OPINIÕES - Manifestações

segunda-feira, 24 de junho de 2013
por Jornal A Voz da Serra


De espectadores a protagonistas

 

Bernardo Fonseca  (*)

O que parecia impossível aconteceu. O Brasil vive a sua "primavera” e não dá mais para negar. Milhões de brasileiros decidiram sair às ruas para demonstrar sua indignação nos maiores protestos em mais de duas décadas. Mas indignação com o quê?, questionam alguns. A resposta está na diversidade do que está acontecendo. Os protestos não apresentam um objetivo único, mas uma diversidade de reclamações e reivindicações. Melhorias na qualidade do transporte público e redução nas tarifas, combate à inflação, PEC 37, corrupção, gastos exorbitantes para a construção da infraestrutura para a Copa do Mundo etc. São manifestações que começaram contra o aumento das tarifas de transporte público, organizadas através da rede social da internet, e que agora se tornaram multifacetadas, onde cada um leva a sua pauta e grita nas ruas por mudança. 

O que antes se restringia a grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro rapidamente se espalhou por quase todas as capitais e em pouco tempo chegou às cidades do interior. Em Nova Friburgo não foi diferente, e cerca de nove mil pessoas ocuparam a Avenida Alberto Braune e o Paissandu naquela que talvez tenha sido a mais importante manifestação popular desde a Noite do Quebra-Lampiões, em 1911. 

Por um lado isso tudo nos encanta e também nos deixa com um sentimento de perplexidade diante dessa "novidade” que é exercer o direito de se expressar pelas ruas das cidades. Afinal, até então o comum era ver pela televisão os ditos povos mais politizados, como argentinos, franceses, ingleses, espanhóis, gregos e até os egípcios protestando... Mas, brasileiros? A nação do futebol, da diversidade, e que até então se mostrava uma ilha de estabilidade, agora ferve com os milhões que decidiram que o momento chegou. Os governos estão claramente assustados com a dimensão que a revolta tomou e tentam encontrar a melhor saída para conter as multidões inflamadas. A redução no valor das tarifas de transporte público em várias cidades demonstra essa situação. 

No passado tivemos grandes movimentos de massa, como o Diretas Já e dos Caras-Pintadas, que tinham objetivos claros. Hoje a característica horizontal desses movimentos e a falta de uma pauta definida pode representar um grande perigo, pois ao gritarem por diversos temas, sem foco, as mobilizações podem perder sua força e terminarem no temido vazio. 

De uma forma ou de outra esses movimentos surgidos através da rede transmitem um recado claro para a classe política: as pessoas não querem ser apenas espectadores numa democracia representativa que a cada dia se mostra mais falida, com os partidos políticos cada vez mais desacreditados, mas sim, protagonistas dos processos de mudança. Para onde essa verdadeira revolução vai é uma questão que ninguém sabe. De certo mesmo, só sabemos que vivemos num daqueles períodos que entrarão para os livros de história.

(*) Bernardo Fonseca é universitário


 

Outro junho animado

 

Maurício Siaines (*)

 Em 26 de junho de 1968 acontecia a Passeata dos Cem Mil no centro do Rio de Janeiro, marco da luta contra a ditadura militar. À luz daquela época, é difícil interpretar os movimentos de rua deste junho de 2013. Sem dúvida, alguma coisa diferente está acontecendo no país inteiro. O que mais me chama a atenção é o modo como se articulam as mobilizações, através das redes sociais virtuais. Olho para isto com alguma incredulidade e me pergunto: será mesmo verdade, terá a internet substituído os antigos modos de as pessoas se encontrarem e decidirem agir? Em sindicatos, grêmios estudantis, partidos políticos, associações, igrejas o contato direto, com presença física dos participantes é o início de tudo.

Os alunos em fim de semestre com que conversei, na última quinta-feira, dividiam-se entre procurar saber de resultados de provas e dirigirem-se à Praça Dermeval Barbosa Moreira para a nova manifestação que iria à Câmara Municipal e ao Paissandu. Estavam todos muito excitados e tentei contê-los para que me explicassem como se tinham mobilizado. Todos diziam que teria sido através do Facebook, sem se darem conta de que eram alunos de uma mesma universidade e de que seus encontros normais na escola tinham sido muito importantes para decidirem participar das manifestações. Seja como for, porém, a internet trouxe alguma coisa diferente.

