O pensamento abstrato de um artista que gosta de desenhar no espaço

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
por Jornal A Voz da Serra
O pensamento abstrato de um artista que gosta de desenhar no espaço
O pensamento abstrato de um artista que gosta de desenhar no espaço

Por Nai Frossard

Chovia temporais, a plateia era seleta e o palco foi preenchido por um homem de aparência simples, na sua camisa branca de sempre, barba bem aparada e timidez dentro do bolso de linho. Convidado pela artista friburguense Sani Guerra – premiada pela Funarte com o Projeto Construção – o escultor Nelson Felix começou sua palestra explicando sua forma abstrata de pensar, de desenhar e de perceber o espaço. “O espaço são poros de Deus”, lançou.

Para o artista plástico, que tem sua obra pontuada no mundo todo, é através do espaço que esses poros são sentidos, e onde as percepções acontecem. E como Felix não é do tipo que dá voltas para falar o que pensa, foi direto: se sentia incomodado por estar falando num microfone, porque isso atrapalhava sua própria percepção daquele espaço, daquele momento, das pessoas que estavam ali. Mas não se abalou e continuou, costurando arte, pensamentos, reflexões, movimentos, beleza, conceitos, linguagem, tempo e espaço.

“Há artistas que pensam e outros que requentam pensamentos”, afirmou Felix. Ele deu uma pincelada nas artes plásticas e nos movimentos que expandiram a arte como um todo, as transformações na apresentação da forma, da cor e das composições, dos trabalhos artísticos. “Tudo isso foi arrebentado com alguns movimentos, mas o conceito vai existir sempre, como centro da questão, isso não arrebenta nunca”, afirmou. O importante, como ressaltou, é a criação de uma linguagem que revele a obra do artista e o que ele está pensando.

“Escultura e desenho são as duas linguagens pelas quais sou apaixonado. Os chineses observavam determinada paisagem ou objeto e depois desenhavam. Ou o que viam, ou o que sentiam com o que viam. Tenho feito isso com o meu trabalho”, contou o artista. Um desenho, como ele enfatizou, tem a força da alma colocada no objeto.

Nelson Felix falou sobre alguns dos seus trabalhos, Cruz na América (quatro obras que formam uma cruz no mapa da América do Sul), e Camiri, em Vila Velha, Espírito Santo. De Camiri ele fez a ponte para o trabalho atual, Cavalariças, e a exposição na galeria H.A.P., no Rio. Todos os trabalhos são interligados, têm centenas de conceitos e pensamentos sem fim. Compõem um desenho maior, que ele cria num espaço bem mais amplo. Sua linguagem é altamente poética e seus versos são compostos por palavras lapidadas, pela busca do que é inteiro, marcados pela intensidade de significados que se autoconsomem até chegar na própria essência: o significado nenhum, o oco, de onde partiu o primeiro olhar.

(O artista plástico Nelson Felix, que reside em Nova Friburgo, fez palestra no último dia 19, no Centro de Arte, e está expondo no Parque Lage e na Galeria H.A.P, Jardim Botânico, Rio de Janeiro)

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