Notícias da Floresta - Rio+20 e a perda da biodiversidade: pra quem?

Por Valdir Veiga - valdir.veiga@gmail.com
sexta-feira, 01 de junho de 2012
por Jornal A Voz da Serra

Por Valdir Veiga

valdir.veiga@gmail.com

No passado distante do início do século passado a Amazônia possuía cidades riquíssimas. Na Manaus projetada pelos ingleses, empresários passeavam com suas cartolas nos bondes elétricos que cortavam o centro da cidade, enquanto na capital (Rio de Janeiro) ainda não havia iluminação pública por eletricidade. No belíssimo Teatro Amazonas, as senhoras da aristocracia manauara frequentavam as óperas e apresentações dos melhores artistas europeus e depois enviavam seus vestidos de volta a Paris, para que lá fossem lavados. Na origem de toda essa pujança econômica esteve a exploração de um recurso da biodiversidade, a borracha. Poucos anos depois, um contrabando de sementes possibilitou que países asiáticos produzissem com mais qualidade e mais barato essa matéria-prima essencial para a produção de pneus automotivos. Pelas décadas seguintes, sobreviver na Amazônia era vender madeira.

Em um passado não tão distante, em 1992, o Rio de Janeiro foi a capital mundial das discussões sobre a proteção da biodiversidade. Biopirataria era um termo comum à época. Alguns iam mais a fundo nas questões e chamavam de biocorsários aqueles que, com autorização de seus governos, faziam prospecção de medicamentos em países ricos em diversidade e pobres em leis e desenvolvimento. Agora, 20 anos depois, a reunião denominada Rio+20 reabre as discussões sobre o uso dos recursos vegetais, da água e seus reflexos no clima do planeta.

O que mudou nesses 20 anos? A floresta continua sendo queimada e as opções de sobrevivência e subsistência para a população da Amazônia ainda são escassas. As pressões do agronegócio estão cada vez maiores, investindo toda força sobre cada metro de margem de rio que ainda possua vegetação. O cupuaçu é patenteado no Japão, a Colômbia já produz açaí e na Flórida já se começa a plantar jabuticaba.

Quando se examinam as políticas públicas, o desenvolvimento sustentável da Amazônia (e da Mata Atlântica, Cerrado, etc...) é questão prioritária, mas os recursos continuam sendo disponibilizados e depois contingenciados. Já sabemos o que fazer, não precisamos de novas reuniões para discutir, mas fazemos? Na prática, conservação ainda é levantar muros e criar reservas malprotegidas. Mas conservar pra quê? Pra quem? Ainda há mais pesquisadores em uma única universidade paulista do que em toda a Amazônia, em seus oito estados.

Lá fora pasta de dente japonesa tem substâncias da nossa floresta que ainda nem conhecemos. Suplemento alimentar à base de açaí rende mais na Califórnia que todo o comércio da fruta no Brasil. A castanha-da-amazônia está presente em mais produtos cosméticos europeus do que consumimos como alimento.

Sem investimento pesado em educação, ciência e tecnologia, não haverá inovação. Sem que haja uma prioridade real em explorar de forma sustentável nossos recursos, perderemos novamente a chance de desenvolver o país utilizando a nossa biodiversidade. Perderemos, como sempre, não para biopiratas, mas para nós mesmos. Pela nossa menor capacidade de estudar, fazer ciência e gerar renda a partir dela.

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