O Andarilho - E então você veio! - 22 a 24 de outubro 2011

Por Leonardo Penna
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
por Jornal A Voz da Serra

Hoje você estava em casa quando retornei do trabalho. Por essa razão, uma empolgação tomou conta de mim. Corri para seus braços de tanta emoção e satisfação. Não me sentia assim desde criança. Nesse momento percebi que eu, um homem adulto, saltava novamente como uma criança, sentindo os mesmo cheiros e vivendo as mesmas sensações de quando estávamos juntos.

A felicidade tomou conta de mim. As sensações se transformaram num turbilhão. Sentia meu coração disparar. Sentia calor. Sentia frio. Suava. Meu sono ficou agitado e acordei. Ficou escuro. A partir de então, tomando ciência de onde estava, lembrei de que dia era, olhei para o lado e confirmei que tudo tinha sido um sonho.

Lembrei que tinha partido e tive dificuldade de voltar a dormir. Queria muito que tudo aquilo fosse verdade. O seu cheiro estava tão presente. Desejava adormecer, vez que tinha como verdade que se isso ocorresse encontraria outra vez contigo. Continuaríamos de onde fomos interrompidos. Todavia, entendendo o momento e analisando de maneira consciente, nada podia fazer se não aguardar outra oportunidade daquelas.

Minha dor naquele instante fora devastadora e minha alegria infinita. Valores e sentidos opostos, mas que coexistiram perfeitamente. Tudo isso por você ter vindo me visitar numa fase tão importante da minha existência. Fiz por merecer receber sua visita num dia tão essencial para mim. Senti sua presença e constatei que está bem e com permissão para agir da maneira que agiu. Tive a certeza de que continua zelando por mim, como sempre fizeste.

Você, com sua visita, trouxe meu amor de volta, sentimento que estava longe e perdido. Sentimento que eu perdera quando não tinha me permitido entender sua partida. Sentimento que você, quando esteve entre nós, sempre exaltou e exerceu com maestria. Sentimento que nos ensinara como simples, mas indispensável ao ser humano. Sentimento que mostrou independer de qualquer outro e de qualquer situação. Sentimento que há, sentimento que existe, e pronto. Você sempre foi único nisso.

Por várias oportunidades você demonstrou isso. Seja abrindo mão de viajar pelo mundo, preferindo ficar com sua família, mostrando o desprendimento e o amor incondicional que tinha por nós. Como sou grato por isso! Seja também por metáforas ou por mensagens diretas, você sempre foi capaz de amar e nos ensinar a amar.

Agora, quando você regressou, estava eu com o coração frio, cabeça desorganizada e sentimentos em desalinho. Parte disso desde quando fora embora; parte também pelo que enfrentei em relação ao meu estado de saúde. Mas, sinceramente, muito por conta da sua partida e por não ter respeitado o meu tempo e me permitido cuidar dessa etapa. Entretanto, hoje, quando você esteve aqui me visitando, percebi que devo permitir que minha vida siga e que eu exercite o que aprendi contigo. E foram muitas coisas.

Em sua visita você me lembrou mais uma vez que sou responsável por mim e, portanto, devo cuidar de mim, sendo o melhor possível. Você me ensinou mais uma vez que posso ser o que desejar e alcançar tudo o que traçar como objetivo, bastando, para tanto, que entenda e aceite que sou responsável por mim e que devo agir como tal. Tenho liberdade para decidir, mas essa liberdade gera responsabilidade. Escolhas sempre estarão presentes durante minha existência, mas elas são salutares e sou capaz de exercer o meu direito de opção. Não por ser filho de quem sou, ou por estar junto de um ou outro, mas porque este é um direito divino.

Você me lembrou que não devo dizer tudo que penso, mas devo pensar em tudo antes de dizer, tal como o sábio ensinou. É fato que meu coração e minha mente ficaram por quase dez anos desequilibrados. Sentia-me vazio e sem força. Ignorava o que houvera conquistado durante esse tempo em que você viajou. Sei que conquistei muito durante quase uma década. Sei que fui responsável por ter causado dor e frustração nos que gostam de mim, mas sei também que proporcionei a eles alegria e satisfação depois de reencontrar o caminho certo.

A alegria estava longe e pensava se um dia a reconquistaria. Não queria perceber como fingia e fugia de mim mesmo, sem me permitir ter meu próprio luto. Não me permitia perdoar. Não me permitia viver o que tenho a viver. Relutava em aceitar o que sou e quero ser.

Entretanto, após sua visita pude aprender e apreender mais uma vez contigo que nada externo será capaz de mostrar a mim o mapa. Entendi que o mapa não é o território. Constatei que a alegria está em mim e sempre esteve, embora eu não a deixasse ser completa. Fazer os outros rir não significa ser feliz. E você me mostrou isso!

Tenho a convicção de que me ouve e sempre está próximo de mim. Entretanto, entendo que eu posso exercer meu livre arbítrio e escolher sozinho. Você fez a sua parte, e muito bem. Eu, agora, mereço fazer a minha.

Pai, obrigado por tudo isso!

Eu não me sentia assim desde criança. Mas sei agora—como nunca soube ou não quis perceber—que devo manter meu templo interior em ordem e harmonia, e assim todo o resto acompanhará. Posso melhorar quem sou e, assim, mudar o mundo. Não que mudar o mundo seja indispensável, mas melhorar minhas ações é o melhor que posso fazer por mim.

Pai, siga em paz! Porque estou em paz!

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