*Laryssa Frezze
O novo favorito sabe que as cores neon estão na moda e, portanto, admira as fluorescências. Sente calor, conforme as estações, muito embora não as compreenda de fato—e acha o maior desperdício de tempo não poder sair de casa por conta da chuva.
Da mesma forma, o novo favorito sabe concordar habilmente com qualquer que seja a premissa dada por seus superiores e também não contesta a personalidade a ele atribuída, assumindo-a com o deleite de ser compreendido e com talentos de ator.
Não lhe é útil o relógio, mas guia seus compromissos a partir dos rotineiros programas de TV. E sabe um nada de livros, que qualquer conhecimento afastado das imediatas necessidades diárias lhe parece terrivelmente inútil!
Gosta preferencialmente de açúcar, almeja uma vida entre corredores e paredes (tão seguros, quanto carcerários) e ri com bastante frequência. De fato, faz mesmo piadas muitas e pueris, mas que arrancam sinceríssimas gargalhadas.
Não sonha.
Não chora.
E mesmo Manuel Bandeira não é capaz de lhe mover qualquer sentimento acerca da poesia que pode existir nas manchetes dos jornais se se tiver os olhos para ver.
O novo favorito levanta, almoça e janta num intervalo tão curto como o piscar de olhos de um cão entediado. E vive toda a longa vida sem tempo (ou vontade) para apreciar as borboletas—que delas é época—ou o cheiro das frutas em flor.
E também não lhe interessam as histórias, quer sejam dos tempos idos, quer de aventuras frescas. Não guarda também as vivências próprias e o que armazena de memória é aquilo que pode ser posteriormente utilizado em seu próprio favor.
De todas as esquisitices (sem exceção!) tem um ódio viral que chega a lhe tirar o fôlego e a lhe infligir a mais cruel dor de cabeça. Não consegue, sinceramente, conceber por que alguém quereria se afastar do padrão e da normalidade assim, de livre e espontânea vontade.
Quanto ao seu discurso, repete-o de outros tempos e bocas, mas em contextos diferentes—o que faz com que algumas de suas conclusões soem genuinamente inteligentes. E, no entanto, o significado oculto das palavras jaz para além de sua consciência, num lugar propositadamente úmido e escuro, de onde mantém distância—embora bem saiba das atrocidades que por lá se passam.
Mas dorme um sono de pedra e o dia seguinte lhe reserva todo o desenrolar do fio—vão, vão.
Sua companhia é muito apreciada por conta de sua personalidade de grau mediano em todas as inteligências.
Não conhece nem nunca sentiu a coragem. A sabedoria lhe é pedante e o conhecimento, momentâneo.
O novo favorito é incapaz de empatia, se isso não se reverter em vantagens para si. Aprecia e sente-se útil na pressa, enaltece-se com elogios baratos, mas usa caros sapatos e relógios.
Conhece as secretas artes do engano e da malandragem e delas acha graça.
Possui músculos de aço que nunca se cansam, apesar dos pesares.
E está em todos os lugares, a todo o tempo, sempre, num vazio pesado de existência e distante da realidade do mundo—apesar de tão próximo dela.
Janeiro de 2013.
lara_frezze@hotmail.com
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