“É o momento de trabalhar para esperar as chuvas que virão, certas, no fim do ano. Já estamos nos movendo ou aguardamos, ‘desavisados’, as próximas chuvas?”
Ao longo da história o homem tem se fixado nas proximidades de regiões de várzea, extremamente férteis, como os vales dos rios Tigre e Eufrates, na Antiga Mesopotâmia, e o vale do Nilo, no Egito. A possibilidade de conseguir comida não só dos rios, mas também do cultivo fácil do solo fez com que as populações nômades se fixassem e novos modos de vida se formaram. Cada cheia trás novos nutrientes ao solo, o recupera, renova.
Os rios Negro e Amazonas são os dois maiores rios do mundo em volume de água (o Nilo é o segundo em extensão). Este ano de 2012 ficará marcado na história recente da Amazônia como aquele em que os rios tiveram suas maiores cheias, recordes dos 100 anos em que são medidas. Não só o rio Negro, que banha Manaus, mas também o rio Solimões e, consequentemente, o rio Amazonas alcançaram níveis nunca antes relatados.. Com a cheia recorde, muitas cidades ficaram embaixo d’água. Outras, tiveram que conviver de perto com sua própria falta de cuidado com o lixo, com seu despreparo.
As cheias na Amazônia são comuns. Não são devidas a uma grande e poderosa chuva, de um dia apenas, mas são o resultado de meses de chuvas contínuas, todos os dias, diversas vezes ao dia. Lentamente, a temperatura vai ficando mais amena e as águas dos rios vão subindo. Depois do solstício de inverno, agora em junho, as chuvas param e os rios começam a baixar, e a temperatura a subir.
Agora que as águas estão baixando, o ciclo volta à sua normalidade. As regiões de várzea voltam a ser ocupadas para o cultivo do milho, do cará e da mandioca. Tão certo quanto o sol que nasce no dia seguinte, junho trás a vazante e dezembro a cheia. O amazônida se acostumou de tal forma a estes ciclos que mesmo o asfaltamento e as obras públicas, por exemplo, seguem esse ritmo.
Agora é a hora de construir as barreiras e contenções dos morros. Arrumar as tubulações destruídas, retirar casas de áreas de risco e levar os moradores para lugares mais apropriados. É o momento de trabalhar para esperar as chuvas que virão, certas, no fim do ano. Já estamos nos movendo ou aguardamos, “desavisados”, as próximas chuvas?
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