Negociar para não perder

terça-feira, 14 de abril de 2015
por Jornal A Voz da Serra

O GOVERNO FEDERAL admite negociar “tudo” e irá “acatar” possíveis mudanças nas medidas provisórias que alteram os benefícios sociais encaminhadas ao Congresso como parte do ajuste fiscal. Entretanto, ao admitir que tudo pode ser modificado, o governo deixa a conta do prejuízo apenas nas mãos da sociedade e não tomou nenhuma providência efetiva para deter os gastos públicos.

PRESSIONADA pelas manifestações de rua e por atritos com o Congresso, a presidente Dilma Rousseff agora volta a considerar a possibilidade de uma redução no número de ministérios, com um pedido de estudo sobre a viabilidade de cortes à Casa Civil. O resultado financeiro da intenção pode até ser considerado modesto diante do esforço que o setor público precisa fazer para reequilibrar suas contas.

AINDA ASSIM, o gesto tem um significado simbólico importante. Se concretizado, irá demonstrar a disposição do poder público de fazer sua parte para o ajuste fiscal, além de reduzir o aparelhamento do Estado.

NÃO É A PRIMEIRA vez que o tema entra em pauta. Por isso, é importante acompanhar até que ponto a pressão das ruas por uma redução poderá se mostrar superior à da manutenção do quadro atual por líderes políticos e movimentos sociais. Só a acomodação de interesses pode explicar o fato de o número de ministérios no país ter se expandido dos modestos oito, no início da República, para 10 na Era Vargas, 34 no governo de Fernando Henrique Cardoso e 38 no de Luiz Inácio Lula da Silva, até chegar aos 39 atuais.

A ALEGAÇÃO DE QUE a sociedade sairia perdendo com uma eventual redução no número de ministérios não se sustenta. Em muitos casos, o que se constata hoje é o contribuinte se deslocando por órgãos de diferentes ministérios para carimbar documentos, enfrentando uma insana burocracia, quando o atendimento poderia ser prestado num único local.

O EXAGERO ATUAL serve apenas para acomodar apadrinhados. A presidente da República daria um sinal importante de apoio ao ajuste fiscal se diminuísse os excessos, cortando na própria carne, neste momento de crise.

ENQUANTO A NEGOCIAÇÃO do ajuste fiscal permanece, a iniciativa privada amarga os resultados da crise. Segundo apontou o IBGE, o volume de vendas no varejo caiu 3,1% em fevereiro deste ano comparado com o mesmo mês do ano anterior. E a taxa de desemprego vem aumentando no país. No trimestre de novembro a janeiro ficou em 5,3%. São 6,8 milhões de pessoas desocupadas, um aumento significativo de 1,301 milhão de pessoas em relação a janeiro de 2014. A crise está só começando. 

 

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