Quando eu era um pouco mais jovem que aqueles meus alunos de hoje, com menos de 16 anos, assisti a movimentos de soldados e de pessoas comuns nos preparativos para o golpe de 1964. Era 31 de março e o Largo do Machado, entre os bairros do Flamengo, Laranjeiras e Catete, no Rio de Janeiro, estava tomado pelos fuzileiros navais, fiéis ao presidente João Goulart. Metralhadoras nos jardins da igreja, um tanque de guerra supostamente defendendo o Palácio das Laranjeiras, então da Presidência da República, PMs e caminhões de lixo fechando o acesso ao Palácio Guanabara, onde se entrincheirava o governador Carlos Lacerda, um dos articuladores do golpe. No dia seguinte — 1º de abril, dia de enganar os bobos — tudo ficara diferente: o tanque mudara de lado e fora guarnecer a porta do Palácio Guanabara, enquanto os fuzileiros foram embora.

Foram muitas as manifestações depois disso. Gritava-se "o povo organizado derruba a ditadura”. E aí me vem outra pergunta: em que espécie de organização vão desembocar os movimentos de agora? Os partidos políticos são rejeitados, penso, com razão. Mas que espécie de organização vai vingar?

(*) Jornalista, mestre em sociologia, professor da Universidade Candido Mendes de Nova Friburgo

 

 

Três perguntas sobre os protestos

 

Luis Felipe Tourinho  (*)

 Estou surpreso com a força dos protestos no Brasil.

Para evitarmos confusões, já que um povo alienado e acomodado como o brasileiro não pode, assim, de uma hora para a outra, ser subitamente iluminado por uma consciência política, devemos nos fazer três perguntas:

1. O que se está combatendo e querendo mudar?

2. Quem são os adversários?

3. O que fazer?


O que se quer mudar?

Vivemos a crise da ruína dos dois pilares da civilização ocidental: a sociedade industrial e a democracia representativa.

As cidades ocidentais foram apropriadas por um bloco de interesses formado pelas indústrias da construção civil, automotiva e do entretenimento. Notem que a crise de 2008 pegou, sucessivamente, o mercado imobiliário, as montadoras e os conglomerados de comunicação.

As cidades foram planejadas e construídas não para pessoas, mas para automóveis e televisões. Os protestos contra o aumento das tarifas de ônibus são apenas a ponta do iceberg da insatisfação das pessoas com suas cidades.

Quanto à democracia representativa, ela também está ruindo pelo mundo afora. De repente a ficha caiu: temos estádios padrão Fifa e escolas, hospitais, polícias e transporte de péssimo padrão.

A revolta contra a PEC 37, que tira do Ministério Público a iniciativa de investigar, foi a gota d’água para entornar o pote de indignação contra a banalização da corrupção, do descaso e do despreparo por parte dos políticos.


Quem são os adversários?

Muitas vezes definimos nossas identidades e alianças a partir do estabelecimento de inimigos comuns. Vejo que os manifestantes possuem adversários em dois eixos.

No eixo político, existem dois polos: os com poder (situação) e os sem poder (oposição). O problema é que os dois polos se submeteram à esterilizante lógica eleitoral do processo político. O importante não é resolver os problemas do povo, mas, sim, ter acesso a fontes de recursos que irão bancar as campanhas eleitorais milionárias.

Mas existe ainda outro eixo, sendo este pré-político, tribal e mágico. Curiosamente, estão reunidos aí tanto o fundamentalismo religioso, como o do deputado que quer considerar as relações homoafetivas como doença, quanto os chamados Vândalos, nome de um povo bárbaro, que enxergam na depredação uma forma de ação política.

Embora totalmente opostos, os primeiros possuídos por símbolos e os segundos incapazes de qualquer tipo de simbolização, fanáticos religiosos e Vândalos estão unidos por um tipo de pensamento pré-político, tribal e mágico.


O que fazer?

A resposta é simples, mas a solução é extremamente complexa: a sociedade deve tomar em suas mãos as tarefas que os partidos políticos não conseguiram fazer. E quais são elas?

