Opinião Pública: três conceitos básicos

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
por Jornal A Voz da Serra

Maurício Siaines (*)

Três conceitos básicos ajudam na tentativa de compreender o fenômeno da opinião. O primeiro deles é o de ‘racionalização’, definido por Ernest Jones (1879-1958), em 1908, adotado por Sigmund Freud (1856-1939). Trata-se de mecanismo de defesa do indivíduo que, em um processo inconsciente, quer evitar que sejam revelados seus desejos e suas pulsões, que ele próprio rejeita e condena, em acordo com os valores existentes em seu meio social. O mecanismo de controle é a produção de um discurso racional e lógico, adequado àquilo que o indivíduo quer que seja sua verdade interior, reprimindo o que é condenado. A racionalização é uma atitude, isto é, uma configuração interior do indivíduo que o prepara para uma ação. Quando o indivíduo está dentro deuma estrutura, produzirá discurso lógico e racional que o amolde a ela, ao discurso do chefe, por exemplo, preparando-se para agir de acordo com a estrutura.

A racionalização dentro do processo social é tratada por Norbert Elias (1897-1990), que diz ser mais exato, em vez de razão ou racionalidade, falar-se em diferentes modos de racionalização praticados por diferentes culturas. Isto é, cada formação cultural enseja ao indivíduo um modo peculiar de lidar com emoções, desejos e pulsões, desenvolvendo nele um conjunto de atitudes que contribuam para a preservação da ordem social. E neste processo de racionalização existe tensão resultante do esforço do indivíduo por amoldar-se a algo, criando discurso racional que justifique seu modo de agir socialmente (Norbert Elias, [1939] 1993. O processo civilizador, vol.2. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, p. 230.).

Outro aspecto do relacionamento entre indivíduo e grupo acontece no processo de formação de opinião e no uso desta para a ação. Há uma linha de pensamento no estudo das tendências de comportamento, de consumo e preferências eleitorais que alimenta esta discussão. É a concepção de que se forma a ‘espiral do silêncio’ pela omissão de opinião por parte de indivíduos que não desejam contrariar aquilo que supõem ser a opinião dominante do grupo de que fazem parte. A ideia de espiral deriva da constatação de que acontecem omissões sucessivas, com manifestações de opiniões em que se acredita serem as do grupo, afastando-se o indivíduo cada vez mais daquilo que realmente pensa, construindo-se, assim, um conjunto de crenças e tendências baseadas em um silêncio, formado pela repressão de algo que o indivíduo vislumbra em si próprio mas que não deseja manifestar, pelo temor se sofrer censura ou rejeição por parte do grupo. Elisabeth Noelle-Neumann (1916 - ) explica o fenômeno pelo medo que se instala no indivíduo diante da ameaça de ficar isolado por ter uma opinião desviante daquilo que acredita ser a tendência do grupo.

Realizou pesquisas de opinião em diversas campanhas eleitorais, em que, além da pergunta “Em quem você pretende votar?”, apresentava outra, “Quem você acha que vai ganhar a eleição?”. Verificou que, à medida em que se aproximavam os dias das votações, maior numero de pessoas dava a mesma resposta para as duas perguntas. Isto significa que, quando se aproxima o dia das eleições, número significativo de eleitores adere à candidatura que promete ser vitoriosa na votação, isto é, boa parte das pessoas quer estar do lado da opinião hegemônica. Émile Durkheim (1858-1917) também já havia se referido a este tipo de questão refletindo sobre o fenômeno da imitação.

Noelle-Neumann vem estudando o fenômeno da opinião pública, tendo apresentado suas conclusões pela primeira vez, no 20º Congresso Internacional de Psicologia, realizado em Tóquio, em agosto de 1972. Mais tarde, em 1993, publicou pela Universidade de Chicago ‘A espiral do silêncio - opinião pública: nossa pele social’.

Há complementaridade entre os estudos de Elisabeth Noelle-Neumann e as formulações de Norbert Elias, quando este trata do que chama de ‘imagem reticular’. Elias diz que, nas relações sociais, cada indivíduo traz dentro de si uma representação do outro, com que dialoga interiormente. Neste processo, um indivíduo se transforma com a imagem reticular – isto é, referente à rede – de outro e o fenômeno não pode ser explicado apenas pela estrutura do indivíduo, mas pela relação entre indivíduos. A imagem reticular está presente em todas as relações sociais.

Concluindo, duas ideias fundamentais precisam ser marcadas: 1) a opinião não é fenômeno apenas da razão humana e 2) a opinião só pode ser entendida no limite entre o individual e o social, como interação destes dois aspectos. Os três conceitos aqui referidos, racionalização, espiral do silêncio e imagem reticular, são o ponto de partida para se definir melhor essa forma fantasmagórica chamada de opinião pública.

(*)Jornalista, mestre em sociologia

[email protected]

TAGS: