl Sagan, também muito bom), “Contato” é, sob diversos aspectos, um dos filmes que melhor representam o final dos anos 90. Pois nesta época havia certo otimismo e encanto em relação ao futuro, ao novo milênio, à tecnologia, à globalização... Vivíamos no chamado “mundo pré-onze de setembro”; e sequer a crise climática estava batendo à nossa porta... (Pelo que eu me lembre, a causa política mais em evidência era a libertação do Tibete e do Timor Leste...)
Bom, tudo isso para falar de um filme no qual uma mensagem vinda do espaço é captada por Ellie (Jodie Foster) e a partir daí governantes de diversos países se unem em torno de um empreendimento que talvez ainda não estejam preparados...
Ouvir: Em 1997, no meio musical, só o que se ouvia falar era que a música eletrônica dominaria o mundo. De fato, não era para menos, pois nesse ano foram lançados na Inglaterra diversos álbuns que hoje são considerados obras-primas/marcos do gênero: Chemical Brothers “Dig Your Own Hole”, Roni Size/Reprazent “New Forms”, Prodigy “Fat of the Land”, Portishead “Portishead”, Daft Punk “Homework”... Um ano antes, 1996, Aphex Twin lançava “Richard D. James Album” e Tricky “Pre-Millenium Tension”. Já um ano depois, 1998, saía Massive Attack “Mezzanine”, Air “Moon Safari”, Kruder & Dorfmeister “The K & D Sessions” e o popular Fatboy Slim “You’ve Come a Long Way, Baby”... Enfim, uma das épocas mais ricas da música em geral e que num futuro talvez ganhe seu merecido reconhecimento.
Deixe o seu comentário