Marilza Bigio
A pergunta está nos olhos dos que perderam tudo. Está nas lágrimas dos que vêem tudo na tv. Está na expressão de impotência dos homens da Defesa Civil.
A tragédia, chega-se agora à conclusão de que foi pré-moldada pela natureza, pois todos os recursos naturais foram utilizados na devastação: as chuvas foram em bloco e demasiadas; os rios arrastaram as suas areias e a lama dos barrancos das margens, a mata antes fechada das montanhas, agora meio rara, fez sua parte desabando e destruindo tudo à sua passagem; os pequenos intervalos de sol serviram muito bem para solidificar o barro sobre casas e gente. A Natureza fez sua parte (mórbida e irrespondível) - mas... e o Homem?
A tragédia, agora se sabe, foi pré-estudada, mapeada, detalhada, há uns dois anos. Então... ???
Faltou a ponta que sempre falta em praticamente todos os estudos e previsões, e planos, e esforços de todo tipo para cada desastre natural de que o nosso país tropical é sempre uma vítima em potencial - até que se torna vítima real. Faltou AÇÃO. Ninguém pegou estes estudos e transformou em planejamento. Ninguém, depois de ter sido usada toda a tecnologia mais moderna, achou que era de sua responsabilidade entrar imediatamente (há dois anos!!) em AÇÃO.
Ninguém soube O QUE FAZER...
E por que isso acontece? Porque falta Ensino. Fala-se muito em Educação - demais, a toda hora, na tv, então... Mas o que não temos, na verdade, é Ensino. Ensino é transmissão de conhecimento + transmissão de sentimentos sobre o conhecimento + ética + TREINAMENTO.
Na tevê, os bravos apresentadores, todos eles fazendo um trabalho impecável (assim como todo o jornalismo de todas as redes), citavam os planos de emergência de países que têm sempre terremotos, enchentes etc. E acabavam por fazer sempre a mesma pergunta: por que não houve uma AÇÃO preventiva, e também, por que não houve uma AÇÃO rápida, coerente, organizada, às primeiras previsões de tempestades fortes em Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis.
Não houve, amigos, porque NÃO HÁ. Não há NUNCA.
Não há ensino que treine as crianças - que adorariam isso, como uma brincadeira - em fazer coisas. Não há oficinas - a não ser as que chamam de “artesanato”, bem-vindas, mas que sugerem sempre não a tendência à utilidade, mas à arte. Não há atividades que treinem meninos a serem rápidos, fortes e ágeis (como eles veem no Big Brother, mas só entre jovens que são exceções: bem nutridos, bem nascidos, ou bem treinados).
Não há nas escolas ensino de técnicas de diversos tipos que dariam aos jovens uma prática de se safar diante de obstáculos, e de decodificar os sinais da Natureza - e saber quando sair de um lugar, por exemplo, quando está ameaçado.
Não há ensino que treine os jovens para serem futuras autoridades civis ou militares conscientes - só se ensina a eles que autoridades são corruptas e militares ficam sem fazer nada até serem chamados para um Morro do Alemão,por exemplo.
Nossos jovens - com raras exceções - não veem qualquer atrativo em serem médicos, enfermeiros, bombeiros, funcionários públicos de departamentos de ação junto à população, militares de carreira, meteorologistas, pilotos, e... PROFESSORES!!!
Minha querida Nova Friburgo foi devastada, toda a sua história vilipendiada, sua pacífica população violentada, e tudo o que todos se perguntavam, enquanto arregaçavam as mangas e trabalhavam forte para resgatar um número inacreditável de corpos, era: O QUE FAZER???
Trabalhei com o prefeito Paulo Azevedo, em Friburgo, em duas ocasiões. Na primeira, em 88, ele tomou posse no dia 1º de janeiro e em seguida teve de enfrentar uma catástrofe que ficou na história da cidade. Empreendedor, rápido, dono de uma incrível capacidade de liderança, Paulinho - como gostava de ser, e era, chamado - mobilizou todos os recursos da Prefeitura, e conseguiu feito inédito na época, que foi o apoio financeiro de seu partido, em dinheiro urgentemente liberado, para um sem-número de obras necessárias e urgentes.
Daí para a frente, nesse seu primeiro governo, ele dotou Nova Friburgo de barragens, estradas e ruas pavimentadas, escolas, ampliação e equipagem dos hospitais e postos, num esforço que fez a cidade progredir a olhos vistos, recebendo prêmios de excelência em Educação, por exemplo. O povo gostou, não havia reeleição, e o sucessor dele foi o também muito empreendedor Nelci da Silva, já falecido.
É, o povo gostou tanto que, depois de Nelci, Paulinho voltou para um segundo governo. O povo sempre gostou do Paulinho. Perdeu eleições depois, mas sempre teve uma multidão de friburguenses do seu lado. A maioria, por gratidão pelo tanto que ele fez por nossa cidade - sim, eu me incluo, porque apesar de ser carioca tenho Friburgo nas minhas raízes e no meu coração.
Fico triste a toda hora vendo a destruição da cidade. Mas sei de que matéria é feita o povo friburguense - de força, de garra, de consciência, de alegria de viver - desde os primórdios de sua história, quando os colonos suiços, heróis de uma época, desbravaram a mata para nesta serra se instalarem com suas famílias e seus sonhos. Sei que Friburgo não será destruída. Sei que Friburgo voltará a ser a mesma de sempre: linda, forte, voltada para o futuro. Friburgo vai dar a volta por cima. Com Deus.

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