“A rotina não atrapalha só os relacionamentos. Repetir tudo o que se faz exatamente da mesma maneira por anos a fio atrofia o cérebro”
No meu caminho entre a casa e o trabalho há seis trajetos diferentes possíveis. Alguns são mais rápidos, outros mais curtos, alguns com asfalto pior, todos com características diversas. Comumente passo semanas utilizando somente um, para então retornar a outro e descobrir situações e paisagens que antes passaram despercebidas. Um buraco, uma padaria, uma árvore florindo. Sempre que possível pego uma carona e fico maravilhado com tudo o que estava ali, e eu não percebia enquanto tinha a minha atenção voltada para o ato de dirigir.
Nosso cérebro precisa estar criando, descobrindo. Repetir tudo o que se faz exatamente da mesma maneira por anos a fio atrofia o cérebro. A rotina não atrapalha só os relacionamentos. Com ela os neurônios não fazem muitas conexões novas, não ocorre um maior entrelaçamento entre as células nervosas que possibilita a criação de novos caminhos que resultam, em última análise, na inteligência mais desenvolvida, em criatividade.
No aprendizado é sempre assim. Alunos que vão à sala de aula assistir os slides que vão sendo trocados um após o outro, nada aprendem. Quando são estimulados a criar, aprender por meio de trabalhos, músicas, jogos, relações com o cotidiano, com os sentidos à flor da pele e maior apelo ao lúdico o novo conhecimento é espalhado e sedimentado em várias partes do cérebro, que estarão relacionadas.
Nas minhas primeiras aulas de geografia tínhamos que fazer trabalhos para aprofundar os conhecimentos nos costumes e características de outros países, o que não era nada fácil. Recorri às bibliotecas e enciclopédias, mas muita informação já estava ultrapassada. O professor me estimulou a ir mais além e não foi difícil conseguir os endereços de embaixadas e consulados. Demorou, mas recebi pelo correio uma grande quantidade de material que me ajudou não só a passar naquele ano, mas a aprender melhor o conteúdo e a fazer uma descoberta importante: de que novas possibilidades sempre existem. Hoje, com a internet, conseguir a informação para preparar trabalhos da escola ficou muito mais fácil, rápido, acessível a qualquer um. Ainda que existam vídeos e redes sociais esse conhecimento ficou mais frio, superficial. Isolados por trás de suas telas, conectados ao mundo, não há mais movimento, os sentidos são normalmente minimizados à visão. Não há o lúdico, o cheiro, o toque, as possibilidades são somente aquelas apontadas pelo Google.
Para que esta situação mude, falta muito. Falta tempo e criatividade aos professores. Melhor salário para poder ter tempo, melhor formação para ter mais criatividade. Falta infraestrutura e interesse, museus e jardins botânicos, jogos escolares e turmas de aprofundamento.
Também vítima dessa falta de infraestrutura, me vi há pouco tempo em uma sala de aula com trinta alunos e nenhuma energia elétrica. Diante do breu absoluto e adolescentes ansiosos, saímos da sala e levei os alunos ao jardim, onde uma embaúba se apresentava frondosa à beira da floresta. Naquela embaúba ensinei aos alunos os conceitos de crescimento de borda, das espécies que crescem rápido, com luz forte, e depois fazem sombra para que outras mais sensíveis possam crescer. Que por terem este crescimento acelerado, acabam fixando pouco carbono. A conversa evoluiu para as formigas que fazem seus ninhos no interior do tronco oco, para as preguiças que vivem nas embaúbas, se alimentam das folhas e têm as costas pintadas com o mesmo desenho, um disfarce que funciona como proteção contra o ataque dos gaviões.
Por meses e meses aquela aula foi relembrada e a lição permanece sendo reaprendida todos os dias: é preciso ter criatividade para ensinar e para aprender.
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