Opinião pública: o que será?

segunda-feira, 08 de fevereiro de 2010
por Jornal A Voz da Serra

A palavra ‘opinião’ tem sido traiçoeira, especialmente desde que o sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002) declarou que a opinião não existe. O artigo de Bourdieu (L’opinion publique n’existe pas. Les Temps Modernes nº 318,1973) porém, era uma crítica ao pressuposto de que todas as pessoas têm uma opinião racionalmente refletida e verificada e à postura de atribuir-se às pesquisas de opinião um valor muito maior do que o real como instrumentos da ciência social.

Existe, no entanto, um fenômeno social, que às vezes é chamado de opinião, às vezes de tendência, às vezes considerado como uma inclinação, que vale a pena ser estudado e que, por deferência ao hábito consagrado, será chamado aqui de opinião, ou opinião pública.

O primeiro conceito de opinião aqui considerado foi definido por Jean Jacques Rousseau (1712-1778), quando se gestavam ideias e visões de mundo que orientaram o processo histórico chamado de Revolução Francesa, ou seja, quando nascia o mundo contemporâneo. Discutindo as espécies de lei que regem a vida política e as relações entre os cidadãos, Rousseau diz o seguinte:

“A essas três espécies [de lei] se junta uma quarta, de todas a mais importante, que não se esculpe no mármore, ou no bronze, mas sim no peito dos cidadãos; que forma a verdadeira constituição do Estado; que todos os dias medra em forças; que reanima e supre as outras leis quando elas envelhecem e se apagam; que conserva um povo no espírito de sua instituição, e insensivelmente substitui a força do hábito à força da autoridade. Falo dos costumes, usos e mormente da opinião, parte desconhecida de nossos políticos, e da qual depende o acerto de todas as outras; parte de que o grande legislador se ocupa em segredo, enquanto parece limitar-se a estatutos particulares, que são unicamente o arco da abóbada, da qual os costumes, lentos em nascer, formam finalmente a duradoura chave.” (Jean-Jacques Rousseau, [1762] 2004. Do contrato social. São Paulo, Martin Claret, p. 61 - grifo meu)

Atualmente, quando se fala em opinião pública trata-se apenas de tendências de mercado, isto é de inclinações coletivas por um ou outro produto, mesmo que este seja um candidato a cargo público. Praticamente não há aprofundamento da questão. Costuma-se apenas repetir lugares comuns sobre a ‘natureza humana’, sobre ‘o que é o ser humano’, banalizações estas que substituem o trabalho de inúmeros pensadores nas áreas da psicologia, da antropologia e da sociologia.

A complexidade desta discussão está na relação entre indivíduo e sociedade. Norbert Elias (1897-1990) começa a esclarecer essa questão, com recurso à psicanálise, quando mostra que a oposição entre indivíduo e sociedade é uma impressão que se vive como uma tensão entre “os desejos do indivíduo parcialmente controlados pelo inconsciente e as exigências sociais representadas por seu superego” (Norbert Elias, [1939] 1994. A sociedade dos indivíduos. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, p. 53). Ou seja, a contradição é ilusória, uma vez que indivíduo e sociedade são indissociáveis. O indivíduo, a partir de circunstâncias sociais e históricas em que se percebe sujeito, tende a considerar o que está fora de si como objeto, inclusive a sociedade.

Elias entende a sociedade como uma espécie de tecido cujos fios estão em movimento e se atam, desatam e tornam a atar-se. E essa rede é um fato externo ao indivíduo, no sentido em que ela existe antes de qualquer indivíduo, mas que só pode existir em função dos indivíduos porque são eles que permanentemente a recriam.

Ele diz que, nas relações sociais, cada indivíduo traz dentro de si uma representação do outro, com que dialoga interiormente. Trata-se do fenômeno de um indivíduo colocar outro em seu diálogo interior, a partir da relação social. Neste processo, um indivíduo se transforma com a imagem reticular – isto é, relativa à rede – de outro e o fenômeno não pode ser explicado apenas pela estrutura do indivíduo, mas pela relação entre indivíduos. A ‘imagem reticular’ está presente em todas as relações sociais. E assim os indivíduos tendem a evitar a manifestação daquilo que realmente pensam e entendem para formular ideias que estejam de acordo com o que supõem estar de acordo com a rede.

Em outras palavras, o medo de ‘estar por fora’ da rede levaria as pessoas a formarem opiniões que lhe garantissem esse status de participantes do grupo social em que desejam estar inseridas.

TAGS: