Nova Friburgo ajudou a regenerar a Mata Atlântica nos últimos 30 anos

Estudo mostra que cidade foi uma das que mais recuperaram a floresta no estado
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
por Alerrandre Barros
Nova Friburgo é cercada pelo verde da Mata Atlântica (Foto: Henrique Pinheiro)
Nova Friburgo é cercada pelo verde da Mata Atlântica (Foto: Henrique Pinheiro)

Nova Friburgo recuperou 174 hectares da Mata Atlântica, revelou uma avaliação detalhada da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É como se nos últimos 30 anos o município tivesse regenerado, espontaneamente ou por reflorestamento, quase nove Maracanãs. O estudo monitora a distribuição espacial do bioma e identificou que 4.092 hectares (ha) da floresta foram recuperados em todo o estado do Rio de Janeiro.

Segundo Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, divulgado na última semana, Casimiro de Abreu foi o município que apresentou mais áreas regeneradas no período avaliado, num total de 267 hectares, seguido das cidades de Itaperuna (223 ha), Duas Barras (220 ha), Rio de Janeiro (209 ha), Vassouras (203 ha), Nova Friburgo (174 ha), Valença (153 ha), Santa Maria Madalena (144 ha), Cambuci (129 ha) e Silva Jardim (119 ha).

“É uma boa notícia, e a tendência é que só melhore”, avalia o chefe da Área de Proteção Ambiental (APA) de Macaé de Cima e ex-chefe do Parque Estadual dos Três Picos, Sérgio Poyares. Para o ambientalista, a criação de áreas de proteção somadas a políticas públicas de preservação, fiscalização e educação ambiental contribuíram com a regeneração da floresta em Nova Friburgo.

“A criação da APA, em 2001, área de uso sustentável com 35 mil hectares; em 2002, a criação do Parque Estadual do Três Picos, a maior área de proteção integral do estado com mais de 65 mil hectares; a conscientização da população rural e de pecuaristas; o trabalho da Polícia Ambiental; as iniciativas de educação ambiental nas escolas e o monitoramento via satélite das áreas com supressão vegetal. Todas essas ações explicam o bom resultado”, disse Poyares.

A Mata Atlântica cobria originalmente 100% da área do Rio de Janeiro, ou seja, um pouco mais de 4,37 milhões de hectares. Hoje, restam apenas 820.237 mil hectares do bioma –  18,7% desse total no estado. Só 44,78% da floresta original existe em Nova Friburgo. De acordo com o Atlas dos Remanescentes Florestais, nos últimos 30 anos foram desmatados 186.345 mil hectares de Mata Atlântica no estado. Dos 92 municípios fluminenses, todos têm ocorrência em pelo menos uma parte da floresta.

O estado tem 13 representantes na lista dos 100 municípios que mais desmataram o bioma nos últimos 30 anos, de acordo com o Atlas dos Municípios da Mata Atlântica. Juntos, eles desmataram 94.825 hectares, o equivalente à área de Nova Friburgo (93.341 hectares). Apesar disso, o Rio de Janeiro alcançou o posto de estado com nível de desmatamento zero (menos de 100 hectares de desflorestamento) entre 2014 e 2015, com 27 hectares desmatados.

O estado ainda se destaca nos esforços para ampliação das Unidades de Conservação, públicas e privadas, as chamadas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). Nova Friburgo e Silva Jardim têm 20 reservas privadas cada. No total, já são 150 RPPNs no estado.

"Agora, o desafio é preservar o que resta e recuperar e restaurar as florestas nativas que perdemos. É importante uma ação conjunta envolvendo Poder Público, iniciativa privada e sociedade", afirma a diretora-executiva da SOS Mata Atlântica, Marcia Hirota.

Nos últimos 30 anos, houve uma redução de 83% do desmatamento do bioma. De acordo com Marcia, sete dos 17 estados da Mata Atlântica já apresentam nível de desmatamento zero. O Rio de Janeiro se encontra no nível do desmatamento zero desde 2011, com menos de 100 hectares de desmatamento total anual.

“Embora o levantamento atual não assinale as causas da regeneração, ou seja, se ocorreu de forma natural ou se decorreu de iniciativas de restauração florestal, é um bom indicativo de que estamos no caminho certo”, disse.

O estudo analisou imagens geradas por um satélite que mostram a regeneração sobre formações florestais que se apresentam em estágio inicial de vegetação nativa, ou áreas utilizadas anteriormente para pastagem e que estão em estágio avançado de regeneração. O processo acontece por causas naturais ou induzidas por meio do plantio de mudas de árvores nativas.

“Durante o monitoramento, constatou-se a existência de outras áreas ocupadas por comunidades de porte florestal em diversos estágios intermediários de regeneração, áreas essas que devem ser mapeadas e divulgadas em futuros estudos”, esclareceu Flávio Jorge Ponzoni, pesquisador e coordenador técnico do estudo pelo Inpe.

A Mata Atlântica está distribuída ao longo da Costa Atlântica do país, atingindo áreas da Argentina e do Paraguai nas regiões Sudeste e Sul. De acordo com o Mapa da Área de Aplicação da Lei nº 11.428, a floresta abrangia originalmente 1.309.736 km2 no território brasileiro. Seus limites originais contemplavam áreas em 17 estados: PI, CE, RN, PE, PB, SE, AL, BA, ES, MG, GO, RJ, MS, SP, PR, SC e RS. Nessa extensa área vivem atualmente mais de 72% da população brasileira.

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