1. A formação política da juventude;

2. A apresentação de soluções para a baixa qualidade dos serviços públicos e da vida nas cidades;

3. A fiscalização da conduta moral e ética dos políticos no trato com o dinheiro público. A apresentação de uma proposta de reforma política e eleitoral. Um outro modelo de democracia é possível?

4. A promoção do diálogo entre religião, ciência e democracia que evite o domínio do Estado pelo fundamentalismo religioso.

O problema é como fazer isso tudo depois de passar oito horas no trabalho e mais três dentro de um ônibus apinhado?

(*) Luis Felipe Tourinho é médico e psicoterapeuta

 

 

Nós podemos, devemos e queremos

 

Carlos J. Magliano Neto  (*)

O filme E.T., grande sucesso de Steven Spilberg, traz uma cena inesquecível: o toque dos dedos entre o garoto humano e o extraterrestre. Essa cena acompanha-nos há muito tempo e faz muita gente voltar à infância. Ela é tão forte porque representa a maior necessidade humana: o contato. Fazer contato é o que sempre estamos querendo. Comunicar sentimentos, desejos, angústias, alegrias... Quando vemos os adolescentes e jovens em seus quartos, mexendo no computador, ouvindo o iPod, com a televisão ligada e o celular na mão, pensamos: "Nossa, que capacidade eles têm de manusear a tecnologia”. Quando na verdade é uma expressão da necessidade do toque, do contato.

E quem diria, que esses jovens, criticados por estarem num mundo virtual, muito mais do que no real, poderiam tomar conta das ruas de nosso país, reunindo massas humanas, simplesmente através de um clique no computador. Quem iria imaginar que no país do futebol, às vésperas da Copa do Mundo, os jovens internautas nos diriam que se interessam mais por construção de hospitais do que por espetaculares campos de futebol.

Sabemos que uma pessoa é velha quando suas lembranças do passado são maiores do que suas perspectivas de futuro. O contrário da juventude é a paralisação, a acomodação, a falta de movimento. Isso sim é velhice. Cabe aqui lembrar Millôr Fernandes e sua tendência a olhar sempre à frente que disse: "Atenção moçada: quando eu disser ‘no meu tempo’, quero dizer daqui a dez anos”.

Na verdade estamos bastante surpreendidos com o levante dessa juventude que dizíamos não sonhar mais. Esses jovens na rua — e olha que não importa a idade que tenham — representam os sonhos, os desejos de realização de milhares de homens e mulheres que levantam de madrugada para trabalharem em empregos que a maioria de nós não teria a coragem de enfrentar. 

Só que agora eu tenho que dar uma boa e uma má notícia: a boa notícia é que as manifestações estão acontecendo e encantando o país. A má notícia é que esse é apenas o primeiro passo. Primeiro passo de um grande objetivo: fazer o impossível. O "impossível” de uma mudança de mentalidade, uma mudança de cultura, onde a corrupção, a falta de ética, a má gerência dos recursos públicos, o jogo de interesses, os impostos que esmagam, a inflação que ameaça, a falta de liderança pública, as promessas eleitoreiras... sejam uma página virada. Parece impossível, não é? E será mesmo, até que alguém vá e faça. Nossa atitude na vida determina a nossa altitude na vida. Esse movimento deve continuar, se estruturar, se organizar para ter representatividade política. Quem está à frente do movimento não deve esquecer que ele é extremamente político. Mas político na raiz da palavra. Os antigos gregos criaram a palavra "político” para designar o homem que se interessa pela coisa pública, que não olha seus interesses mesquinhos, mas que trabalha em favor de sua comunidade. Como antônimo disso, os gregos criaram outra palavra: "idiota”, que é aquele que só cuida de seu próprio interesse em detrimento de todos os outros. Na antiga Grécia, idiota era quem não era político. Hoje parece que essa lógica está invertida.

Quem vê o invisível, realiza o impossível. Estamos a partir de agora obrigados a reconstruir em nossas imaginações o país que desejamos. Estamos obrigados a ver o que antes não víamos para realizar o que nunca realizamos. François Rabelais, grande nome da renascença francesa, nos diz: "Conheço muitos que não puderam quando deviam porque não quiseram quando podiam”. Nós podemos, devemos e queremos.

(*) Carlos J. Magliano Neto é coach e programador neurolinguísta



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